O que mais chamou a atenção em “The Last Dance” – Episódios 5 e 6

Luís Araújo

Mais dois episódios de “The Last Dance” foram disponibilizados na Netflix. O Triple-Double segue acompanhando o documentário e repercute por aqui os principais pontos deste par de novos capítulos.

Para ver os textos sobre os episódios anteriores, é só clicar nos links: 1 e 23 e 4.


KOBE E O ASG DE 98

Antes de o quinto episódio começar, aparece na tela a mensagem “à memória de Kobe Bryant, com amor”. De certa maneira, ainda é difícil assimilar que ele não está mais aqui entre nós. Mas é óbvio que esse tipo de lembrança singela precisava constar na primeira vez que ele aparece no documentário. Seria estranho se não aparecesse.

O simples fato de haver um depoimento de Kobe no meio disso tem um valor enorme. Nos últimos dias, saíram notícias sobre como a produção do documentário teve de correr contra o tempo para antecipar o lançamento. John Stockton, por exemplo, foi entrevistado horas antes de a NBA anunciar a pausa em função do coronavírus. Tudo bem que isso aconteceu só porque Stockton não queria participar e acabou mudando de ideia logo depois. Ainda assim, é possível olhar com um certo alívio para o fato de ter dado tempo de Kobe aparecer.

A participação dele neste quinto episódio não é lá muito longa, mas é marcante. Primeiro porque as imagens do vestiário do time do Leste no All-Star Game de 1998 mostram os jogadores comentando sobre ele, que na época tinha pouco mais de 19 anos. Eram declarações que sugeriam que o então “garoto do Lakers” ia procurar o jogo e desafiar quem aparecesse pela frente. O tom usado para isso não deu pinta de deboche. Pareceu muito mais inclinado a um tipo de respeito à postura de alguém tão jovem no meio de vários craques mais velhos.

Aquela expectativa toda se confirmou. Jordan acabou sendo o MVP, somando 23 pontos, oito assistências, seis rebotes e três roubos de bola nquela partida para comandar a vitória do Leste. Mas Kobe também teve muitos momentos de brilho. Anotou 18 pontos pelo Oeste e mostrou muita personalidade com a bola nas mãos, como se já fizesse parte daquele universo de estrelas havia anos. E tem gente que jura que até hoje que foi ele o melhor jogador daquela partida, não Jordan.

Depois veio um depoimento bastante interessante, ajudando a fazer com que essa breve passagem de Kobe por “The Last Dance” — pelo menos até agora — se tornasse ainda mais marcante. Ele começou falando sobre como era estar dentro de quadra contra um sujeito que ele cresceu acompanhando jogos pela TV. Em seguida, revelou como o ídolo se tornou uma figura tão próxima.

“Minha entrada na liga foi complicada, pois a galera era mais velha. Não era jovem como é agora. Ninguém queria me passar a bola direito. Eu era um moleque que dava alguns air-balls. Naquela época, Michael foi um mentor para mim. Tinha uma dúvida sobre como ele dava aquele arremesso virando o corpo, então fui lá perguntar. Ele me deu uma resposta ótima, detalhada, e ainda me disse para ligar se precisasse de qualquer coisa. Tipo um irmão mais velho”, contou.

E em seguida ele completou demonstrando toda a gratidão pela postura de mentor que Jordan adotou com ele. “Eu realmente odeio essas discussões sobre quem venceria uma disputa de um contra um. Já teve fã me dizendo que eu venceria Michael no um contra um. E o que penso é que tudo o que sei eu aprendi com ele. Eu não teria cinco títulos sem ele porque ele me orientou muito, me deu vários ótimos conselhos”, afirmou.


CLIMÃO COM KUKOC

Toni Kukoc foi escolhido pelo Bulls no começo da segunda rodada do Draft de 1990. Tinha 21 anos, era visto como uma grande promessa nos Estados Unidos, mas já era uma realidade na Europa. Ele próprio apareceu para contar que a guerra na Croácia e o bom salário que recebia por lá o fizeram adiar em uns anos a ida para a NBA. Portanto, quando a Olimpíada de 1992 chegou e o Dream Team apareceu no caminho dos croatas, ele ainda não havia tido contato nenhum com colegas em Chicago.

“Naquela época, eu não fazia ideia do que acontecia no Bulls. Não sabia das desavenças entre Pippen e Krause. Ou entre Jordan e Krause. Então fui para a Olimpíada pensando que estava tudo bem”, contou Kukoc. Ele não poderia estar mais errado. Jordan e Pippen colocaram um alvo na testa do então futuro colega de time e pareciam dispostos a provar que o croata não era bom o bastante para se juntar a eles na NBA.

O motivo por trás disso passa pelo gerente-geral do Bulls. Krause havia se encantado por Kukoc e o via como o futuro da franquia, ao ponto de viajar à Europa para vê-lo jogar e iniciar as negociações para levá-lo a Chicago. Tudo isso enquanto Pippen se mostrava abertamente insatisfeito com o salário que recebia no time. Há uma declaração recuperada de Charles Barkley durante a Olimpíada que ilustra bem essa atmosfera: “Pippen mostrou que se tem alguém que merece receber mais grana em Chicago, é melhor que seja ele”.

Jordan diz hoje admirar o companheiro que Kukoc virou dele em Chicago e que o ama como pessoa. Pippen apareceu no documentário falando sobre como aquele tratamento não era nada pessoal contra o croata, e sim uma maneira de queimar o filme de Krause. Antes disso, ele já havia dito que não se conforma com a ausência de Kukoc no Hall da Fama do basquete.

