O grito que passou por obstáculos

Luís Araújo

Foram dois anos no quase. O grito de campeão insistia em ficar entalado e não dava muitos sinais de que enfim seria dado pela torcida do Bauru no começo desta temporada do NBB. O primeiro turno foi complicado, havia impressão de que alguns outros concorrentes estavam um degrau acima, e a saída de Rafael Hettsheimeir só fez crescer as dúvidas todas.

O cenário não era nem um pouco animador. Afinal de contas, como esse time reagiria sem aquele que vinha sendo seu principal cestinha? A resposta acabou sendo tão surpreendente quanto positiva. Logo de cara, veio uma vitória no Rio de Janeiro sobre o Flamengo, que acabou sendo a primeira de uma sequência invicta que durou seis partidas.

De repente, Bauru assumiu uma nova identidade, emplacou uma defesa que virou a mais forte do NBB e de fato se consolidou como um time verdadeiramente competitivo. Ainda assim, a derrota dentro de casa para Mogi das Cruzes na reta final da fase de classificação não só impediu uma vaga no G4 e uma ida direta às quartas de final como ajudou a levantar dúvidas. Será que esse time estava mesmo pronto para duelar com os líderes da competição quando fosse mesmo para valer? Era uma dúvida bem legítima naquele momento.

Vieram os playoffs. Depois de varrer Macaé na primeira rodada, Bauru abriu a série contra Brasília perdendo o primeiro jogo dentro de casa. Mais uma vez, dúvidas surgiram. Mas a resposta foi imediata: duas vitórias como visitante e uma outra em seguida diante do seu torcedor para carimbar o passaporte à semifinal. Foram três apresentações bastante sólidas, com a defesa agindo muito bem diante de um ataque tão poderoso e rico em alternativas. Ali já dava a impressão de que a equipe estava crescendo na hora certa, apresentando um nível acima de basquete em relação à fase de classificação.

O adversário na semifinal poderia ter sido o Flamengo, algoz nas duas decisões anteriores do NBB. Mas o clube carioca acabou sendo eliminado nas quartas pelo Pinheiros, que ampliou o bom momento com duas vitórias seguidas para abrir 2 a 0. A série parecia bem próxima de um fim no intervalo da terceira partida, quando Bauru perdia por 12 pontos. Mas um desempenho avassalador nos dois últimos quartos resultaram na virada, que acabou sendo o ponto de partida para uma reviravolta ainda maior e que terminou com uma nova classificação para a final.

Mais uma vez, Bauru ficou com as cordas contra a parede ao perder os dois primeiros jogos da série. Mas esse time já tinha mostrado em várias outras oportunidades ao longo da temporada o quanto é capaz de reunir forças para reagir em situações delicadas, nas quais a margem de erro inexiste. Na final, isso aconteceu de novo. Pior para o Paulistano, que ficou tão perto do título e o viu escapar.

Depois de tanto ver a eliminação de perto ao longo do caminho, Bauru entrou em quadra para o último jogo da temporada atuando com propriedade. As coisas pareciam que estavam do jeito que o time de Demétrius Ferracciú queria desde o final do segundo quarto, limitando o Paulistano a se virar nas jogadas de costas para a cesta ou forçar bolas de muito longe.

Esse controle das ações só aumentou na medida em que a partida se aproximou do fim, 0 que fez o placar ficar cada vez mais elástico e que levou os torcedores a soltarem o grito de campeão quando ainda tinham mais de cinco minutos no relógio. Mas e daí? Esperar mais por quê? Já estava na cara que o tão sonhado título era só uma questão de tempo mesmo. A frustração dos dois anos anteriores enfim ficou para trás e deu lugar à felicidade e ao alívio.

O prêmio de MVP das finais acabou ficando nas mãos de Alex, incontestavelmente o principal jogador desta série mesmo. Mas essa conquista não teve só a cara dele. Léo Meindl, por exemplo, apresentou o melhor basquete da carreira nestes últimos meses. Jefferson foi motivo de enorme preocupação defesa do Paulistano por toda a decisão e também deu contribuições bem sólidas do outro lado da quadra. Shilton foi o gigante de sempre fazendo as coisas que não chamam tanto a atenção, mas que contribuem demais no fim das contas. É útil demais de diversas formas e sabe o que é preciso para vencer, azar de quem o subestima. E por falar em vencedor, Gegê se sagrou campeão pelo quinto ano consecutivo. Alguma coisa boa isso mostra, não?

Valtinho, Gui Deodato e Jaú foram importantes também em diversos momentos ao longo dos playoffs. É aí que entra o papel de Demétrius, que soube como utilizá-los para reagir bem demais à perda de um jogador de seleção brasileira. Quantas pessoas, dentro do basquete ou não, são capazes de usar uma enorme adversidade para criar uma solução ao invés de se limitar a chorar? Essa troca de roda com o carro em movimento só engrandece o trabalho dele.

Isso acabou sendo o símbolo de um time que soube tirar forças de onde não parecia ter, ressurgindo com tudo quando o fim da linha parecia muito próximo. E que por isso é, enfim, campeão do NBB.

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