O que mais chamou a atenção em “The Last Dance” – Episódios 3 e 4

Luís Araújo

Mais dois episódios de “The Last Dance” foram disponibilizados na Netflix. O Triple-Double segue acompanhando o documentário e repercute por aqui os principais pontos deste par de novos capítulos.

Para ver os textos sobre os episódios 1 e 2, clique aqui.


O ESTUDIOSO RODMAN

Dennis Rodman é um personagem muito forte neste par de capítulos. As dificuldades na infância, o quase suicídio, a viagem a Las Vegas com a temporada em andamento e diversos outros episódios que ajudaram a formar uma personalidade tão excêntrica são devidamente contados. Tudo com o cuidado de não ofuscar o gênio que ele foi dentro das quadras — ainda bem!

Mesmo quem não teve a oportunidade de vê-lo jogar deve saber da sua reputação dentro das quadras: um ótimo defensor e um dos melhores reboteiros em todos os tempos. Para uma legião de gente que começou a se encantar por basquete até o final dos anos 1990, Rodman era quase sinônimo de rebote. Fica fácil entender isso quando se olha para os números: da temporada 1990/91 para frente, a média de rebotes por jogo dele foi sempre superior a 11 por partida. Em sete anos consecutivos, liderou a liga neste fundamento.

É sempre bom lembrar que seus 2,01m não faziam de Rodman nenhum gigante frente a outros homens de garrafão da NBA. Como compreender então tanta facilidade para pegar rebotes como nenhum outro jogador do seu tempo? A resposta passa por tempo de bola e posicionamento, mas não é só isso. A história contada por ele no documentário é fascinante por ser inusitada e por mostrar o tamanho do comprometimento com o jogo.

“Ficava até tarde com amigos no ginásio, por volta de umas 3h ou 4h da manhã, e falava para eles arremessarem. Eu pedia para eles chutarem dali, de lá, de um outro canto, enquanto eu ficava só reagindo. Treinei muito o ângulo da bola e a trajetória dela”, contou Rodman.

“Nos chutes do Larry Bird, sabia que a bola ia girar. Nos do Magic Johnson, talvez girasse. Quando Michael Jordan chutava daqui, eu ficava bem ali. Se a bola batesse no aro, eu sabia onde pegar”, continuou Rodman. Em seguida, ele passou a gesticular para onde as bolas costumavam ir depois que batessem no aro, em função da posição em que os arremessos fossem dados.

Genial. Maravilhoso.

“Dennis foi um dos jogadores mais inteligentes com quem joguei. Ele entendia a estratégia defensiva e todas as rotações. Não havia limites para o que ele fazia”, disse Jordan em determinado momento do documentário. “Ele estudava os adversários, sabia dos pontos fortes e fracos de todos”, declarou Jud Buechler.

Antes que qualquer desavisado pudesse olhar apenas para o lado festeiro de Rodman e pudesse tirar conclusões precipitadas sobre seu profissionalismo, esse tipo de história e essas declarações de quem trabalhou ao lado dele são importantes para se fazer justiça.


A VIAGEM A LAS VEGAS

A história destas “férias” de Dennis Rodman no meio da temporada 1997/98 já havia aparecido no livro “Onze Anéis”, de Phil Jackson. Agora, em “The Last Dance”, ela ganha mais detalhes, com direito a depoimentos da atriz Carmen Electra, namorada do ex-jogador na época e que estava ao lado dele naquela viagem.

Tanto que ela se lembra muito bem do momento em que Jordan foi atrás de Rodman no hotel em Las Vegas. “Tinha alguém batendo na porta. Era ele. E eu me escondi. Eu não queria ser vista daquele jeito, então fui para trás do sofá, coloquei umas cobertas em cima de mim. E ele disse ao Dennis: ‘Vamos, precisamos voltar para treinar'”, lembrou a atriz.

Pouco antes do depoimento dela, Jordan apareceu contando como havia sido a conversa em que foram combinados os termos da viagem de Rodman a Las Vegas. É claro que a ideia foi recebida com estranheza e até descontentamento em um primeiro momento. Depois, com a participação decisiva do treinador na negociação, chegou-se a um acordo de que rolaria uma liberação por 48 horas.

Mas Jordan disse ter alertado Jackson que Rodman não voltaria em 48 horas de jeito nenhum. E foi o que aconteceu. Por isso ele decidiu pegar um avião, caçar o companheiro e levá-lo de volta para a equipe.

“Dennis tinha essa necessidade de fugir às vezes. Ele gostava de sair, ir a bons restaurantes, depois ia festejar em casas noturnas, depois inventava mais alguma coisa. Simplesmente não parava”, disse Electra, em um tom aparentemente compreensível com a personalidade de Rodman. O mesmo parece ter acontecido com Jordan. Apesar de ter ido atrás do colega e de um inevitável descontentamento com a situação, não o xingou.

