O que Clippers e Pistons buscaram na troca por Griffin?

Luís Araújo

A história da NBA nos mostra que é preciso aguardar um bom tempo antes se descobrir ao certo o resultado de uma troca. Quando o Memphis Grizzlies resolveu mandar Pau Gasol para o Los Angeles Lakers, em 200, Gregg Popovich chegou a declarar publicamente que aquilo estava “além da compreensão” e até sugeriu a criação de um comitê que pudesse vetar negociações que fossem muito mais favoráveis para um lado do que para o outro. Mas alguns anos depois ele reconheceu que errou em seu comentário, motivado por Marc Gasol ter virado um jogador muito melhor do que muita gente imaginava, ao ponto de se tornar um símbolo até maior do que o irmão na história da franquia.

Para ficar em um exemplos mais recente, o Chicago Bulls parecia que estava recebendo bem pouco por Jimmy Butler quando resolveu despachá-lo para o Minnesota Timberwolves, mas o desenvolvimento de Kris Dunn e a qualidade que Lauri Markkanen vêm mostrando logo de cara já dão pinta de que o negócio fez sentido para todos os envolvidos. Vale lembrar ainda da movimentação em torno de Paul George. O Indiana Pacers foi duramente criticado por não tê-lo usado para adquirir uma escolha de Draft futura e ainda ter herdado um contrato longo do Oklahoma City Thunder, mas acabou que Victor Oladipo explodiu de vez, jogando o melhor basquete da vida e alcançando o status de “all-star”. Isso sem falar em Domantas Sabonis, que agora tem espaço que antes não tinha para mostrar algumas coisas em seu jogo.

Parece claro, então, que o mais importante na hora em que uma troca acontece é tentar entender as motivações que levaram as equipes a tomarem a decisão de se mexer. E aí chegamos na negociação surpreendente envolvendo Blake Griffin, que se concretizou pouco tempo depois de Adrian Wojnarowski, jornalista da ESPN norte-americana, ter divulgado essa possibilidade e que não passava pela cabeça das pessoas até então. Lembrou até a troca envolvendo Kyrie Irving e Isaiah Thomas entre Cleveland Cavaliers e Boston Celtics, em que o boato surgiu de uma hora para a outra e não demorou muito depois disso para que o martelo fosse batido.

Primeira escolha do Draft de 2009 e segundo maior cestinha da história do Los Angeles Clippers, Griffin foi mandado para o Detroit Pistons ao lado de Willie Reed e Brice Johnson, dois alas-pivôs que faziam parte do fundo do banco e que só entraram no pacote para que a quantidade de jogadores negociados das duas equipes fosse a mesma. Em troca, a franquia californiana recebeu o ala-armador Avery Bradley, o ala Tobias Harris e o pivô Boban Marjanovic, além de uma escolha de primeira rodada do Draft deste ano e uma outra de segunda rodada do Draft de 2019.

Antes de seguir em frente com qualquer análise, é bom ter em mente algumas coisas a respeito das peças que compõem esse negócio. Bradley tem um contrato expirante de US$ 8,8 milhões e deverá pedir muito mais do que isso quando for assinar um novo. Harris e Marjanovic serão agentes livres em julho de 2019 e receberão, respectivamente, US$ 14,8 milhões e US$ 9,5 milhões na próxima temporada. Griffin assinou por cinco anos antes da temporada e receberá quase US$ 39 milhões ao longo da última temporada do acordo. Já Johnson e Reed são expirantes de pouco mais de US$ 1 milhão.

Além disso, vale destacar que a escolha de primeira rodada será protegida para as quatro primeiras posições até 2021, quando finalmente não terá restrição alguma. Ou seja: mesmo que os planos do Pistons sejam um fracasso e a classificação aos playoffs não se concretize, a chance de essa escolha ser utilizada pelo Clippers já neste ano é enorme.

Já era sabido que Bradley estava à disposição para trocas. É verdade que ele não estava jogando tudo o que podia, mas o que realmente pesou foi o fato de que o Pistons tem uma folha salarial já comprometida, com alguns contratos bem ruins, e precisaria gastar uma grana a mais para renovar com ele. Não é o tipo de situação que vale a pena para uma equipe que está longe de competir pelo topo da conferência, então seria melhor mesmo tentar fechar um negócio qualquer agora só para não perdê-lo totalmente de graça ao final da temporada. Havia também na franquia a necessidade de melhorar o rendimento do time imediatamente para conquistar uma vaga nos playoffs e colocar mais torcedores no ginásio novo, metas que estão relacionadas uma com a outra.

Griffin pode ser considerado uma forte esperança neste sentido. Em que pese o histórico de lesões, trata-se de uma estrela de 28 anos que está no auge da carreira, dono de um conjunto de habilidades tão grandes que o colocam, em termos de talento puro, como o melhor jogador que o Pistons já teve nos últimos dez anos. E é por isso tudo que é fácil imaginá-lo levando uma quantidade maior de pessoas para o ginásio.

