O genial e genioso Allen Iverson

Luís Araújo

Allen Iverson era quase tão genioso quanto genial. A combinação ímpar de velocidade com técnica e habilidade fizeram dos “crossovers” a assinatura do jogador de 1,83m, que dava muitas dores de cabeça aos defensores. Mas nem sempre as coisas pareciam tão eficientes assim nas mãos dele e as tomadas de decisão eram contestáveis com alguma frequência, o que podia deixar seus técnicos incomodados vez ou outra.

George Karl que o diga. O treinador teve a oportunidade de trabalhar com Iverson no Denver Nuggets e não ficou nada encantado. Pelo contrário. Deixou bem claro o alívio que sentiu com a negociação que mandou o jogador para o Detroit Pistons, em troca de Chauncey Billups. Disse que o time, enfim, tinha um organizador ofensivo e que as jogadas ruins de ataque haviam diminuído. Observou ainda: “A.I., algumas vezes, tinha problemas para confiar no cara para quem ele passava a bola”.

Não foi em Denver que Iverson viveu os melhores dias no basquete. Nem em Detroit. Muito menos no Memphis Grizzlies, time com o qual a trajetória se resumiu a apenas três jogos. O auge foi no Philadelphia 76ers, em um período no qual se colocou entre os melhores da história da NBA. Onde tornou-se um ídolo tão grande ao ponto de ter a camisa número 3 aposentada.

Iverson fez mágica com o uniforme do Sixers. Sobretudo na temporada 2000/01, quando registrou um dos desempenhos individuais mais impressionantes que a liga já viu. O fato de estar cercado de companheiros ideais e de um técnico que o domou na medida do possível foi determinante para o sucesso. Larry Brown sabia relevar os abusos de uma mente forte e difícil de lidar. Dentro de quadra, gente como Eric Snow, Aaron Mckie, George Lynch e Dikembe Mutombo estava ali para defender e entender que ofensivamente as coisas aconteceriam da maneira que o astro do elenco bem entendesse. Sem reclamações. Mesmo que isso significasse arremessos bastante forçados.

O sacrifício dos demais em função de Iverson vivia deu certo naquele ano em especial. O Sixers teve a melhor campanha do Leste na fase de classificação. Nos playoffs, fez séries bem duras contra Indiana Pacers, Toronto Raptors e Milwaukee Bucks, mas contou com atuações memoráveis do seu principal jogador para derrubar todos e chegar à final.

Na decisão, Iverson mostrou o cartão de visitas logo no primeiro jogo ao somar 48 pontos, seis assistências e cinco roubos de bola, levando o 76ers a uma surpreendente vitória sobre o Los Angeles Lakers na casa do adversário, diante da torcida rival. Mas o sonho acabou aí. A superioridade da turma comandada por Shaquille O’Neal e Kobe Bryant ficou evidente depois daquilo, ganhando os quatro confrontos seguintes para virar a série e assegurar o segundo dos três títulos consecutivos.

O 76ers não foi campeão naquela temporada e não voltou a disputar a final depois disso. Iverson também não. Escreveu seu nome na galeria dos gênios sem título da NBA, que conta com gente como Karl Malone, John Stockton, Charles Barkley, Reggie Miller, Patrick Ewing, Dominique Wilkins, Elgin Baylor, George Gervin e Steve Nash.

A história poderia ser diferente se Iverson domasse melhor alguns dos seus instintos e conseguisse jogar com um outro craque no mesmo time? Talvez. Um anel de campeão não o faz deixar de ser um gênio, assim como todos os outros grandes jogadores que nunca conquistaram um título, mas seria uma coroação e tanto ao impacto que ele teve durante o auge da carreira.

Mas ele acabou não tendo essa chance. Nunca mais um time conseguiu fazer render tão bem aquilo que o Sixers de 2001 fez com maestria: cercá-lo de especialistas em defesa em um lado da quadra e deixá-lo como foco principal no ataque. Iverson também não soube se reinventar com o passar dos anos e foi perdendo relevância até eventualmente sumir de vez da NBA. Aceitar uma mudança de papel dentro da liga e assumir um posto secundário em uma equipe qualquer em nome de um título parecia mesmo ser algo de outro planeta para ele. Porque como bem observou George Karl certa vez: “Iverson tinha problemas algumas vezes para confiar no cara para quem ele passava a bola”.

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