O lugar na história que parecia improvável para Ben Wallace

Luís Araújo

Não é difícil entender o motivo pelo qual Draymond Green se identifica tanto com Ben Wallace, ao ponto de escrever uma carta de agradecimento a tudo o que o ex-pivô fez durante a trajetória na NBA. Apesar de terem estilos bem diferentes dentro de quadra, ambos superaram a desconfiança de muita gente para alcançar um sucesso que parecia improvável.

Peça fundamental em um Golden State Warriors que já tem um título e ameaça emplacar a melhor campanha da história da NBA, Green foi selecionado apenas na 35ª posição do Draft de 2012. Algumas qualidades que se vê hoje, como a capacidade de abrir a quadra com os chutes de três, já eram notáveis na época em que deixou a Universidade de Michigan State. O problema era a altura. Como alguém de 2,01m poderia se virar na posição quatro na NBA, ainda mais sem apresentar uma explosão fora de série?

O tempo passou, e hoje está claro para todo mundo que Green triunfou ao ponto de não ser exagero nenhum seu nome aparecer na discussão sobre o prêmio de MVP da atual temporada. Tudo graças ao deslocamento lateral, às movimentações precisas na defesa, à versatilidade na marcação, que o permite atrapalhar gente mais alta no “post-up” e também pressionar no perímetro, aos tiros certeiros de longa distância, à boa leitura de jogo, à capacidade de tomar a decisões corretas com a bola nas mãos e outras coisas mais.

Wallace também era considerado baixo. Os 2,06m representavam, em tese, uma desvantagem para quem pretendia ser um pivô na NBA. No ano de 1996, depois que saiu da universidade, passou batido no Draft. Em seguida, tentou a sorte no basquete italiano. Também sem sucesso. A oportunidade de trabalhar finalmente apareceu no começo de outubro, quando assinou como agente livre com o Washington Bullets — atual Wizards.

O começo não foi tão promissor. Enquanto novato, ele chegou a ser mandado pela comissão técnica a treinar com os armadores do elenco. Dá para imaginar o tamanho do desastre desta ideia para alguém que passava longe de ter os arremessos como ponto forte. Pegar a bola e tentar somar pontos a mais de dois passos da cesta, definitivamente, não era com ele. O aproveitamento de 41,4% em lances livres ao longo da carreira dá uma boa noção disso.

A capacidade atlética o fez sobreviver na NBA. Foram três anos em Washington. Depois, mais um em Orlando. Mas as coisas começaram a mudar mesmo em agosto de 2000, quando foi envolvido em uma troca com o Detrot Pistons — a mesma que levou ao Magic o ala Grant Hill, uma estrela em ascensão na época e um dos principais nomes nas discussões que haviam sobre quem seria o sucessor de Michael Jordan. Ninguém poderia imaginar que Wallace acabaria virando a peça de maior impacto naquela transação.

Assim que chegou ao Pistons, não só virou titular absoluto como passou a receber mais de 30 minutos de ação por partida e atingiu os dois dígitos na média de rebotes por jogo. Das peças vitais para o título de 2004, acabou sendo o primeiro a se juntar ao elenco. À medida em que Chauncey Billups, Rip Hamilton, Tayshaun Prince, Rasheed Wallace e o técnico Larry Brown foram adicionados nos anos seguintes, o time deixou de ser uma moleza no Leste, alcançou os playoffs, virou uma potência na conferência e finalmente foi campeão.

Aquela decisão contra o Los Angeles Lakers serve como um resumo de como Wallace conseguiu usar o poder de marcação, o mesmo que o rendeu quatro troféus de melhor defensor da liga, para compensar a baixa estatura e os defeitos no ataque. Shaquille O’Neal viu isso de perto. Billups acabou ganhando o prêmio de MVP das finais de 2004, mas o Pistons não teria sido campeão sem o bom trabalho do homem que conseguiu frear um dos pivôs mais dominantes da história.

“Eu achava que era melhor do que Shaq? Não. Mas isso não significava que eu ia deixá-lo fazer o que bem entendesse contra mim. Ele ia ter de merecer seus pontos. Eu realmente queria competir”, disse Wallace em entrevista à edição de agosto da revista norte-americana Slam.

Deu muito certo, mas não só naquela ocasião. Muitas das coisas boas que Draymond Green apresenta nos dias de hoje em termos de marcação foram feitas com maestria por Wallace em um passado não tão distante assim. “Ele era ótimo em antecipar jogadas. Eu fui duas vezes eleito para o time de defesa da liga e atribuo ambas a ele. Foi o melhor que eu vi em dar tocos e cavar faltas de ataque”, disse Billups, também à edição de agosto da Slam.

Esse conjunto de habilidades defensivas não só o levou a se firmar na NBA, coisa que parecia difícil de imaginar em 1996, como o transformou em um ídolo do Pistons. Tanto é que a camisa 3 usada por ele foi aposentada pela equipe no intervalo do jogo contra o Warriors, no sábado passado.

“Você quebrou o molde. Nunca mais vai ter alguém como você. As pessoas diziam que aquele time de 2004 não tinha superestrelas. Elas não sabiam o que estavam falando. Você foi o melhor jogador de defesa da sua altura que eu já vi”, declarou Larry Brown, que hoje é técnico universitário, durante a homenagem ao ex-pivô.

Quando o microfone chegou às suas mãos na cerimônia, Wallace disse o seguinte: “Eu me sinto muito honrado por ser uma daquelas pessoas que, daqui a 20 ou 30 anos, alguém vai aparecer no ginásio, olhar meu número e perguntar: ‘Quem é esse cara? Qual a história dele?’, e eu espero que alguém ainda se lembre para poder ajudar esse torcedor.”

Seria ótimo se alguém que não o viu jogar puder mesmo contar com a ajuda de um outro torcedor ao lado para descobrir quem foi Ben Wallace. Trata-se de uma história boa demais para não ser transmitida para as próximas gerações. Mais do que um excelente defensor e inspiração para um outro jogador tão especial quanto Draymond Green, ele foi um sujeito que realizou o sonho de jogar na NBA depois de ignorar todos os fatores que poderiam fazê-lo desistir.

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