O Kings sonhava alto com Buddy Hield. O que ele tem entregado?

Luís Araújo

O “All-Star Game” de 2017 acabou ficando marcado por dois motivos. Primeiro porque foi um dos mais sem graça de todos os tempos. E depois por ter sido encerrado em meio ao vazamento da notícia de que DeMarcus Cousins estava sendo trocado. O Sacramento Kings entendeu que tinha seus motivos para negociar o pivô naquele momento. Mas o que motivou a franquia a bater o martelo em cima da proposta do New Orleans Pelicans foi a inclusão de Buddy Hield no pacote que também contou com Tyreke Evans, Langston Galloway, uma escolha de primeira rodada no Draft de 2017 e uma outra de segunda.

Escolhido na sexta posição do Draft de 2016, Hield vinha tendo uma temporada de altos e baixos com o Pelicans até então — com médias de 8,6 pontos por jogo, 2,9 rebotes e 39,3% de aproveitamento nas bolas de três. Ainda que tenha entrado na NBA mais velho do que outros jovens da mesma safra, esse tipo de instabilidade é completamente compreensível para um calouro. Foi o que lembrou Anthony Davis pouco antes de o ex-companheiro ser mandado para o Kings.

“Ele começou um pouco devagar, mas já está se ajustando e agora tem jogado bem. Qualquer novato que chega à NBA precisa lidar com as expectativas das pessoas, o que leva a ficar pensando demais nas coisas. Mas ele está fazendo um grande trabalho ao se concentrar e apenas jogar basquete”, declarou Davis, em uma entrevista por telefone com jornalistas do mundo inteiro da qual o Triple-Double fez parte, às vésperas do “All-Star Game” de 2017.

Só que Vivek Ranadive, proprietário do Kings, parecia ver algo a mais. De acordo com que noticiou na época Baxter Holmes, jornalista da ESPN dos EUA, Ranadive considerava que Hield tinha “potencial de Stephen Curry”, e essa ideia acabou sendo crucial para a concretização da troca. Foi uma informação que vazou, não uma declaração. Talvez não era a intenção mesmo que esse tipo de comparação se tornasse pública. Mas virou e inevitavelmente marcou Hield de uma maneira desnecessária.

De fato, parece cada vez mais improvável a ideia de que um dia ele chegue perto do nível de um MVP da liga. Quem ainda tiver essa comparação em mente fatalmente irá se decepcionar na hora de avaliar aquela que foi a grande aposta do Kings ao se desfazer de Cousins. Mas quem deixar isso de lado e observar Hield como se nada relacionado a Curry tivesse vazado pode até vir a apreciar algumas coisas.

Em sua temporada como novato, Hield teve suas melhores apresentações depois da troca. O jogo contra o Phoenix Suns em que fez 30 pontos, seu recorde pessoal na NBA até agora, aconteceu já com o uniforme do Kings. Assim como a atuação de 22 pontos, oito rebotes, sete assistências e dois roubos de bola diante do Golden State Warriors. De uma maneira geral, seu desempenho como definidor subiu mesmo após a mudança de ares. Naquele resto de campeonato em Sacramento, ele teve aproveitamento de 48% nos chutes em geral, 42,8% nas bolas de três e índice de 57,9% em eficiência nos arremessos. Números consideravelmente superiores em relação aos apresentados na época em que atuou pelo Pelicans — 39,3%, 36,9% e 48,7%, respectivamente.

Até houve uma queda discreta na atual temporada, apesar de que o rendimento em bolas de três subiu ainda mais. Mas não é nada anormal. Como os 25 jogos pelo Kings no campeonato anterior representavam uma era até de se esperar que alguma variação fosse acontecer em algum momento. Aquela sensação expressada por Anthony Davis há pouco mais de um ano tem se confirmado: Hield é um jogador melhor em relação ao que se mostrou em suas primeiras semanas como profissional.

