O que mais chamou a atenção em “The Last Dance” – Episódios 1 e 2

Luís Araújo

Depois de uma longa espera, finalmente os fãs de NBA (e de boas histórias) podem começar a acompanhar “The Last Dance”, documentário sobre a última temporada de Michael Jordan no Chicago Bulls. São dez episódios no total. Os dois primeiros já estão no ar na Netflix, e a cada semana dois novos serão disponibilizados por lá.

O Triple-Double vai acompanhar de perto isso tudo e repercutir por aqui os principais pontos de cada par de episódios que forem lançados.


Pippen insatisfeito

O segundo episódio começa mostrando logo de cara o quanto Scottie Pippen se sentia desvalorizado àquela altura. Ele havia assinado em 1991 um contrato de sete anos de duração que não demorou muito para parecer barato demais. Enquanto os jogadores passaram a ganhar mais com o decorrer dos anos, ele se via completamente preso naquele acordo. Por melhor que ele jogasse, não tinha o que fazer. Jerry Reinsdorf, proprietário do Bulls, contou que até chegou a alertar o jogador sobre o risco de desvalorização que havia ao se assinar um contrato tão longo, mas que não iria se abrir para nenhum tipo de renegociação depois que o acordo fosse selado.

A volta no tempo para contar um pouco da infância e da situação familiar de Pippen ajuda a explicar um pouco os motivos que o levaram a aceitar aquela oferta em 1991. Mas além de encontrar portas fechadas para uma renegociação de contrato nos anos seguintes, ele passou a ver seu nome envolvido em uma série de rumores de troca durante o segundo tricampeonato do Bulls.

A irritação tomou conta de Pippen, que passou a xingar o gerente-geral Jerry Krause na frente dos companheiros e decidiu fazer a cirurgia no pé no início da temporada 1997/98, ao invés de sacrificar as férias para se recuperar do procedimento.

E aí, no primeiro jogo que o Bulls fez em Chicago naquele campeonato, durante a cerimônia de entrega dos anéis de campeão da temporada anterior, ele pegou o microfone e falou em tom de despedida com o público: “Obrigado pelos momentos maravilhosos que os torcedores desta cidade demonstraram por mim e pelos meus companheiros por dez longas temporadas. Eu tive uma carreira maravilhosa aqui, e se não tiver mais a oportunidade de dizer isso, obrigado.”

A situação chegou a ficar bem pior. Depois de mostrar o quanto as coisas estavam complicadas para o Bulls dentro de quadra nas primeiras semanas da temporada 1997/98, o episódio termina lembrando que Pippen exigiu ser trocado porque se recusava a voltar a jogar em Chicago.

O desenrolar desta história ficou para os próximos capítulos. A gente já sabe que Pippen acabou cedendo um pouco e voltou para ajudar Jordan a levar o time ao sexto título ao final daquela temporada. Vai ser interessante acompanhar os detalhes de como isso acabou acontecendo. Mas diante da lembrança de tamanha turbulência, chega a ser tão surpreendente quanto incrível que Pippen tenha terminado a temporada 1997/98 em Chicago. E como campeão.


O pior e o melhor de Krause

Jerry Krause parece ser o vilão do seriado. Infelizmente o ex-gerente geral do Bulls já morreu e não pôde dar sua versão dos fatos. Mas é importante que o seriado tenha se preocupado em mostrar o quão importante ele foi para que aquele time multi campeão fosse construído — ainda que isso possa passar batido por muita gente que assista.

Muito se fala — com razão — sobre toda a abordagem problemática dele em cima de um elenco que estava vencendo. Em um determinado momento, o documentário recupera uma entrevista coletiva que Jordan deu logo após a conquista do quinto título. Ali, ele não fez rodeio nenhum para esconder a insatisfação em ver a administração da franquia pensando em reconstrução enquanto ele e seus companheiros estavam acumulando títulos. Aí o raciocínio foi encerrado com a seguinte declaração: “Do ponto de vista empresarial, respeite as pessoas responsáveis pela base do que é uma organização lucrativa.”

Se a ideia do documentário é mostrar os bastidores da temporada 1997/98, fornecendo detalhes de como as relações entre os envolvidos naquela equipe foram complicadas e como, apesar disso tudo, o título foi alcançado, então não tem como deixar as trapalhadas de Krause longe dos holofotes. Ele não soube lidar com a frustração de Pippen, avisou Phil Jackson que ele não continuaria nem se fosse campeão invicto, irritou Jordan no meio deste processo e, depois disso tudo, ainda comandou uma reconstrução em Chicago que passou longe de funcionar.

Por outro lado, se o documentário também tem como premissa contar a história de um time épico para um público mais jovem que não teve a oportunidade de acompanhar em tempo real, então também se faz necessário dar crédito a Krause.

