O Clippers continua vivo graças a Lou Williams

Luís Araújo

Se você andou ignorando o Los Angeles Clippers nas últimas semanas, tudo bem. Dá para entender o motivo. O time até dava pinta de que seria bastante divertido de se assistir antes de a temporada começar. Teve até um texto publicado por aqui na época que recomendava a escolha pelo Clippers de quem estivesse disposto a comprar o pacote do League Pass que mostra jogos de uma equipe só. Mas não demorou muito para as coisas ficarem complicadas demais e fazer todo o encanto que existia se perder.

Grande parte disso passa por um problema recorrente na franquia: as lesões. Patrick Beverley está fora de toda a temporada. Danilo Gallinari e Austin Rivers continuam no departamento médico. Milos Teodosic e Blake Griffin já voltaram, mas depois de ficarem um bom tempo de molho. Diante de todas essas dificuldades de poder reunir suas principais peças em quadra, o Clippers passou por uma série de nove derrotas consecutivas e se distanciou da zona de classificação aos playoffs. Mas as vitórias foram reaparecendo aos poucos, em um ritmo que deixou a campanha novamente perto dos 50% de aproveitamento e reacendeu a esperança de uma vaga entre os oito melhores do Oeste.

Dá para dizer que o principal responsável por isso atende pelo nome de Lou Williams. Foi ele quem conseguiu segurar as pontas e conduzir o time a algumas vitórias enquanto o técnico Doc Rivers se via obrigado a cavar bem fundo no elenco para distribuir os minutos da rotação. Aos 31 anos, o armador vem tendo a melhor temporada da carreira em pontos (23,1), assistências (4,9) e minutos (31,7) por jogo. O aproveitamento de 41,4% em bolas de três e o índice de 53,9% de eficiência nos arremessos também são marcas superiores a qualquer outro ano dele desde que chegou à NBA.

Durante essa trajetória na liga, Williams se acostumou ao papel de pontuador que sai do banco de reservas para comandar o sistema ofensivo na ausência dos titulares, colocando fogo no jogo e produzindo o máximo de pontos que for capaz durante o tempo em que permanecer em quadra. Ainda que os 50 pontos contra o Golden State Warriors tenham sido uma apresentação fora da curva, alguém com essas características dele corre sempre o risco de explodir em uma determinada partida e fazer cesta atrás de cesta. No vídeo com os melhores momentos do confronto, chama a atenção como as ações ofensivas dele deram certo demais, mas também é possível observar algumas outras coisas interessantes que ilustram o papel que ele teve na recuperação do Clippers ao longo das semanas anteriores.

O vídeo mostra a enorme liberdade de Williams para ter a bola nas mãos e criar o ataque da maneira que bem entender, o que chega a ser compreensível com ausências de Teodosic e Griffin. Deu para ver alguns pontos sendo produzidos em infiltrações na marra ou até mesmo em arremessos bem contestados, que teoricamente têm menos chances de entrar na cesta. Mas também deu para ver espaços sendo criados na defesa adversária a partir das jogadas de “pick and roll”, aproveitados por ele tanto para subir para o chute como para acionar os pivôs em progressão para a cesta. Não é à toa que essa atuação expressiva do armador diante do Warriors contou também com sete assistências.

“Ele tem sido inacreditável para nosso time”, disse Griffin, que não participou deste jogo contra o Warriors. “Eu sabia que ele era capaz de pontuar e tudo mais, mas ele tem rendido melhor do que o esperado na minha opinião. Tenho muito respeito pelo jogador que ele é, mas eu não sabia que era um passador tão bom também. Isso é o que mais tem me surpreendido. Ele pontua com facilidade, mas nada do que é feito parece forçado.”

Às vezes aparece algo forçado, sim. Faz parte do pacote que Lou Williams oferece ao time que conta com seus serviços. O arremesso a seguir é um exemplo disso. A bola até caiu, mas não é o tipo de decisão que alguém vai querer que seja tomada com frequência.

