O que dá para esperar de Eric Bledsoe no Bucks?

Luís Araújo

O último ato da passagem de Eric Bledsoe pelo Phoenix Suns acabou sendo mesmo aquela tuitada em que dizia “eu não quero estar aqui”, dada depois da terceira derrota da equipe em três jogos na temporada — sendo duas delas por mais de 40 pontos de diferença. O armador foi enviado para o Milwaukee Bucks em troca do pivô Greg Monroe e duas escolhas do Draft de 2018, uma de primeira rodada e uma de segunda.

Ambas as escolhas têm proteções. A de primeira rodada só será mandada ao Suns em 2018 se ficar entre as posições 11 e 16 do Draft — o que é muito difícil de se imaginar, já que o Bucks tem tudo para se classificar aos playoffs com pelo menos a sexta melhor campanha do Leste. Se o time de Milwaukee mantiver a escolha, o Suns então poderá recebê-la em 2019, mas desde que ela fique entre as posições 4 e 16. Em 2020, será necessário torcer para que a escolha seja uma das sete primeiras. Só em 2021 é que não haverá restrição nenhuma.

Já a escolha de segunda rodada ficará com o Suns se cair entre as posições 48 e 60, o que tem muito mais chances de acontecer. Mas caso isso não se concretize, aí o Bucks a manterá e fim de papo.

Além de não provavelmente não contar com a escolha de primeira rodada por um bom tempo e ainda correr o risco de ficar sem a de segunda, o Suns pegou um jogador que definitivamente não faz parte dos planos. Tanto que a franquia já está buscando alguma maneira de negociá-lo — de acordo com o que apurou o jornalista Adrian Wojnaowski, da ESPN norte-americana. Ainda que isso não aconteça, a permanência dele a longo prazo é muito pouco provável. Afinal de contas, Monroe está agora em um time que já está com a rotação recheada de pivôs, tem um contrato gordo e será agente livre em julho de 2018.

É por isso tudo que chega a ser compreensível a sensação de que foi muito pouco em troca de alguém com tão bom quanto Bledsoe, mas é preciso levar em conta o contexto para tentar entender o que levou o gerente-geral Ryan McDonough a bater o martelo. O armador foi afastado depois da tuitada infame e o time parece ter melhorado desde então, o que diminuiu drasticamente o valor de mercado dele. É claro que seria muito melhor se o Bucks aceitasse colocar Malcolm Brogdon no pacote, mas não deu.

De mais imediato mesmo, o que o Suns poderá aproveitar desta troca é o alívio financeiro. Bledsoe receberá US$ 14,5 milhões ao longo desta temporada e US$ 15 milhões na próxima, antes de virar agente livre. Já Monroe tem salário mais alto, de US$ 17 milhões anual, mas seu acordo terminará em julho. Tudo bem que o time já está abaixo do limite salarial, mas esse espaço a mais que será criado poderá ser preenchido com algum reforço via mercado de agentes livres ou simplesmente servir de preparo para quando Devin Booker precisar renovar.

Pelos lados do Bucks, nem é preciso fazer muita força para ver essa troca com bons olhos. Manter Brogdon foi uma vitória. Em termos de peças do elenco, a única baixa foi Monroe mesmo, que até tinha espaço na rotação, vez ou outra funcionando como foco ofensivo da segunda unidade e mostrando até alguns avanços defensivos. Mas não é também que o técnico Jason Kidd tenha motivos para ficar desesperado e sem saber o que fazer sem ele. Isso sem falar que o pivô provavelmente não ficaria em Milwaukee após essa temporada.

Quando saudável, Bledsoe é um armador de ótimo nível. Há quem o coloque entre os dez ou 15 melhores da NBA. Aí já é uma questão mais complicada, que entra na subjetividade de cada um, mas o fato é que ele vem da melhor temporada da carreira e está na idade de ainda alcançar o seu auge enquanto jogador. Pelo o que é capaz de entregar nos dois lados da quadra, é o tipo de talento que não dava para o Bucks desperdiçar.

Uma coisa que tem chamado a atenção nos jogos do Bucks é o quanto o time encontra dificuldade para quebrar as defesas e encontrar oportunidades de definição nos momentos em que Giannis Antetokounmpo não está em quadra. Bledsoe chega para oferecer uma outra opção de jogador criativo com a bola nas mãos e capaz de criar esses espaços com sua explosão e gosto pelas infiltrações, o que consequentemente pode ajudar a facilitar a vida dos companheiros. Kidd poderá montar a rotação de um jeito que deixe pelo menos um dos dois em ação para não voltar mais a ter esse tipo de limitação no sistema ofensivo.

Também é bastante possível imaginar um encaixe dos dois juntos em quadra. Bledsoe não é um grande chutador de três pontos. Nos últimos anos, teve desempenho não mais do que mediano. É claro que o rendimento pode aumentar se puder contar com um melhor espaçamento ofensivo, algo que pode acontecer tendo alguém como Antetokounmpo ao seu lado. Mas o Bucks não precisa que ele vire um especialista nos tiros de longa distância. Deixando a bola nas mãos dele, daria para acionar Antetokounmpo em movimento — o que seria um pesadelo para as defesas adversárias, que teriam que se preocupar com o grego como se ele fosse um ótimo arremessador, já que um segundo de desatenção seria o suficiente para fazê-lo receber em progressão e se tornar praticamente imparável.

Bledsoe também tem capacidade atlética o bastante para fazer esse papel de cortar para a cesta sem a bola, enquanto Antetokounmpo a tiver nas mãos. As jogadas de “pick and roll” entre os dois têm tudo para apresentar resultados bem interessantes, mobilizando as defesas de um jeito que permitiria a gente como Khris Middleton e Tony Snell ter mais espaço quando acionados para o chute. Além de tudo isso, Bledsoe tem ferramentas que podem ser muito úteis a um sistema defensivo que até tem potencial, mas que neste momento da temporada aparece entre os cinco menos eficientes da liga.

Se essa aposta não der certo, tudo bem. O Bucks não precisou abrir mão de muita coisa mesmo nesta troca com o Suns. Mas se Bledsoe funcionar mais ou menos como se imagina, aí o time ficaria muito melhor e mais perigoso. O que pode ser especialmente animador para quem está em uma Conferência Leste aberta e que pode ver LeBron James sair do Cleveland Cavaliers em alguns meses.

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