O ano em que Felício mais aprendeu na NBA

Luís Araújo

Na noite do Draft de 2017, quando viu que Jimmy Butler tinha sido mandado para o Minnesota Timberwolves, Cristiano Felício entendeu a mensagem na hora. Ao abrir mão de um “all-star”, o Chicago Bulls anunciava para toda a NBA que estava entrando em uma nova fase. Era hora de começar as coisas praticamente do zero.

“Eu estava em Chicago vendo o Draft naquele dia”, recorda-se Felício, em conversa com o Triple-Double. “Até já existiam rumores, mas quando aconteceu mesmo, aí caiu a ficha sobre como seria uma temporada diferente. Seria um ano de reconstrução. Sabia que não teríamos a força de outros anos. Seria um time de jovens. Acredito que ganhamos muita experiência, aprendemos muito ao termos mais tempo de quadra e uma carga maior de responsabilidade. Foi um ano muito valioso para todo mundo.”

A saída de Butler acabou sendo o símbolo de uma série de mudanças. Rajon Rondo também não estava mais ao redor quando Felício se reapresentou ao Bulls para começar a se preparar para a temporada 2017/18. Nem Dwyane Wade. Dos jogadores mais experientes que faziam parte do elenco no campeonato anterior, o único que permaneceu foi Robin Lopez.

“Foram muitas mudanças na equipe. A gente tenta se entrosar. Tenta conversar com todo mundo para ver como são as pessoas, até para ter uma intimidade maior com cada um. Não foi tão difícil, no fim das contas, porque são muitos moleques no elenco. Então não foi como quando eu cheguei, que era uma época em que tinha jogadores mais experientes”, relata o brasileiro.

Toda essa situação de reconstrução do time já seria algo novo na carreira de alguém que tinha se acostumado a se ver em meio a briga por playoffs desde que chegara à NBA. Mas as coisas ficaram ainda mais esquisitas antes mesmo de a temporada começar. Mas é seguro afirmar que nem Felício, nem qualquer outro jogador da equipe poderia estar preparado para um episódio bem peculiar que aconteceu durante um treinamento: depois de uma série de desentendimentos, Bobby Portis acertou um soco no rosto de Nikola Mirotic, que sofreu uma fratura na mandíbula e acabou ficando de molho por algumas semanas.

“Foi um negócio muito ruim, mas eles deram um jeito de conviver com isso”, lembra Felício. “Os dois são muito profissionais. Quando jogaram juntos, foram muito bem, como todo mundo viu. Em quadra, era como se nada tivesse acontecido. Eles conversavam bastante durante as partidas. Foi legal demais ver esse entrosamento depois de tudo o que aconteceu.”

É verdade — por mais estranho que possa parecer. Durante os 372 minutos que Portis e Mirotic dividiram a quadra na temporada 2017/18, o Bulls registrou um “Net Rating” de +14,9 pontos: média de 115,5 pontos anotados a cada 100 posses de bola e de 100,7 sofridos. Números especialmente impressionantes para uma equipe que sofreu 55 derrotas no campeonato. Mas que ajudam a ilustrar o melhor momento deste time: as sete vitórias consecutivas emplacadas assim que Mirotic voltou à ação.

Não durou muito. Antes mesmo do “All-Star Game”, Mirotic foi trocado com o New Orleans Pelicans. Em seguida, o Bulls abraçou o “tank” de vez e passou a ganhar cada vez menos. Mas durante um breve período da temporada, esse time se mostrou intrigante. E não só pelas sete vitórias seguidas no retorno de Mirotic. Teve uma derrota que Felício aponta como um momento promissor: para o Golden State Warriors, em Chicago, por 119 a 112, no dia 17 de janeiro.

“Perdemos um jogo acirrado contra um dos melhores times da história da NBA. Com certeza ali a gente mostrou para o mundo que a gente pode ser no futuro”, diz o pivô. Pode parecer papo otimista de alguém envolvido no processo, mas que ganhou apoio por parte do técnico do Warriors. Após aquela partida, Steve Kerr chegou a afirmar que o Bulls era uma equipe totalmente irreconhecível em relação ao que tinha visto no início da temporada e que apresentava um sistema ofensivo “incrivelmente espaçado”.

Um outro comentário interessante de Kerr naquela época tem a ver com Fred Hoiberg. Para ele, a grande questão envolvendo o técnico do Bulls até hoje na NBA é que ele simplesmente não teve ainda em mãos um elenco com características de jogo que vão ao encontro de sua filosofia de trabalho. “Se eu não tivesse Steph Curry, Klay Thompson e Kevin Durant, as pessoas não me diriam que eu comando um ótimo ataque. Só iriam me questionar por que eu não consigo treinar uma equipe”, comentou Kerr.

Em termos de talento individual, não há dúvidas que Hoiberg já teve elencos melhores à disposição em Chicago. Mas, por mais curioso que isso possa parecer, as peças com que contou nesta última temporada foram as que mais o permitiram colocar em prática algumas de suas ideias para o sistema ofensivo.

“O Fred gosta muito de transição e bolas de três”, analisa Felício. “E nós tivemos peças no elenco que se encaixaram mais dentro deste esquema tático, então conseguimos executar isso várias vezes ao longo da temporada. Em alguns jogos a bola não cai e isso atrapalha mesmo, mas no geral o trabalho dele é muito bom.”

Do ponto de vista individual, Felício sofreu um bocado. As ausências de Wade e Rondo parecem ter pesado no começo. Os dois veteranos tinham bom entendimento dentro de quadra com ele e o colocavam frequentemente em boa posição para finalizar ao redor do aro. Desta vez, o brasileiro mostrou bastante limitação durante o começo da temporada, em que o ataque do Bulls não contava praticamente com nenhum facilitador, e se viu enterrado na rotação durante a fase em que as vitórias foram um pouco mais frequentes. Afinal, além de Portis e Mirotic, os minutos das posições quatro e cinco eram distribuídos ainda entre Lauri Markkanen e Robin Lopez. Não sobrava quase nada para Felício, que só passou a ter maior espaço mesmo depois que a diretoria resolveu jogar tudo para o alto e abraçar o “tank” de maneira um pouco menos discreta.

Ainda assim, ele afirma sem hesitar que a lição tirada foi maior em relação a anos anteriores. “Foi um aprendizado ainda maior nesta temporada para mim por não ter que depender tanto do ‘pick and roll’ para finalizar jogadas. Esse ano foi certamente o que eu mais aprendi na NBA”, comenta.

Em busca de espaço cada vez maior no processo de reconstrução que o Bulls busca emplacar, Felício já tem uma traçada: acertar arremessos de longa distância de maneira mais consistente. “É algo que venho treinando e que é necessário na NBA dos dias de hoje”, conta o pivô. “Muitos pivôs estão arremessando e isso ajuda a abrir espaços na quadra para a equipe. Então venho, sim, treinando muito isso. Meus chutes não caíram muito nesta última temporada, mas espero mostrar aos técnicos que sou capaz de convertê-los.”

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