Há dois momentos no segundo episódio que cumprem esse papel. Um deles foi quando o ex-dirigente apareceu em um vídeo antigo contando o quanto se encantou por Pippen assim que o viu atuar por Central Arkansas. Ele não só soube reconhecer um talento grande como depois fez de tudo para arquitetar uma troca no dia do Draft para ter a certeza de que conseguiria fisga-lo. Além disso, teve o depoimento de Jerry Reinsdorf dizendo que foi Krause quem decidiu dar o cargo de técnico para Jackson.

A história da NBA já cansou de mostrar o quanto ter grandes astros no elenco não é garantia de título para ninguém. Então é claro que o sucesso do Bulls nos anos 1990 passa por Krause. Ninguém é seis vezes campeão e entra no Hall da Fama do basquete à toa.


“Circuito ambulante de cocaína”

Um dos pontos mais reveladores deste início de série aconteceu quando Jordan foi perguntado sobre uma matéria publicada certa vez em um jornal intitulada: “Circuito ambulante de cocaína no Bulls”. Ele riu e respondeu que nunca tinha lido aquela matéria especificamente, mas também não desmentiu. Pelo contrário: deu mais detalhes. Disse que teve uma vez, durante a pré-temporada do seu ano de calouro, em que andou pelo hotel batendo de porta em porta procurando seus companheiros. Até que os encontrou reunidos em um quarto e se surpreendeu.

“Entrei e vi praticamente o time inteiro lá. Vi coisas que eu nunca tinha visto na vida enquanto rapaz. Tinha fileiras de cocaína aqui, gente fumando maconha ali, mulheres acolá. A primeira coisa que disse ali foi: ‘Estou fora’. Porque tudo em que pensava era que se a polícia aparecesse ali na hora, eu seria tão culpado quanto eles. A partir dali, eu segui meu caminho mais ou menos sozinho”, relatou Jordan.

Esse nível de maturidade em meio a um monte de gente mais velha por parte de alguém que tinha acabado de virar profissional diz bastante sobre Jordan e sobre todas as coisas que ele veio a construir ao longo da carreira. E antes que alguém pudesse levantar qualquer tipo de questão sobre a veracidade do comportamento dele diante daquele cenário de drogas, Rod Higgins, um dos companheiros dele de Bulls em 1984, apareceu para confirmar que o negócio de Jordan era suco ou refrigerante.

É importante refletir também que isso não é uma questão sobre tentar fazer Jordan parecer bonzinho demais. Antes mesmo do lançamento destes dois primeiros episódios, ele próprio já admitira ter a sensação de que as pessoas vão gostar menos dele depois que assistirem tudo. Os documentários realmente bons são aqueles que buscam ressaltar os pontos positivos dos seus personagens sem deixar as falhas de lado, preocupando-se muito mais em humanizá-los do que em fazê-los parecer perfeitos.

Pelo o que se viu nestes dois primeiros episódios e pelo o que se ouviu antes, “The Last Dance” parece ter essa premissa. Ao que tudo indica, Jordan terá o vício em apostas, as dificuldades em lidar com os colegas e alguns outros defeitos bem relatados ao longo da série. Não há motivos para duvidar da reação dele quando se deparou com o “circuito ambulante de cocaína no Bulls”. Nem para vê-lo como um ser humano iluminado só por causa disso.


Ginásio vazio

Uma das voltas no tempo trata de mostrar o quanto o Bulls tinha pouco apelo com a população de Chicago no início dos anos 1980, antes de Jordan ser draftado. Várias imagens recuperadas da época mostram um monte de cadeiras vazias no Chicago Stadium — então ginásio da equipe, demolido em 1995.

As fontes ouvidas pelo documentário relatam que todos os outros times da cidade em outras ligas esportivas eram mais populares que o Bulls. Os números bancam tais declarações: a média de público da equipe dentro de casa na temporada 1983-84, a última antes da chegada de Michael Jordan, foi de 6.365 torcedores por jogo. Algo que representa pouco mais de um terço da capacidade máxima do velho Chicago Stadium, estimada em 18.676 pessoas.

É sabido que o Bulls nem sempre foi esteve tão mal quanto nestes anos que precederam a chegada de Jordan. As participações em playoffs eram frequentes na década de 1970, sendo que duas delas alcançaram as finais de conferência. Ainda assim, as maiores médias de público até então haviam sido nas temporadas 1976/77 (11.625 torcedores por partida) e 1977/78 (13.386).

E por que o ginásio vazio mostrado no documentário, bem como esses números todos, são interessantes? Pelo impacto enorme que Jordan teve nesta situação. Logo em sua primeira temporada, a média de público do Bulls como mandante subiu para 11.887 torcedores por jogo. No terceiro ano dele, que foi também quando Pippen chegou, esse número alcançou a casa de 16.000. E no ano seguinte bateu em 18.000, perto do máximo.

