O que fez Nocioni contagiar quem esteve por perto e se tornar especial

Luís Araújo

As oito bolas de três, os 37 pontos e os 11 rebotes naquele jogo da Olimpíada no Rio de Janeiro fizeram com que a carreira de Andrés Nocioni ganhasse um novo olhar. Para quem não estava tão familiarizado assim com o veterano, de repente ele virou “carrasco do Brasil”. Aquele que acertou o arremesso chorado que levou a partida para a prorrogação e que acabou conduzindo a Argentina a uma vitória que complicou demais a vida dos brasileiros na competição.

Mas dá para dizer que foi um ponto fora da curva — tanto que aquela pontuação foi, de longe, a maior dele em toda a sua longa e rica história com a camisa da seleção argentina. De um jeito bem diferente, Nocioni foi muito mais do que aquele jogo. Para quem o acompanhou por mais tempo e sabe apreciar no basquete mais do que as finalizações dos ataques, foi um privilégio vê-lo em ação. Aqueles 37 pontos contra o Brasil podem ser interpretados como uma espécie de recompensa para quem tanto se dedicou a contribuir dentro de quadra de maneira, digamos, menos glamourosa.

A entrega dentro de quadra foi a principal característica ao longo desta trajetória no basquete, que será concluída ao final da participação do Real Madrid na atual temporada europeia. Em um primeiro momento, pode até parecer algo simples e comum a trocentos outros jogadores por aí. Mas não é bem assim. O caso dele é especial pela maneira como isso se manifestou.

Há vários momentos que espalhados pelos últimos anos que são capazes de confirmar isso. Um em especial aconteceu na Copa do Mundo de 2014. Ainda durante a primeira fase, o Twitter do site argentino Básquet Plus postou a seguinte mensagem: “Prêmio Nobel da generosidade para Nocioni. Antes de ontem, foi Andray Blatche. Hoje, Gorgui Dieng. Sempre lhe dão a tarefa mais feia.”

O tuíte, como se pode perceber, foi publicado durante uma partida da Argentina com Senegal, dias depois do jogo contra Filipinas. Em ambas as oportunidades, Nocioni foi responsável por marcar esses dois jogadores, bem mais altos e fortes do que ele, o que faz uma diferença e tanto na briga por posicionamento perto da cesta.

Esses dois jogos em questão acabaram com vitória argentina. Conta Filipinas, foi no aperto. Blatche teve duplo-duplo, é verdade, com 14 pontos e 15 rebotes, mas finalizou só nove vezes durante toda a partida. Pode ainda parecer muito, mas foi um volume de jogo bem menor em relação ao ritmo absurdo que o ex-Brooklyn Nets estava acostumado a ter na competição. Diante de Senegal, a margem de pontos foi ampla. Um dos pontos altos para isso foi justamente o trabalho de Nocioni, que foi bastante elogiado pelo ala Léo Gutiérrez.

“A defesa dele foi uma barbaridade. Ele é quem contagia a todos por aquilo que entrega. Quem entra em quadra se vê obrigado a ter essa mesma intensidade, pois ele deixa o corpo e a alma em cada bola disputada”, declarou Gutiérrez, outro da turma que conquistou o histórico ouro olímpico em 2004, nos Jogos de Atenas.

Durante esses últimos anos na seleção argentina, Nocioni teve de encarar esse tipo de tarefa durante a maior parte do tempo em que permaneceu em quadra. No ataque até continuava se posicionando de forma bastante aberta, buscado os chutes de longe ou atacando de fora para dentro com a bola nas mãos. Defensivamente, porém, a posição cinco era com ele, que tentava se virar como dava: tomando a frente dos rivais antes do passe para dificultar a ligação e sabendo usar o corpo para tentar dificultar o quanto fosse possível as finalizações. Tudo isso sem medo de jogo físico.

Ainda que corresse o risco de ser superado posse de bola atrás de posse de bola, de tomar umas porradas e de levar cravadas na cabeça de alguém bem mais forte e mais alto, tudo bem. Problema zero. O que poderia ser um incômodo grande para muita gente, para ele era só algo necessário a se fazer para ajudar o time a vencer. Era só o que importava mesmo. Dane-se o resto.