O encaixe com Andre Drummond pode não ser o cenário dos sonhos, mas também é algo que pode acontecer. Os tempos ao lado de DeAndre Jordan deram uma boa experiência a Griffin em termos de jogar ao lado de um pivô sem arremesso. O fato de Drummond ser bastante utilizado longe da cesta em “handoffs” também pode facilitar o entrosamento da dupla. Mas também é importante lembrar que Griffin não é um jogador de garrafão apenas com características tradicionais. Pela combinação de habilidade, mobilidade e capacidade de fazer bons passes, ele pode muito bem assumir a função de levar a bola e comandar o ataque, algo que já costumava fazer no Clippers e que tem sido uma grande carência do Pistons, especialmente depois da lesão de Reggie Jackson.

Pode ser interessante também quando o técnico Stan Van Gundy experimentar formações que coloquem Griffin na companhia de um bom chutador como Anthony Tolliver na posição quatro, com Drummond no banco, ajudando a abrir a quadra. Aliás, falando nisso, o Pistons é dono do quinto melhor aproveitamento em chutes de três até esse momento na temporada. Harris ajudava, claro, mas ainda restam outros jogadores no elenco que são capazes de ameaçar quando espalhados pelo perímetro, só na espera de um passe nas jogadas em que Griffin dá as costas para a cesta e atrai múltiplos defensores. Langston Galloway tem um desempenho não mais do que mediano de 36% nestes arremessos de três. Luke Kennard e Reggie Bullock têm aproveitamento superior a 43%, o que é excelente. Só Stanley Johnson que fica bem abaixo, com 28%. O rendimento não costuma ser muito melhor do que isso nem mesmo em situações nas quais ele recebe com muito espaço para finalizar, mas ele pode dar opção de passe usando sua boa capacidade de deslocamento em cortes sem bola.

É uma aposta que pode não funcionar, evidentemente, mas o Pistons teve os seus motivos — tanto dentro como fora de quadra — para abrir mão de dois titulares e tentar fazer as coisas darem certo com uma estrela de primeira grandeza como Griffin. Pelos lados do Clippers, o que se sabe é que o foco estava em adicionar jogadores jovens e escolhas futuras de Draft sem deixar de competir pelos playoffs da atual temporada. E tem mais: de acordo com Marc Stein, jornalista do New York Times, a franquia ainda pretende encaixar Lou Williams (que tem contrato expirante) e DeAndre Jordan (que tem uma “player option” ao final da temporada) em outras negociações porque acredita ter uma chance de perseguir LeBron James. Se isso vai acontecer ou não é outra história. O fato é que a franquia realmente acredita nisso.

Vamos por partes.

O  Clippers pode ter aprendido a não depender tanto assim de Griffin nesta temporada. Inclusive não faz muito tempo que um texto foi publicado por aqui sobre o quanto Lou Williams foi essencial para que o time se mantivesse vivo durante a primeira metade do campeonato e ainda na briga por playoffs. Então até dá para entender que a direção da franquia, até mesmo motivada pelas lesões de Patrick Beverley e Danilo Gallinari, tivesse apostado em usar o seu maior talento individual como uma moeda de troca para adquirir outros três jogadores capazes de receber minutos na rotação — sendo que dois deles provavelmente serão titulares. Não haveria garantia nenhuma, obviamente, até porque o altíssimo nível de Lou Williams poderia não se sustentar em um prazo mais longo. Mas seria uma escolha de um caminho a ser seguido com base em alguns motivos compreensíveis.

Por outro lado, se realmente conseguir abrir mão de Jordan e de Williams, o Clippers teria de tentar remar por uma vaga nos playoffs do Oeste com um núcleo bastante diferente em relação ao começo da temporada. É uma situação que não tende a ser nada boa para quem precisa tirar a diferença em relação ao grupo dos oito melhores da conferência e que terá como adversários nesta disputa times teoricamente bem mais entrosados.

Será que ainda daria para continuar sonhando com o oitavo lugar do Oeste com um time totalmente remodelado? Difícil. O acúmulo de escolhas de Draft e uma abertura na folha salarial para a próxima temporada poderiam ser úteis para o plano de atrair agentes livres. Mas se a grande esperança é contratar LeBron mesmo, então perder a competitividade não é uma boa ideia. Uma classificação aos playoffs seria importante para aumentar o poder de convencimento na hora de atrair uma estrela deste nível, principalmente por se tratar de alguém acostumado a disputar finais todo ano.

Também vale o questionamento sobre o quanto esse fim de linha de Griffin em Los Angeles pode jogar contra o Clippers na hora de negociar com LeBron ou qualquer outro agente livre. Afinal, não é que a franquia simplesmente assinou um novo acordo com ele antes da temporada. Não. Na hora de negociar um novo contrato, foi feita uma grande cerimônia, que incluiu promessa de casamento eterno entre as duas partes e até mesmo uma simulação da aposentadoria da camisa do jogador. Cinco meses depois, Griffin foi trocado. Quanto isso pode custar para esses novos planos do Clippers?

São respostas que só aparecerão com o tempo. Essa troca pode ter sido uma cartada de mestre para os envolvidos como pode se mostrar um grande erro lá na frente. Vai depender do que acontecer dentro e fora das quadras nos próximos meses. De qualquer maneira, dá para visualizar a motivação por trás do negócio para ambos os times envolvidos. O Pistons aposta em Griffin para solucionar alguns problemas mais urgentes que se mostravam difíceis de serem resolvidos, ao passo que o Clippers entende que foi melhor romper os laços com ele para se colocar em uma posição de conquistar algo melhor lá na frente.

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