Aí o Bulls se tornou um time multi campeão, e Jordan virou uma das pessoas mais populares do planeta. Qualquer ginásio, seja em Chicago ou em qualquer outro lugar, se enchia com facilidade para vê-lo jogar. Normal até aí. Mas o negócio fica espantoso quando se olha para o que aconteceu depois que o time campeão em 1998 se desfez. O Bulls teve campanhas pífias nas três temporadas seguintes, somando apenas 45 vitórias em 214 jogos. Mesmo assim, o United Center (que passou a ser o ginásio da equipe a partir de 1994) jamais deixou de ter lotação máxima quando recebeu uma partida.

Nas 20 temporadas seguintes ao título de 1998, a média de público do Bulls em jogos em casa só ficou abaixo dos 90% da ocupação máxima do United Center uma única vez: em 2001/02, quando esse índice foi de 87,2%. É claro que o nível de entretenimento em cada um dos ginásios da NBA melhorou absurdamente dos anos 1980 para cá, não se vê mais tanta cadeira vazia com frequência por aí. Mas é impossível não pensar na participação de Jordan e companhia nesta assiduidade de torcedores no United Center mesmo em anos de tantas derrotas.


Jordan anti “tank”

Uma das voltas no tempo do segundo episódio é para contar o processo de recuperação de Jordan de uma fratura no pé, que o afastou da maior parte de sua segunda temporada como profissional. Em determinado momento, Jordan queria voltar a jogar de qualquer jeito. Dizia que não aguentava mais estar longe e que se sentia forte o bastante para isso. O recado médico era claro: havia 90% de chance de que a lesão jamais voltaria a incomodá-lo, só que a carreira não sobreviveria se ele desse o azar de cair nos 10% restantes.

Para Jerry Reinsdorf, tratava-se de uma questão de negócios bastante lógica. Ainda que o risco de tragédia fosse de apenas 10%, não valia a pena corrê-lo. Ele próprio aparece no documentário dizendo: “Para mim, Jordan não deveria arriscar a volta, pois não seríamos campeões mesmo.”

De fato, não dá para deixar de dar razão ao raciocínio dele. Por toda a mudança de status que Jordan representava para a franquia, algo já muito bem relatado nestes dois primeiros episódios, a abordagem conservadora sobre o problema se justificava. Seria mais prudente mesmo colocá-lo de volta em quadra quando fosse 100% seguro. Para o próprio Jordan isso faria sentido. Afinal de contas, vale lembrar que ele ainda estava no segundo ano de NBA, muito longe dos contratos extremamente lucrativos que assinou dentro e fora de quadra ao longo dos anos seguintes.

Jordan não queria ceder, estava disposto a encarar o cenário. No fim das contas, ele voltou para o restante de temporada jogando com limite de minutos, conseguiu liderar o Bulls aos playoffs e então foi para a série contra o Boston Celtics sem restrição nenhuma, o que foi ótimo por proporcionar a atuação de 63 pontos no Jogo 2 que fez Larry Bird dizer que era “Deus disfarçado de Michael Jordan”.

Mas o que o episódio conta também é que havia na época um outro tipo de dúvida. Até que ponto a preocupação de Reinsdorf não levava em consideração a possibilidade de o Bulls acumular derrotas para melhorar a posição na loteria do Draft?

Em um trecho de uma entrevista recuperada de 1986, uma repórter aparece perguntando a Jordan se ele acredita mesmo que o “tank” era a motivação por trás daquela tentativa de convencê-lo a não voltar às quadras naquela temporada. A resposta foi a seguinte: “Tomara que não. Isso mostra uma atitude derrotista, não só do time, mas da organização como um todo. A gente sempre deve tentar buscar a vitória.”

Nunca vamos saber ao certo se a gerência do Bulls não estava mesmo seduzida pela ideia de melhorar a posição da franquia no Draft daquele ano. Mas a declaração de Jordan naquela entrevista desperta uma reflexão importante sobre a maneira como o “tank” pode representar um caminho traiçoeiro para as franquias.

Na condição de estrela em ascensão em 1986, Jordan disse que aquilo era seria uma atitude derrotista da organização. Chegar o mais perto possível da primeira escolha de um Draft pode parecer uma boa — e até lógica — ideia em temporadas nas quais o título é uma realidade incrivelmente distante. Mas que tipo de efeito isso terá na cultura que a franquia pretende construir? Essa é uma questão que também deve ser considerada, especialmente quando se tem um jovem faminto por vitórias a bordo.

Aquela busca pela oitava vaga nos playoffs, ainda que isso venha sob o risco de uma varrida diante de um oponente muito mais forte, pode não parecer uma coisa lógica na hora. Mas é importante, sim, para não deixar a atmosfera derrotista tomar conta do lugar, frustrando jovens ambiciosos ou deixar de desenvolver neles a fome pelas vitórias.

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