O impacto da baixa de Leonard para a virada do Warriors

Luís Araújo

O primeiro jogo da final do Oeste pode ser tranquilamente separado em duas partes: antes e depois da saída de Kawhi Leonard, que voltou a sentir a lesão no tornozelo esquerdo ao pisar em cima do pé de Zaza Pachulia e não conseguiu continuar em quadra. Isso aconteceu quando restavam cerca de sete minutos e meio para o fim do terceiro quarto. O San Antonio Spurs vencia por 78 a 55. Mas o Golden State Warriors engatou imediatamente uma corrida de 18 pontos consecutivos para se aproximar e, no fim das contas, venceu por 113 a 111. 

Enquanto contou com o seu principal jogador, o Spurs teve alguém para descolar arremessos certeiros mesmo diante de uma marcação próxima. Como aconteceu, por exemplo, na primeira posse de bola do confronto, em que Leonard bateu para cima de Kevin Durant e depois foi contestado por Klay Thompson.

Outras várias coisas deram certo e contribuíram bastante para que fosse construída essa vantagem de 23 pontos até o momento em que Leonard se machucou — e que chegou a 25 antes disso. O Spurs usou Pau Gasol para marcar Pachulia, deixou LaMarcus Aldridge em cima de Draymond Green mais longe da cesta e fez um ótimo trabalho protegendo as linhas de passe, dificultando a criação de espaços para a finalização e forçando erros. Além disso, contou com alguns chutes que Klay Thompson perdeu, mas que ele poderia muito bem ter feito.

Do outro lado da quadra, o grande mérito do Spurs foi conseguir evitar que o jogo se transformasse em uma correria. A boa execução das ações ofensivas e a quantidade de acertos não deram muitas chances para que o Warriors saísse em velocidade para atacar contra marcações desarrumadas.

Estava dando quase tudo certo para o time de Gregg Popovich até Leonard precisar deixar a quadra no terceiro quarto e virar desfalque pelo restante do confronto. Depois disso, o Warriors fez 58 pontos e acertou 21 dos 36 arremessos que tentou. O Spurs, em compensação, anotou só 33 pontos, converteu 13 das 35 finalizações que deu e não acertou mais nenhuma bola de três.

A corrida de 18 pontos consecutivos que o Warriors emplacou logo após a baixa de Leonard começou com um arremesso de média distância de Pachulia que Gasol nem fez tanta questão de contestar. Pensando neste lance depois da partida, já dá para pensar que foi um sinal de como a maré estava prestes a mudar a partir dali.

Mas o que ficou evidente mesmo neste trecho do duelo foi a dificuldade que o Spurs encontrou para fazer o ataque fluir. LaMarcus Aldridge, que vinha tendo uma boa apresentação até então, passou a sofrer demais com a marcação. Especialmente quando as dobras apareciam para atrapalhá-lo e minar toda a confiança que ele tinha desenvolvido ao longo da primeira metade. Não foi à toa que o camisa 12 terminou com seis desperdícios de posse de bola.

Um exemplo disso pode ser visto na jogada a seguir. Depois que Aldridge recebeu de costas para a cesta contra a marcação de Pachulia, Klay Thompson não se importou em ignorar a corrida de Patty Mills em direção ao outro lado da quadra para fazer a dobra, que de fato acabou rendendo um erro e uma oportunidade de contra-ataque.

Depois de algumas tentativas frustradas, o Spurs resolveu tentar fazer algo diferente de simplesmente jogar a bola direto nas mãos de Aldridge perto da cesta e esperá-lo criar o ataque. Mas a dificuldade para se livrar da pressão em cima da bola, fruto de uma defesa que apostava cada vez mais em trocas após os bloqueios, e encontrar espaço para a definição continuava enorme.

Na jogada abaixo, Patty Mills finalmente conseguiu criar algum espaço ao apostar em não usar o bloqueio, fazendo o corte pelo lado oposto e atacando o buraco que se abriu no garrafão. Só que o australiano não optou pela bandeja logo de cara, apostando em fazer o passe para Pau Gasol assim que Draymond Green decidisse sair na cobertura para tentar dar o toco.

Só que Green resolveu ficar plantado embaixo da cesta o quanto pôde, até o momento em que Mills estava perto demais de Gasol. Assim, ele conseguiu tanto atrapalhar a finalização do australiano quanto a do espanhol em seguida.

A corrida de 18 pontos seguidos do Warriors só foi interrompida nesta cesta abaixo de Aldridge, em um arremesso no qual teve de pular para trás para conseguir escapar das mãos de Green. Lance difícil, assim como vários outros que ele errou ao longo da segunda metade.

