O dia em que o velho Wade apareceu para resgatar o Heat

Luís Araújo

Houve um tempo em que Dwyane Wade era um dos maiores craques da NBA, com uma habilidade incomum para carregar seu time em momentos decisivos e com recursos o bastante para se colocar entre os maiores talentos da história do basquete. Esse jogador não existe mais. Mas vira e mexe ele aparece por aí para dar ao mundo uma amostra do que já foi um dia.

Para a sorte do Miami Heat e para o azar do Philadelphia 76ers, isso aconteceu na segunda partida da série entre as duas equipes, pela primeira rodada dos playoffs da Conferência Leste. Wade entrou em quadra na reta final do primeiro quarto e teve uma sequência importante. Quando o intervalo chegou, ele tinha 21 pontos e oito arremessos convertidos em nove tentados.

Mas o importante mesmo nesta história é entender o contexto e como esses pontos aconteceram. No momento em que o técnico Erik Spoelstra colocou Wade em quadra, o Heat vinha sofrendo demais para produzir ofensivamente. Goran Dragic tinha ido para o banco de reservas pouco antes por causa de duas faltas rápidas que cometeu. O esloveno vinha sendo uma importante peça para definir jogadas, mas sem ele, o ataque ficou em apuros, movendo a bola de um lado para o outro, mas sem encontrar espaços no meio das trocas de marcação da defesa do Sixers.

Wade aceitou espaços na média distância que foram oferecidos pelo oponente, mas também acertou arremessos difíceis, em movimento, girando e pulando para trás, com marcadores bem próximos a ele. Lembrou mesmo o Wade de outros tempos.

Só que não foi só isso. O Heat não teria virado o jogo e assumido o controle total das coisas no segundo período se não fosse pela defesa forte que conseguiu emplacar. E Wade participou ativamente deste processo, como se pode observar no vídeo a seguir.

A conclusão foi muito legal. Wade saiu do fundo do garrafão, recebeu em movimento, girou e arremessou imediatamente na cara de TJ McConnell, sem tomar o menor conhecimento do rival. Mas vale a pena observar a origem deste lance. O Heat roubou a bola graças a um desperdício que Wade ajudou a forçar a partir de uma aposta certeira que fez em largar o seu jogador e ir pressionar o perímetro.

Não foi só Wade, claro. O time como um todo teve o mérito de emplacar uma defesa forte o suficiente para incomodar o ataque do Sixers, sobretudo com relação aos arremessos de três pontos. Ersan Ilyasova, Dario Saric, Robert Covington, JJ Redick e Marco Belinelli combinaram para 36 chutes do tipo nesta segunda partida da série e acertaram apenas sete. História totalmente diferente do que se viu no confronto anterior, em que um bombardeio de longa distância levou o Sixers a vencer com extrema facilidade.

É claro que alguns destes arremessos foram dados com liberdade e mesmo assim não caíram. Vai saber o que poderia ter sido do jogo se essas bolas tivessem entrado, ainda mais no trecho do primeiro quarto em que o Heat encontrava uma resistência absurda para produzir. Mas não foi só uma questão de sorte. A equipe fez um trabalho bem melhor na hora de resistir a bloqueios sem bola para continuar perto do corpo dos arremessadores, evitando muitas vezes que esses jogadores fossem acionados com tanto espaço. Foi um ajuste importante por parte de Erik Spoelstra.

Uma outra ideia mais geral do bom comportamento defensivo do Heat pode ser observado nesta jogada a seguir em que Kelly Olynyk foi o protagonista.

O vídeo mostra um roubo de bola de Olynyk. Foi só isso o que contou para ele na estatística, mas é curioso notar o quanto ele tomou decisões corretas antes disso. Foi um desarme seguido de um contra-ataque que só aconteceu porque ele e a defesa acertaram praticamente, desde o espaço para induzir Ben Simmons a chutar da cabeça do garrafão até as trocas e à antecipação ao bloqueio para não dar espaço a um arremessador como Belinelli.

Também deu para ver Simmons sendo muitas vezes pressionado na quadra de defesa, principalmente por Justise Winslow. Foi uma estratégia eficiente do Heat para tirar um pouco da velocidade do Sixers. Outra coisa que funcionou foi o trabalho da marcação quando o australiano tentava bater para dentro. Nestas horas, os defensores na ajuda se mostravam atentos para atrapalhar essas infiltrações, fechando os espaços sem largar totalmente seus homens no canto da quadra. Apesar de quase ter saído de quadra com um triplo-duplo, Simmons de fato encontrou um pouco mais de dificuldade para entrar no garrafão e abrir buracos na defesa do Heat.

Os ajustes de Spoelstra foram muito importantes. Isso ficou bem claro. Mas não tem jeito. Não tem como não ver Wade como o grande personagem deste jogo. Foi ele quem fez o ataque destravar em um momento em que as coisas pareciam bem complicadas.

“Ele não vai ficar mais 40 minutos em quadra como em outros tempos”, disse Spoelstra. “Mas nesses minutos reduzidos que recebe, ele pode acalmar o jogo e ajudar os mais novos com sua experiência. Ele teve uma grande atuação e tem maturidade o suficiente para saber o quanto as coisas podem ser diferentes de um jogo para o outro. Ele é um fator acalmante para o resto dos nossos caras”.

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