O que ainda vale a pena acompanhar na NBA a um mês dos playoffs?

Luís Araújo

A temporada regular da NBA acaba no dia 11 de abril. É natural que a expectativa pelas histórias incríveis que nos aguardam nos playoffs só aumente daqui para frente. Mas ainda há coisas que merecem a nossa atenção ao longo destas últimas semanas de fase de classificação. Vamos a elas.


A volta de astros lesionados

Uma cirurgia no joelho esquerdo afastou John Wall das quadras desde o fim de janeiro. A recuperação estava prevista para acontecer entre seis e oito semanas, e muita gente imaginou que o Washington Wizards teria sérios problemas durante a ausência do seu principal jogador. Não foi o que aconteceu. O time continuou vencendo ao ponto de se manter na briga pelo mando de quadra na primeira rodada dos playoffs do Leste.

Parte disso passa pelo bom encaixe de Tomas Satoransky. A formação que reúne o croata e os outros quatro titulares — Bradley Beal, Otto Porter, Markieff Morris e Marcin Gortat — já é a segunda mais usada pelo Wizards na temporada e apresenta bom resultado: “Net Rating” de +9,4 pontos em cerca de 400 minutos, além de um índice impressionante de 70,1% em assistências. Esse percentual de cestas convertidas depois de um passe é bem superior ao do quinteto com Wall no lugar de Satoransky, que registra índice de 59,4% nesta estatística e “Net Rating” de +6,4 pontos.

Essa maior movimentação de bola durante a ausência de Wall parece ter agradado o restante do elenco. Após uma destas partidas nas últimas semanas, Gortat chegou a celebrar o fato de o Wizards ter conquistado uma “vitória em equipe”, em uma clara alfinetada ao armador, que não ficou calado e respondeu dizendo que o pivô se beneficia demais das assistências dele.

A recuperação de Wall parece estar nos estágios finais. O armador já tem participado de algumas atividades nos treinos da equipe. Logo deve estar pronto para voltar. Resta saber o impacto que isso vai ter. Que ele é um enorme talento na NBA não se discute. Mas o Wizards conseguiu jogar tão bem ou até melhor durante essa ausência.

O mesmo não pode se dizer sobre Minnesota Timberwolves e San Antonio Spurs, que estão sentindo muito a falta de Jimmy Butler e Kawhi Leonard, respectivamente. A situação de Butler é mais clara: deve voltar entre o fim de março e o começo de abril após uma cirurgia que precisou fazer no joelho direito. As vitórias sobre Warriors e Wizards ajudaram a acalmar um pouco as coisas, mas o Timberwolves segue sem vaga garantida nos playoffs e o calendário ainda reserva mais alguns confrontos complicados durante esse período sem o seu melhor jogador.

Será que Butler vai voltar com o time classificado e usará a reta final de fase de classificação só para reconquistar ritmo de jogo antes dos playoffs? Ou será que precisará retornar já no seu melhor em um Timberwolves com situação ainda indefinida?

A história de Kawhi tem sido um pouco mais complicada e rodeada por incertezas. Ele começou o campeonato machucado e demorou para jogar. Depois que finalmente estreou, participou só de nove partidas e voltou a se ausentar. Aí o técnico Gregg Popovich afirmou que ficaria surpreso se o jogador voltasse ainda nesta temporada. Mas surgiu em seguida a notícia de que Kawhi planejava voltar ainda em março.

Quanto mais cedo isso acontecer, melhor para o Spurs, que está ameaçado de ficar fora dos playoffs como jamais esteve nos últimos 20 anos. Mesmo que ele não volte no melhor de sua forma, ajudaria demais o time a presença de alguém com talento para colocar a bola dentro da cesta — e que, por consequência, tire um pouco da pressão sobre os ombros de LaMarcus Aldridge.

Vale a pena também ficar de olho no Golden State Warriors. O departamento médico andou bastante movimentado nestas últimas semanas, incluindo visitas de Stephen Curry, Klay Thompson, Kevin Durant e Draymond Green. É muita gente importante se lesionando ao mesmo tempo. Não deve ser nada que ameace a presença deles nos playoffs. Mas a luz amarela está acesa.

Quem para o Blazers?

Houston Rockets e Golden State Warriors já estão garantido nos playoffs. O Portland Trail Blazers está quase lá também. A sequência de vitórias que começou no dia 14 de fevereiro, ainda antes do “All-Star Game”, fez com que esse time mudasse de patamar no Oeste. De candidato a um das últimas vagas aos playoffs, passou a terceiro melhor da conferência.