Mais do que observar esses números de maneira isolada, é importante observar a maneira como Hield tem sido utilizado. Por estar em fase de reconstrução e ter um elenco recheado de jovens, o Kings tem passado por uma série de testes na temporada. Como consequência disso, nenhuma formação até agora recebeu mais do que 150 minutos, o que é muito pouco se comparado ao que acontece na maioria das outras equipes da liga. Só a título de curiosidade, o quinteto que inclui Hield e que tem sido mais utilizado até agora é um que o coloca ao lado de Frank Mason, Bogdan Bogdanovic, Willie-Cauley Stein e Kosta Koufos. São 88 minutos, com 105,4 pontos de eficiência ofensiva e 96,7 de defensiva. Números bem interessantes, mas frutos de uma amostragem pequena.

Nesta formação em questão, Mason e Bogdanovic são os que mais atual como condutores da bola, com liberdade para a terem nas mãos e criarem as ações ofensivas. Tem sido assim mesmo. Na maior parte do tempo em que aparece em quadra, Hield conta com a companhia de outros dois jogadores que assumem a função de armação. Ele até tem liberdade para chamar jogadas vez ou outra e disparar para o ataque depois de um rebote defensivo para pegar a defesa desprevinida, como mostra o lance a seguir. Mas não tem sido a regra.

Até tem sido possível observar algumas coisas interessantes quando Hield resolve colocar a bola no chão para tirar algum coelho da cartola quando a defesa aperta. Não chega a ser raro vê-lo driblar para continuar a agredir as marcações e encontrar um companheiro em melhor condição. O problema é quando ele precisa definir após esses dribles.

Nesta jogada abaixo, acabou dando tudo certo: a finta em cima de Jerami Grant rendeu um chute de três pontos com um pouco mais de espaço. Mas, estatisticamente, quanto mais ele dribla antes de fazer um arremesso, menores as chances de a bola cair.

A melhor versão de Hield vem sendo mesmo em situações nas quais ele fica aberto como opção de passe e define depois de receber. O aproveitamento nas bolas de três em “catch and shoot” é de 53,9%. É um índice excelente e muito, mas muito superior em relação ao de 28,4% em “pull ups”.

Uma amostra do uso de Hield deste maneira pode ser visto a seguir. Uma boa movimentação de Vince Carter para confundir os marcadores sem bola do Houston Rockets e a tentativa de bloqueio de Kosta Koufos o ajudaram a receber com espaço na linha de três, pronto para chutar.

A consolidação de Hield como um ótimo arremessador de longa distância seria uma garantia de espaço na NBA por um bom tempo. Resta saber em que cenário isso será encaixado no Kings ou em qualquer outro time que ele venha a defender ao longo da carreira. Há quem acredite que a situação ideal seria como um pontuador a partir do banco de reservas. É algo que pode até vir a acontecer, mas o mais importante mesmo nesta questão é que ele tenha a companhia de pelo menos um outro facilitador ofensivo que o ajude a ser acionado nas situações que melhor rende.

Do ponto de vista defensivo, alguns aspectos ainda precisam ser aprimorados, especialmente no que diz respeito ao trabalho longe da bola. Mas quando ele está concentrado, é possível observar pontos positivos na marcação em cima da bola que o faziam ser considerado um “defensor sólido” nos tempos de universitário.

Pouco mais de um ano depois da troca com o Pelicans, dá para dizer que Hield não tem lá muito a ver com Curry e que ele não é nem o jovem que desperta mais expectativa no elenco Kings para o futuro. Bogdanovic e De’Arron Fox já estão alguns degraus acima dele neste sentido por parecerem ter maior potencial. Mas também não quer dizer que Hield não tenha tudo para se mostrar um jogador bastante útil ao longo dos próximos anos e facilmente apreciável por quem resolver vê-lo em ação.

Basta torcer para que Hield encontre um bom ritmo de arremessos quando estiver em quadra. Além, é claro, de esquecer da comparação descabível de Ranadive.

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