É claro que tiveram alguns arremessos do Warriors que acabaram entrando mesmo sendo bem contestados. Mas a facilidade muito maior encontrada para atacar depois da lesão da Leonard passou demais pela dificuldade monstruosa do Spurs de produzir ofensivamente. Os desperdícios de posse de bola e as finalizações erradas permitiram que o time da casa enfim pudesse jogar em uma velocidade maior.

Mais ou menos como já tinha feito no quinto jogo da série contra o Houston Rockets, Popovich recorreu a Manu Ginóbili para tentar fazer alguma coisa acontecer no sistema ofensivo na ausência de Leonard. O argentino fez a parte dele. Foi um gigante em diversos momentos, partindo para cima da marcação que aparecia pela frente, quebrando um pouco mais a marcação e criando os espaços que os companheiros tanto tinham dificuldade de encontrar. Se não fosse por ele, provavelmente a virada do Warriors teria sido ainda mais intensa.

Um exemplo da contribuição de Ginóbili pode ser vista a seguir, em um lance no qual aproveitou a estratégia de trocas da defesa para forçar um “mismatch” com Pachulia, buscando explorar essa situação longe da cesta e infiltrar em seguida.

Mesmo tendo sofrido 18 pontos seguidos no terceiro quarto, o Spurs sobreviveu e conseguiu entrar no último período com vantagem de nove pontos. Só que o Warriors já estava de novo no jogo ali. E o mais importante de tudo é que o cenário não mudou muito. Apesar das contribuições de Ginóbili e, em menor escala, de Dejounte Murray, o ataque continuou encontrando resistência enorme para criar oportunidades diante das trocas atrás de trocas da marcação do outro lado. Não era uma situação sustentável, definitivamente. Por isso a virada acabou sendo uma questão de tempo.

Em um determinado momento do último quarto, o Spurs acabou voltando a recorrer mais e mais a Aldridge, talvez na esperança de que ele voltasse a entregar as boas finalizações do começo da partida e também da vitória que decretou a classificação na série contra o Houston Rockets. Mas não funcionou tanto.

Na jogada a seguir, ele recebeu diante de David West e não conseguiu desenvolver nada. Resultado: voltou a passar para Patty Mills, que teve de se virar para descolar um arremesso qualquer pressionado pelo estouro do cronômetro de posse de bola.

Também vale prestar atenção na jogada a seguir, em que o Spurs mais uma vez tentou tirar algum proveito das trocas após bloqueios da defesa do Warriors. Depois de Patty Mills não conseguir, Ginóbili finalmente acionou Aldridge, que estava sendo marcado por Klay Thompson perto do garrafão. Só que o jogador do Warriors se preocupou o tempo todo em tomar a frente do rival, forçando que o passe fosse feito pelo alto. Foi o que aconteceu, dando assim a chance para que Kevin Durant pudesse correr para aparecer na dobra e forçar o erro.

Vale ainda reparar que Danny Green leu bem o que estava prestes a aconteceu e cruzou a quadra até o outro canto, atrás da linha de três, onde surgiu livre. Mas não foi acionado.

Além disso tudo, teve um outro fator determinante para que o Warriors construísse essa grande virada no segundo tempo: os rebotes ofensivos. Ceder esse tipo de coisa contra esse time é pedir para pagar muito caro. Não foi diferente com o Spurs. O lance a seguir ilustra bem isso, com Shaun Livingston aparecendo bem demais para render duas novas chances preciosas de ataque, mas isso aconteceu algumas outras vezes — e custou caro principalmente quando bolas erradas de dois acabaram virando cestas de três.

E como se tudo isso já não fosse o bastante, um instante de desatenção de Danny Green na defesa custou caro demais em um lance crucial da partida. Bastou ele olhar meio segundo para onde o passe estava sendo feito para Stephen Curry cortar pelas suas costas, receber livre e finalizar.

Sustentar a liderança que chegou a abrir antes de Leonard se lesionar e sair de quadra com a vitória neste primeiro jogo teria sido importante demais para as chances do Spurs, especialmente pelos quatro dias de intervalo que os dois times terão entre o segundo e o terceiro duelo. Para ter alguma chance ainda de vencer o Oeste, o time vai precisar que o seu principal jogador volte imediatamente e apresente o mesmo alto nível dos primeiros dois quartos e meio da série.

Ou então Popovich faz uma mágica para criar alguma coisa complemente diferente do que se viu no primeiro jogo da série. Porque o que aconteceu foi algo que Ginóbili definiu com precisão após a partida: “Nós não fomos capazes de reagir à ausência dele.”

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