A fase inspirada de Damian Lillard, as contribuições do elenco de apoio e, principalmente, o forte sistema defensivo explicam esse gás na segunda metade da temporada. É de se imaginar que esse Blazers venha a perder algumas vezes até o final da fase de classificação. Mas esse time tem sido uma grande história da NBA neste momento e uma escolha certeira para quem se aventura pelo League Pass. Parece estar mesmo pelo menos um degrau acima dos demais que ainda brigam por vaga nos playoffs.

Briga por playoffs no Oeste

É a grande história deste resto de temporada, sem dúvida nenhuma. A distância entre o Minnesota Timberwolves, quinto colocado da conferência, e o Los Angeles Clippers, décimo, é de apenas dois jogos e meio. E nem mesmo Portland Trail Blazers e Oklahoma City Thunder, que aparecem um pouco acima do resto, estão completamente tranquilos.

Especialmente o Thunder, que sofreu um bocado para se encontrar depois da lesão de Andre Roberson e tentou tapar o buraco que se abriu com a contratação de Corey Brewer. O time encaixou uma boa série de vitórias nas últimas semanas e voltou a se colocar em uma boa posição, mas terá uma sequência complicada nesta reta final de temporada: dos 12 últimos jogos, 11 serão contra adversários que lutam por vaga nos playoffs.

O Spurs também terá uma tabela complicada até o dia 11 de abril, o que torna o retorno de Kawhi Leonard ainda mais necessário — caso a franquia realmente queira manter já uma sequência de classificação aos playoffs que já dura 20 anos. O Timberwolves ainda tem mais alguns confrontos equilibrados antes de voltar a cruzar com adversários teoricamente mais fracos. Será que o time conseguirá se sustentar entre os oito melhores do Leste sem Butler?

O New Orleans Pelicans já está se virando há um tempo sem DeMarcus Cousins, que não volta mais nesta temporada. Anthony Davis entregou algumas atuações espetaculares ao longo das últimas semanas e não deixou o time perder terreno na luta por um lugar nos playoffs. Pelo contrário: a campanha até melhorou. Mas as coisas parecem estar tão no limite que é impossível ter alguma segurança de que irão se sustentar.

O Clippers segue firme e forte na luta apesar de todos os pesares — lesões em série no começo do campeonato e a troca envolvendo o seu melhor jogador em fevereiro. O Denver Nuggets conta com a volta de Paul Millsap, mas terá uma maratona de duelos fora de casa nas próximas semanas. Como estará a situação do time nesta briga depois que essa excursão acabar?

De todos esses candidatos, o que parece mais sólido é o Utah Jazz — talvez com exceção do Blazers. O time encaixou uma série de 19 vitórias em 21 jogos e tem uma defesa que é, disparadamente, a mais eficiente da NBA desde a pausa para o “All-Star Game”, com uma média de 91,3 pontos tomados a cada 100 posses de bola.

É claro que o risco de não conquistar a classificação é considerável. Afinal, a campanha em si é parecida com a de outros competidores que estão abaixo. Mas é uma equipe que está em alta e que realmente aparenta ser mais segura do que a maioria dos seus rivais desta disputa.

Mando de quadra no Leste

O Cleveland Cavaliers causou uma ótima primeira impressão depois das trocas que reformulou o elenco no meio da temporada, mas não demorou muito para voltar a passar por turbulência. Ao invés de pressionar Toronto Raptors e Boston Celtics nas primeiras posições do Leste, viu os dois rivais ficarem mais distantes e chegou a perder o terceiro lugar para o Indiana Pacers — dono da terceira defesa mais eficiente da NBA depois da pausa para o “All-Star Game”.

Washington Wizards e Philadephia 76ers também estão bem próximos de Cavs e Pacers na tabela de classificação de conferência. Duas derrotas seguidas de um e duas vitórias de outro podem mudar totalmente a ordem destas quatro equipes.

Vale lembrar ainda que LeBron James jamais se classificou para os playoffs sem o mando de quadra na primeira rodada. Será que veremos a quebra de uma escrita?

Recorde do Raptors

A vaga nos playoffs já está garantida há algum tempo. A liderança do Leste está muitíssimo bem encaminhada, já que abriu-se uma distância considerável para o Boston Celtics. Um desafio que ainda resta para esse Toronto Raptors é o de estabelecer um novo recorde de vitórias da história da franquia.