Naturalmente, todo esse apetite pelo jogo físico e a intensidade sempre em níveis altíssimos geraram rusgas com adversários no meio do caminho. Não era todo mundo que cruzava com o argentino e simpatizava com o estilo dele, principalmente porque vez ou outra um cotovelo acabava sobrando. Mas, de novo: isso era o de menos. A única coisa que importava era fazer o que fosse preciso para ajudar o time. Se alguns inimigos fossem desenvolvidos a partir das brigas por rebotes feito maluco, azar.

Seria um erro resumir a carreira dele só à entrega dentro de quadra. É que esse tipo de coisa sempre foi muito evidente no argentino mesmo, mas às vezes isso acaba ofuscando o resto. As qualidades técnicas de Nocioni chegam até a ser subestimadas, assim como o entendimento sobre o jogo. O cérebro e o talento foram tão importantes para a construção de uma trajetória tão bem sucedida, que incluiu o já citado ouro olímpico, duas outras medalhas de bronze em Olimpíadas, oito temporadas na NBA, um troféu de MVP da liga espanhola em 2004 e um outro do Final Four da Euroliga em 2015, no ano em que conquistou o título continental e tudo mais do que disputou com o Real Madrid.

Não é pouca coisa, definitivamente. E ninguém seria capaz de tudo isso se dependesse unicamente da vontade, por mais absurda que ela fosse. Mas não tem jeito. A grande marca de Nocioni nestes anos todos como jogador de basquete foi a entrega e o sacrifício. Esse lance de não fugir de desafio algum defensivamente já dava para ser visto havia muito tempo. Na NBA, durante a passagem pelo Chicago Bulls, ele muitas vezes jogou na posição quatro e já encarava gente bem superior fisicamente. Em uma série contra o Miami Heat nos playoffs de 2006, por exemplo, chegou até a ficar incumbido em alguns ataques de marcar um Shaquille O’Neal que não estava mais no auge, mas que não fazia muito tempo que tinha passado disso. Não é necessário falar muito sobre o quanto o pivô do outro lado representava um desafio enorme para qualquer um que se metesse em seu caminho, não é mesmo?

Na seleção argentina, situações do tipo foram ficando cada vez mais comum com o passar dos anos, principalmente diante da escassez de homens de garrafão confiáveis das gerações seguintes. Na reta final da carreira, seria cômodo que alguém tão vencedor e que fez parte da maior conquista da história do basquete do seu país desse uma segurada na onda, entendendo que não havia muito o que fazer em situações de grande desvantagem do ponto de vista físico e se contentando com a ideia de que a seleção iria sofrer mesmo dentro do garrafão. Mas não foi o que aconteceu. Até o último segundo, Nocioni preferiu agir como se fosse um moleque doido para provar o seu valor dentro de quadra ao invés de deitar em cima dos louros do passado. Foi um processo espetacular de se acompanhar. Sorte de quem o viu.

Na mensagem que publicou para anunciar a decisão de se aposentar ao final da temporada, há um trecho que resume muito bem toda essa história: “Cansei de discutir com os árbitros por decisões que nunca saberemos se foram erradas. Não quero que marquem mais faltas técnicas minhas. Também não quero pagar academia ou jantares da equipe com as minhas multas. Devo progredir. Meditei o suficiente. Basta de brigar com rivais. Basta de noite sem dormir por vitórias ou angústia por derrotas que são como punhais. Acabou. Pretendo melhorar as minhas condutas e meus hábitos. E como tenho claro que nunca poderei mudar meu temperamento, decido me aposentar.”

Uma mudança drástica de comportamento não faria sentido mesmo. Foi justamente por agir feito um louco o tempo todo, sempre faminto por basquete, que Nocioni acabou construindo uma carreira recheada de vitórias e se tornando um jogador sempre muito interessante de se ver jogar.

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