O impacto além dos números de Nesbitt no Paulistano

Luís Araújo

Ao longo da campanha que culminou no título do Paulistano na temporada 2017/18 do NBB, foram raras as partidas em que David Nesbitt teve números absurdos nas estatísticas. Na verdade, em um time com minutos tão bem distribuídos por todo o elenco, é até natural que isso tenha acontecido. Entretanto, dá para aponta-lo tranquilamente como uma das peças mais importantes para a conquista do clube de São Paulo.

O bahamense de 27 anos é típico caso de jogador que contribui demais de maneiras que vão muito além das estatísticas. Com coisas que podem até chamar menos a atenção da maioria das pessoas, mas que são fundamentais para se ganhar um jogo de basquete. Tanto quanto as infiltrações fulminantes de Yago ou as bolas de três praticamente sem espaço de Deryk, por exemplo.

Para Nesbitt, tudo bem. Não há problema nenhum em assumir esse tipo de função no time. Pelo contrário. “Todas as coisas que fazemos dentro de quadra são importantes. A defesa, o rebote, os bloqueios para os armadores terem espaço, a capacidade de correr a quadra, tudo. Gosto destas coisas que representam boas oportunidades não só para mim, mas também para meus companheiros”, disse o jogador ao Triple-Double.

Mil e uma utilidades

A versatilidade de Nesbitt deu muita flexibilidade ao técnico Gustavo De Conti ao longo da temporada em termos de variações de formações. Nas vezes em que atuou ao lado de Guilherme Hubner ou de Du Sommer, que são pivô mais tradicionais, o bahamense exerceu a posição quatro e apresentou um senso impecável de cobertura defensiva, sobretudo nas vezes em que seus companheiros eram arrastados para o “pick and roll” longe da cesta. Mas também foi muito comum vê-lo como o pivô de escalações mais baixas, encarando tranquilamente trocas após bloqueios para confrontar quem aparecesse pela frente, seja um pivô perto do garrafão ou um armador no perímetro.

A combinação de tamanho, força, agilidade e leitura de jogo não só o tornaram um jogador extremamente útil para esse Paulistano campeão nacional como ajudou a destravar possibilidades para os companheiros. No ataque, não hesitou em arremessar de média e longa distância quando as oportunidades apareceram. Além disso, vez ou outra, aparecia com a bola nas mãos de frente para a cesta com a responsabilidade de tomar decisões para as sequências das ações.

Todas essas características o levaram a ouvir seu nome envolvido em alguns paralelos a Draymond Green ao longo da temporada, em referência ao mesmo perfil de colaboração para a sua equipe dentro de quadra — guardadas as devidas proporções, é claro.

“Ele pode não ser o jogador da NBA que mais chama a atenção, mas é um dos mais úteis e faz coisas demais em quadra”, disse Nesbitt. “Gosto de ouvir que me pareço um pouco com ele. Quando eu era mais novo, adorava o Jason Kidd. Queria ser inteligente como ele e ser capaz de repetir tudo o que ele fazia enquanto estava jogando. Mas se dizem que lembro do Draymond Green hoje, ótimo. Aceito esse elogio”, completou.

Esse perfil como jogador nos dias de hoje é resultado de um processo pelo qual Nesbitt percebeu que teria de passar em um determinado momento da vida. “Eu cresci vendo Michael Jordan e Vince Carter. Depois, quando fiquei mais velho, entendi que precisava aprender a ler o jogo para melhorar e chegar a um nível mais alto. Tem partes do jogo às quais o corpo não te leva, mas que a sua mente pode te levar. E se você ama o basquete, é só uma questão de sentar, estudar e aprender isso. Aí as coisas acontecem naturalmente”, contou.

Sacrifícios para ser campeão

Antes de chegar ao Brasil, Nesbitt estava no basquete argentino. Ao final da temporada 2016/17, ouviu do seu agente que havia a possibilidade de se juntar ao Paulistano. Clube do qual não sabia muita coisa até então, mas ouviu coisas que o deixaram intrigado.

“Meu agente me falou que era time bom, comandado por um ótimo técnico”, relatou o bahamense. “Ele disse que era uma boa oportunidade para mostrar o que sei fazer e acabei aceitando. Assim que cheguei, vi que era até um pouco mais do que esperava. Só tem bom jogador neste elenco. Ninguém joga 35 minutos. Todo mundo é capaz de jogar e, por consequência, os treinos são competitivos. Os caras mostram diariamente o quanto são bons, e eu gosto muito disso no Paulistano. Foi uma surpresa para mim. Essa convivência diária com gente tão boa te faz melhorar.”

Essa boa impressão sobre o potencial da nova equipe veio acompanhada do outro lado desta história de se ter um elenco tão repleto de gente talentosa: a de que ninguém dominaria os holofotes. “Logo no nosso primeiro mês de trabalho juntos, sentimos que deveríamos sacrificar algumas coisas para conquistar vitórias. Isso significa não dar muitos chutes em boa parte dos jogos ou ficar mais minutos no banco em algumas outras partidas, dependendo do confronto do outro lado. Todo mundo entendeu isso e sacrificou metas pessoais para nosso time vencer jogos”, disse.

Os resultados também ajudaram a comprar essa ideia. Durante a sequência de vitórias na fase de classificação que durou 22 partidas, a sensação geral no elenco do Paulistano era a de que eles tinham, sim, condições totais de se sagrarem campeões quando junho chegasse. “Era só uma questão de continuar fazendo nosso trabalho, mantendo as nossas regras e a mente de todo mundo no lugar certo”, afirmou Nesbitt.

A série de vitórias antes dos playoffs pode até ter mostrado de maneira mais clara aos jogadores que o título era um objetivo alcançável nesta temporada, mas nada disso teria acontecido se o elenco não tivesse comprado as ideias de quem o comanda. “Ele é muito inteligente, dá para perceber facilmente o quando ele trabalha duro demais”, disse Nesbitt sobre Gustavo De Conti, técnico que levou o Paulistano à conquista do NBB. “Quando chegávamos para treinar, ele sempre tinha um plano de jogo preparado para nosso adversário. Isso facilita demais nosso trabalho. Nós realmente confiamos nele. Ninguém ganha tanto se não for assim.”

Orgulho em jogar com Yago

Nesbitt também falou de um outro personagem que chamou um pouco mais a atenção em meio a esse elenco do Paulistano tão recheado de boas peças. “O Yago é um garoto engraçado e dá para ver que ele não só ama basquete como é competitivo”, disse ele sobre o armador de 19 anos, que acabou de completar apenas a sua segunda temporada como profissional.

“Eu gosto disso. E ele mostra essas coisas em todos os treinos. Ele tem sido convocado para a seleção brasileira. Com o talento e dedicação que tem, ele precisa mesmo receber esse tipo de recompensa. Tenho orgulho em dizer que sou companheiro de time do Yago. Ele merece essas coisas que têm acontecido”, completou.

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