Por outro lado, é justo tentar entender o impacto que essa mentalidade ultra agressiva e disposta a definir qualquer posse de bola é capaz de causar. Bogdan Bogdanovic foi juvenil nesta jogada abaixo, mas só caiu na finta que levou à falta porque sabe que Williams não tem problema nenhum em chegar ao ataque já tentando esse tipo de arremesso e que é bom não correr o risco de deixá-lo esquentar em quadra.

Também é importante ter em mente a outra parte do comentário de Griffin sobre a contribuição de Williams para a campanha do Clippers na temporada, em que ele falou sobre a capacidade como passador. Esse “pick and pop” entre os dois pode servir como uma amostra disso. É importante para Griffin saber que tem alguém com a bola nas mãos neste tipo de lance que poderá resistir à pressão depois do bloqueio para encontrá-lo com espaço para o chute.

Uma outra amostra, talvez até mais interessante, é esse passe para a infiltração de Tyrone Wallace pelas costas da defesa.

Durante a primeira metade de temporada regular, o Clippers contou muito pouco com Griffin e — principalmente — Teodosic, que em tese seriam seus dois principais motores ofensivos. Essa situação adversa levou à essa necessidade de confiar demais em Williams, deixando-o ainda mais tempo em quadra e dando toda a liberdade do mundo para que ele pudesse comandar o ataque com a bola nas mãos. Não chega a ser estranho, portanto, que ele esteja atrás só de outros 15 jogadores em termos de “Usage Rate” — estatística que mostra a proporção de posses de bola do time finalizadas com um arremesso, uma falta cavada ou um desperdício do atleta em questão durante o período em que ele fica em quadra.

Depois deste jogo dos 50 pontos contra o Warriors, Williams viu Teodosic e Griffin voltarem ao Clippers, o que significou uma redução nesta liberdade de ter a bola nas mãos porque os dois jogadores também gostam de atuar assim — e sabem como render desta maneira, o que é mais importante. Não é que Williams precisou abrir mão completamente do que vinha fazendo antes, mas a tarefa de comandar o ataque ficou bem mais dividida nos momentos em que ele passou a ter a companhia do sérvio em quadra.

Na verdade, pode-se dizer com alguma segurança que Teodosic representa uma melhor opção para as tomadas de decisão no ataque. Qualquer time que o tenha em quadra vai querer deixá-lo no controle da bola para explorar sua combinação rara de passes e visão de jogo. Nestes momentos, Williams costuma ficar mais aberto em um dos cantos da quadra como uma opção de passe. No lance a seguir, ele nem encostou na bola, mas tinha espaço demais caso fosse acionado porque toda a defesa do Memphis Grizzlies foi atraída para o garrafão.

É importante que Griffin também tenha condição em algumas posses de bola para armar as jogadas e mostrar por que é considerado um dos melhores passadores da NBA dentre os homens de garrafão.

Por mais que os primeiros resultados após os retornos de Teodosic e Griffin tenham sido positivos, sem grandes problemas de encaixe evidentes, será um desafio para o Clippers continuar a equilibrar as ações ofensivas entre os dois e mais Williams — assumindo que ninguém mais volte a se machucar, o que é sempre um risco para essa franquia, né? Será interessante também acompanhar como a defesa será afetada com Teodosic e Williams juntos e como será construída a rotação a partir do momento em que Austin Rivers estiver novamente à disposição.

Existem dúvidas em relação ao que virá pela frente, mas uma coisa é fato: o Clippers continua vivo, mesmo depois de tantos problemas com lesões que forçaram Doc Rivers a usar 20 quintetos titulares diferentes em 41 jogos. E foi Williams o grande responsável por isso. A campanha não estaria na casa dos 50% de aproveitamento e o sonho de uma vaga nos playoffs não existiria se não fosse por tudo o que ele foi capaz de fazer, usando toda a liberdade e os minutos a mais que recebeu para produzir como nunca.

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