E ao que tudo indica, esse clima de compreensão incluía todo o elenco do Bulls. “Todos sabíamos do impacto de Dennis no grupo e entendíamos que ele tinha certas necessidades diferentes em sua vida pessoal que nós não tínhamos”, relatou Steve Kerr em um determinado momento.

Não há dúvidas de que Rodman foi uma peça importantíssima para o Bulls se fortalecer e conquistar seu segundo tricampeonato. Scottie Pippen mesmo declarou que o ex-companheiro se encaixou no time “como uma mão em uma luva”. Mas parece que o ambiente de trabalho e as pessoas ao seu redor em Chicago naquela época também eram tudo o que Rodman precisava, depois de um triste fim de trajetória em Detroit e uma passagem ruim por San Antonio.


JORDAN RULES

Depois que o Bulls abriu 2 a 1 nas finais da Conferência Leste de 1989, os jogadores do Pistons se reuniram e traçaram uma série de estratégias para tentar conter o impacto de Jordan. “Quando ele estava no ar, não tinha o que fazer. Mas quando estava no chão, dava para segurá-lo”, contou Isiah Thomas. Nasceram aí as “Jordan Rules”.

Passados mais de 30 anos, essas tais regras nem são mais um segredo tão grande assim. De qualquer maneira, era importante que um documentário tão profundo sobre Jordan e o Bulls as explicasse mais uma vez. Ainda mais por ter agora uma grande parte de novos fãs de basquete que podem não conhecer a história tão bem. Brendan Malone, um dos assistentes na comissão técnica do Pistons naquela época, ficou encarregado disso.

“Número um: nas laterais, nós o pressionávamos até o cotovelo, sem deixar que ele cortasse pelo fundo. Número dois: se ele estivesse de frente para a cesta, nós o levávamos para o lado esquerdo dele. Se ele estivesse no ‘post-up’, a gente dobrava a marcação vindo por cima”, explicou Malone.

Fica claro que não se trata só de porrada em cima do melhor jogador do outro time. Não era um negócio totalmente baseado na intimidação física. O que não significa, porém, que esse componente não fazia parte da estratégia.

Ao ser questionado sobre o que deveria ser feito quando Jordan conseguisse entrar no garrafão, Malone respondeu: “Rra quando Laimbeer e Mahorn o derrubavam no chão.”


TRIÂNGULO

Jordan fala até hoje com muito carinho de Doug Collins, último técnico do Bulls antes de Phil Jackson. Disse no documentário que adorou trabalhar com ele, principalmente pela liberdade que tinha dentro de quadra de fazer o que bem entendesse. Collins também aparece contando como demorou muito pouco tempo para entender que Jordan era um jogador diferente de tudo o que havia visto até então.

Ainda assim, Jerry Krause chegou à decisão de que demitir Collins ao final daquela temporada era a melhor coisa a se fazer. O motivo por trás disso era o entendimento de que Phil Jackson conseguiria desenvolver de maneira mais eficiente as peças ao redor de Jordan, tornando o time mais forte coletivamente, um pouco menos dependente da sua principal estrela.

É uma situação que permite mais um justo reconhecimento a Krause. O então general manager da franquia merece cada uma das críticas que recebe por como conduziu o fim da dinastia. Trapalhadas não faltaram, realmente. Mas não é difícil também enxergar como algumas decisões tomadas por ele muitos anos antes foram determinantes para a construção desta equipe multi campeã. Quantas pessoas no lugar dele não teriam simplesmente mantido Collins no cargo, apostando que a evolução demonstrada até ali seria o bastante para se chegar um dia ao título?

Krause parece especialmente mais corajoso diante de uma confissão de Jordan no documentário: a de que não era um fã de Jackson quando ele assumiu o cargo de treinador. “Ele estava chegando para tirar a bola das minhas mãos, enquanto Collins era um técnico que colocava a bola nas minhas mãos”, afirmou.

Essa mudança passava pela implementação do famoso “triângulo” no ataque. O sistema havia sido desenvolvido por Tex Winter, que fazia parte da comissão técnica do Bulls e quem Krause considerava uma das mentes mais geniais da história do basquete. Durante os anos em que também compôs a equipe de auxiliares, Jackson se aproximou bastante de Winter e se encantou pelo método. A disposição em colocá-lo em prática na equipe, justamente por acreditar que teria um impacto positivo nas peças de apoio do elenco, pesou bastante para sua efetivação como técnico.

