O jogo que colocou Nenê ao lado de Wilt Chamberlain

Luís Araújo

“Ele não é de falar muito, mas a gente tem sempre que escutar quando ele fala algo. É sempre importante”, disse Patrick Beverley sobre Nenê. James Harden também comentou algo mais ou menos nesta linha. “Ele é meu mentor, acreditem ou não”, afirmou a grande estrela do Houston Rockets.

Poderia até parecer um certo exagero se esse tipo de elogio fosse algo novo. Mas não é. Em outubro de 2013, Nenê estava com o Washington Wizards e veio ao Brasil com o time para o duelo de pré-temporada contra o Chicago Bulls, no Rio de Janeiro. Em uma das janelas de entrevistas com os jogadores durante a semana que precedeu a partida, surgiu a questão sobre como o pivô era visto pelo restante do elenco. Bradley Beal tratou de responder.

“Ele é um grande sujeito e um dos principais líderes do nosso time. É uma pessoa muito vocal e tem sempre atitude positiva. Nenê é muito inteligente dentro de quadra e está na liga há dez anos. Definitivamente sabe o que fala e sabe o que é preciso para se ter sucesso. Ele dá dicas dentro e fora de quadra. É um grande jogador para se ter no time”, afirmou Beal.

Alguns meses depois daquilo, em abril de 2014, Wizards e Bulls voltaram a se encontrar quando ficaram frente a frente na primeira rodada dos playoffs do Leste. Mesmo sem o mando de quadra na série, o time de Washington avançou em cinco jogos muito graças ao impacto do brasileiro, que simplesmente não encontrou respostas de Taj Gibson e Joakim Noah — que havia acabado de ganhar o prêmio de melhor defensor da NBA. A impressão era de que tudo o que passasse pelas mãos dele resultaria em algo extraordinário, seja uma cesta ou um passe preciso para alguém em ótima condição de finalização.

Três anos se passaram, e agora é a vez de o pessoal em Houston passar por isso. Essa sensação de como Nenê é um grande jogador para se ter ao redor ficou especialmente clara para Beverley, Harden e todo o restante do elenco e da comissão técnica após a vitória que levou o Rockets a abrir 3 a 1 na série contra o Oklahoma City Thunder. O pivô saiu do banco de reservas para anotar 28 pontos, acertando todos os 12 arremessos que tentou, e ainda pegar dez rebotes.

Para se ter uma ideia do que essa atuação representa, vale apontar algo levantado pelo Elias Sports Bureau: Nenê se tornou apenas o segundo jogador em toda a história dos playoffs a anotar pelo menos 20 pontos e dez rebotes ao mesmo tempo em que acerta 100% dos arremessos. O primeiro? Wilt Chamberlain. Boa companhia, não?

O lance acima acabou fechando com chave de ouro essa apresentação de ouro de Nenê. Aconteceu logo após uma cesta de três de Russell Westbrook que tinha cortado a diferença para um ponto e recolocado o Thunder no jogo, incendiando a torcida local. Mas aí Eric Gordon e Trevor Ariza conseguiram escapar da falta até a bola chegar no brasileiro, que enterrou para cima de Jerami Grant como se estivesse sendo desafiado por uma criança bem mais nova. Dois pontos, falta e ducha de água fria no oponente.

Um pouco mais do que foi essa atuação pode ser observada no vídeo a seguir, que reúne quatro lances protagonizados por Nenê. No primeiro, ele esperou Steven Adams sair na cobertura de um “pick and roll” realizado entre Harden e Lou Willians para atacar o garrafão, receber o passe e enterrar com força. No segundo, fez a cesta após um rebote ofensivo. Em seguida, foi acionado para finalizar trombando com Enes Kanter no garrafão. Por último, teve de dar um jeito ainda mais complicado para arrancar dois pontos dentro da área pintada, desta vez diante de Adams.

Também vale a pena olhar para uma cesta do pivô no segundo tempo na qual recebeu um passe de Harden. O que chamou a atenção foi a velocidade para chegar do outro lado da quadra antes de Adams e finalizar o contra-ataque.

Além destes 28 pontos e 12 rebotes, Nenê deu uma assistência. Ela saiu em um lance no qual novamente recebeu passe de Harden para entrar no garrafão. Assim que pegou a bola nas mãos e viu que atraiu a defesa do Thunder para perto do aro, fez a ligação com Eric Gordon no canto da quadra. Leitura perfeita e reação imediata. Coisa linda.

O fato de ter dado uma única assistência não quer dizer que Nenê só colaborou com uma cesta de um dos seus companheiros. No lance a seguir, dá para ver como a simples presença dele no garrafão após uma troca do Thunder que gerou um “mismatch” acabou sendo determinante para que Patrick Beverley pudesse chutar de três com liberdade do canto da quadra.

“Ele foi inacreditável sob todos os aspectos. Esse é o Nenê, e essa atuação dele não me surpreende”, afirmou o técnico Mike D’Antoni após a partida. “Quando nós o contratamos, todo mundo dizia que ele poderia ser um dos melhores pivôs da liga se permanecesse saudável”, completou o comandante do Rockets.

Essa declaração vai ao encontro de uma história contada por Daryl Morey, gerente-geral da franquia. “Eu estava em Los Angeles com a minha mulher no dia em que soubemos que Nenê estava decidindo com quem iria assinar um novo contrato. Eu estava em pânico. Conversei com os agentes dele e tudo o que pude fazer depois foi esperar. Nós sabíamos que ele e sua presença física eram o que nosso time precisava para o garrafão. Pensamos que com o plano correto nós poderíamos preservá-lo e mantê-lo saudável para os playoffs e para jogos assim”, comentou.

O tal do plano correto passou por um limite de minutos nos jogos durante a temporada regular e algumas noites de descanso estratégicas. Tudo para que Nenê chegasse na melhor condição possível para o momento da competição que realmente importa. “Partidas assim nos playoffs são a razão pela qual ainda jogo basquete”, afirmou o brasileiro após a atuação de gala diante do Thunder.

Esperar que apresentações do tipo se repitam na sequência da caminhada do Rockets não é uma ideia segura. Não é todo dia que alguém iguala uma marca histórica de Wilt Chamberlain. Além disso, Nenê já deu incontáveis sinais ao longo da carreira de que não é muito chegado em protagonismo, mesmo que seus técnicos cheguem a implorar por isso. Por outro lado, também já é bastante claro para quem o acompanha que ele não precisa estar constantemente sob os holofotes para contribuir de maneira sólida dentro de quadra.

De qualquer maneira, uma atuação memorável dessa serve ao menos para dar mais um sinal do quanto a apreensão de Morey há alguns meses era justificável e para levar a admiração dos companheiros a um grau ainda maior.

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