Na verdade, nem é um desafio tão grande assim. A melhor marca até hoje aconteceu há dois anos, quando foram registrados 56 triunfos. Se nada sair muito dos trilhos nas próximas semanas, esse número será alcançado sem muitos sustos. Afinal, o aproveitamento da atual campanha é de 75%, consideravelmente superior ao de 68,3% de 2015/16.

Nada mal para um time que se despediu dos playoffs no ano passado passando uma sensação de que estava estagnado, sem ter muito para onde crescer.

Os melhores (ou menos piores) do “tank”

Tem muito time ruim que já desistiu da temporada faz tempo e que só pensa na loteria do Draft. Mas Los Angeles Lakers e Brooklyn Nets não terão as suas próprias escolhas de primeira rodada, o que significa que não há motivos então para acumular derrotas nesta reta final de campeonato. São equipes que lutarão para vencer até o fim e que, por consequência, poderão causar problemas para os adversários que aparecerem pela frente.

Principalmente o Lakes. O Nets até tem feito bons jogos ao longo da temporada, com um esquema tático bem definido e que conquista resultados bem interessantes quando os arremessos estão caindo. Mas o Lakers tem muito mais talento e parece ser um dos times mais legais de se acompanhar nas últimas semanas. Especialmente depois da troca que levou Isaiah Thomas a Los Angeles.

Levando em consideração só os jogos depois do “All-Star Game”, o Lakers tem uma campanha muito acima dos 50% de aproveitamento e “Net Rating” de +5,8 pontos — sétimo maior da liga. Uma das vitórias recentes foi sobre o Cleveland Cavaliers, de LeBron James, que chegou a afirmar que o time de Los Angeles tem melhorado ano a ano desde que passou a ser comandado por Luke Walton.

A evolução de Lonzo Ball nos arremessos, o desenvolvimento da leitura de jogo de Julius Randle e o bom uso de Isaiah Thomas com a bola nas mãos são alguns dos fatores por trás desta boa impressão que a equipe vem passando. A defesa com Thomas em quadra ainda tem sido um problema, mas ainda assim o Lakers tem sido melhor com ele em quadra.

Dá para dizer que um outro time também já sem chance nenhuma de playoffs tem sido interessante nestes últimos tempos: o Dallas Mavericks. Mark Cuban foi até multado por declarar publicamente que a franquia tinha abraçado o “tank”, mas Dirk Nowitzki tem arremessado de longe melhor do que nunca. Aos 40 anos, o alemão ainda dá motivos para vê-lo em ação.

Além disso, a formação que o coloca ao lado de Dwight Powell, Doug McDermott, Yogi Ferrell e JJ Barea apresenta um “Net Rating” de impressionantes +29,3 pontos. E o mais incrível nisso tudo é que esse é o quinteto mais utilizado por Rick Carlisle desde a pausa para o “All-Star Game”.

Não é que o Mavericks mudou da água para o vinho. As derrotas ainda são mais frequentes que as vitórias e essa formação bem-sucedida aí costuma ficar em quadra contra reservas de outras equipes. Mas é inegável que há coisas interessantes acontecendo em Dallas.

O clube dos 50-40-90

O termo se refere a jogadores que terminam uma temporada com aproveitamento de pelo menos 50% nos arremessos em geral, 40% nas bolas de três pontos e 90% nos lances livres — e que tenham uma quantidade mínima de chutes tentados em cada uma destas categorias, claro.

Steve Nash e Larry Bird são os únicos jogadores que conseguiram registrar esse feito em mais de uma temporada. Além dos dois, esse clube dos 50-40-90 conta com outros cinco integrantes: Stephen Curry, Kevin Durant, Mark Price, Reggie Miller e Dirk Nowitzki.

Existe uma chance de um novo membro se juntar a esse clube na atual temporada. Trata-se de Kyrie Irving. O armador do Boston Celtics tem aproveitamento de 40,8% nas bolas de três, mas está um pouco abaixo do necessário nos chutes em geral e nos lances livres: 49,1% e 88,9%, respectivamente. Uma melhora nas próximas semanas pode fazê-lo entrar para esse seleto grupo de grandes arremessadores da história da NBA.

Kyrie não é o único que flerta com o 50-40-90 na temporada. Durant (52%, 43% e 88,7%) e Curry (49,4%, 42,4% e 91,9%) estão na mesma situação. Mas os dois já pertencem ao clube. Para eles, o desafio é se juntar a Nash e Bird.

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