Muito se discute hoje em dia se o triângulo ainda tem espaço na NBA ou se virou uma coisa ultrapassada. Essa é um outro papo, que pode ficar para uma outra hora (spoiler: o maravilhoso sistema ofensivo do Golden State Warriors, tão eficiente e encantador, usa com frequência partes do triângulo). Mas é inegável que esse método criado por Winter, adorado por Krause e colocado em prática por Jackson teve enorme êxito dentro do que se propunha a fazer. De fato, o Bulls passou a contar com mais gente confiável dentro do elenco e tornou-se um time mais difícil de ser marcado.

Pippen, por exemplo, afirmou que essa mudança de filosofia ofensiva o liberava para levar a bola e atuar mais como um armador, coisa que sempre tinha sido na adolescência até crescer demais. “O triângulo me permitiu ser mais o que eu gostaria de ser”, disse.


EHLO “FOI UM ERRO”

Playoffs de 1989, primeira rodada, quinto e decisivo jogo, último lance. Michael Jordan recebeu o passe depois de uma cobrança de lateral, bateu a bola até uma posição de frente para a cesta, subiu para o arremesso e fez a cesta na cara de Craig Ehlo, fazendo com que o Chicago Bulls eliminasse o Cleveland Cavaliers na casa do rival.

Foi a primeira grande amostra do quanto Jordan era capaz de brilhar em momentos decisivos, algo que passou a ser visto com frequência nos anos seguintes. O lance é mostrado no documentário no caminho para chegar na rivalidade entre Bulls e Pistons. Uma coisa interessante de se notar é que momentos antes desta cesta de Jordan, o Cavs havia passado à frente no placar graças a uma bandeja de… Craig Ehlo.

Não deve ter sido fácil para ele ir do céu ao inferno em tão pouco tempo. Olhando com um pouco mais de atenção, dá para reparar que enquanto Jordan comemora a bola certeira, Ehlo desaba no chão em lamentação.

Também é interessante saber que Jordan teria tomado uma outra decisão ali se fosse técnico do Cleveland Cavaliers. “Puseram Ehlo para me marcar, o que sinceramente acho que foi um erro. Porque o jogador deles que sabia me marcar melhor era o Ron Harper”, disse ele no documentário, referindo-se ao companheiro de segundo tricampeonato em Chicago que na época defendia o Cavs.

O próprio Harper apareceu dizendo que pensou a mesma coisa. “Falei para nosso treinador que eu ia pegar o MJ. Disse para deixar comigo. Mas ele me respondeu que o Craig Ehlo era quem iria marcar o Jordan ali. Eu concordei, mas sabia que ia dar merda”, contou.

Difícil imaginar como teria sido o desfecho daquela partida se fosse Harper o defensor ali. O fato é que aquela cesta começou a mudar as trajetórias dos dois lados envolvidos. Para o Bulls, foi uma espécie de anúncio de que coisas especiais poderiam estar próximas. O próprio Jordan afirmou no documentário que ele e os companheiros passaram a sentir que o céu era o limite após aquilo. Para o Cavs, aquela derrota foi um grande marco de lamentação, de como as coisas poderiam ter sido diferentes para um time que sonhava chegar mais alto do que chegou na época.

Não foi fácil também para Craig Ehlo, que se viu eternizado naquela jogada como um alvo de Jordan. Mas, ao que parece, ele soube encontrar uma maneira de conviver bem com isso. “Para falar a verdade, no começo foi uma sensação ruim. Mas aí passei a ver como um lance icônico para Jordan e seu legado. E eu estou incluído nisso. Então não vou reclamar. É uma boa pessoa para se estar associado”, declarou Ehlo em uma entrevista à ESPN em 2019.


POR QUE PIPPEN VOLTOU ATRÁS?

O segundo episódio havia terminado com um gancho: o desejo de Pippen de ser trocado, algo que havia se tornado público em dezembro de 1997. Como bem sabemos, isso acabou não acontecendo — pelo menos não antes do término daquele campeonato. Então, o que o levou a mudar de ideia e voltar a atuar pela equipe?

A resposta foi dada por ele mesmo em um determinado momento do terceiro episódio, depois de algumas idas e voltas ao passado para abordar a personalidade de Rodman e a rivalidade do Bulls com o Pistons: “Eu sabia que tudo se resumiria a uma guerra entre mim e a organização, e eu sairia perdendo porque eles provavelmente passariam a me multar. E eu não iria deixar que eles se dessem bem desta maneira.”

Simples assim. O retorno de Pippen ao Bulls aconteceu no dia 10 de janeiro de 1998, em uma vitória sobre o Golden State Warriors por 87 a 82. Em 31 minutos, teve 12 pontos, cinco assistências e quatro rebotes.

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