Parece que a animosidade realmente se perdeu com o tempo. Kukoc acabou fazendo parte do segundo tricampeonato do Bulls e foi peça importante naquele elenco. Em 1996, ganhou o prêmio de melhor reserva da NBA. Nos dois anos seguintes, viu-se entre os titulares algumas vezes mais — incluindo em finais. Steve Kerr, outro membro daquele elenco, declarou antes da estreia de “Last Dance” que tinha a esperança de ver o croata sendo devidamente reconhecido como um grande jogador.

Tudo isso diz muito sobre Kukoc. Não dá para imaginar o quão traumático foi o tratamento de choque que recebeu em 1992 de companheiros que nunca havia visto antes. Construir uma trajetória sólida na NBA depois de ter passado por aquilo não é para qualquer um.


RIVALIDADE COM ISIAH THOMAS

Não é a primeira vez que isso apareceu no documentário. As diferenças entre Jordan e Thomas já tinham sido bem exploradas quando se voltou no tempo para contar o que foram as Jordan Rules, a história dos “bad boys” e tudo mais o que cercou aqueles embates em playoffs entre Chicago Bulls e Detroit Pistons no final da década de 1980. Mas o assunto acabou voltando por causa do Dream Team.

Como se sabe, a Olimpíada de 1992 foi a primeira em que se permitiu que jogadores da NBA pudessem disputar o torneio de basquete. A ideia dos EUA era levar o que tinha de melhor, mas Thomas acabou não sendo convocado. “Não sei como foi o processo. Eu atendia os requisitos para ser chamado, mas não fui”, disse.

Jordan depois apareceu falando que não foi o único culpado pela ausência do desafeto. Disse que o respeita como jogador e que o coloca atrás apenas de Magic Johnson em sua lista dos melhores armadores de todos os tempos. Mas também não fez muita questão de lamentar nada. Pelo contrário: afirmou que a presença do armador do Pistons atrapalharia o clima de harmonia que havia naquela seleção.

O Bruno Winckler, grande amigo da casa e torcedor do Bulls, falou uma coisa certa em seu Twitter: chama a atenção o fato de Thomas ter topado participar do documentário.

Pode-se amar ou odiar Isiah Thomas. Não tem como saber ao certo o que o motivou a se sentar e conversar com os produtores do documentário. O fato é que ele aceitou dar a sua colaboração para que uma grande história seja contada, algo que deve ser louvado.


COMPETITIVIDADE MÁXIMA

Nos dias que precederam as finais de 1992, Jordan admitiu que viu como uma ofensa quando passou a ver muita gente comparando Clyde Drexler a ele. “Com base em como eu estava jogando naquela época, não chegava nem perto”, disse.

Magic Johnson reforçou essa narrativa. “Na noite anterior ao Jogo 1, estava na casa dele jogando cartas. Aí ele me disse: ‘Sabe o que vai acontecer amanhã? Vou acabar com esse cara’. Então ele fez a primeira cesta de três. Aí veio a segunda, e depois a terceira. Michael não queria que ninguém o superasse em nada”, contou.

Essa faceta ultra competitiva de Jordan voltou a aparecer mais para frente no documentário, quando foi a vez de relembrar a trajetória do Bulls em 1993. Na final do Leste, contra o New York Knicks, ele se encheu de motivação para virar uma série em que seu time perdia por 2 a 0 depois de se irritar com as conversas sobre suas apostas fora das quadras. E na decisão contra o Phoenix Suns, queria deixar bem claro para o mundo que o fato de Charles Barkley ter sido o MVP da temporada era um erro.

Tem também a história sobre o treino do Dream Team em Barcelona. Magic contou que seu time estava ganhando do time de Jordan por oito pontos de diferença quando resolveu provocá-lo e se arrependeu: “Eu cheguei nele e disse que se ele não se transformasse em Air Jordan, nosso time iria destrui-lo. Por que eu fui falar aquilo?”

Aparentemente, o nível de competitividade fora das quadras era o mesmo. “Jogávamos baralho todas as noites. E se eu estava ganhando, ele queria continuar jogando por mais uma hora. E depois por mais uma hora. E aí ele não quer só te derrotar. Ele quer colocar o pé no seu pescoço e acabar com você”, lembrou Magic.

É curioso pensar nos dois lados disso. A capacidade de encontrar motivação para competir no nível mais alto foi determinante para que Jordan se estabelecesse como o maior de todos no basquete. Mas para quem estava ao redor, jogando cartas ou inventando qualqer outro tipo de passatempo, muitas vezes parecia ser difícil aguentá-lo.


JORDAN NÃO QUERIA A NIKE

Após relembrar o episódio em que Jordan usou um par antigo da sua própria linha de tênis naquela que seria sua última partida no Madison Square Garden, o documentário fez uma viagem no tempo para contar como essa história dos calçados dele começou. David Falk, agente dele, contou que o conheceu ainda nos tempos de Carolina do Norte, em 1984, e que passou a trabalhar com ele já naquele ano.

A empresa dele, a ProServ, já contava com alguns atletas conhecidos do esporte individual, principalmente do tênis. “Nossa estratégia era pegar um jogador de esporte coletivo e tratá-lo como um jogador de golfe, um tenista ou um boxeador”, disse. E o meio de colocar essa ideia em prática era fechar um contrato com alguma empresa que fizesse os tênis dele.

Falk lembrou que o primeiro contato foi com a Converse, que na época era fornecedora oficial da NBA. Mas o próprio Jordan apareceu para contar que ouviu da empresa que não seria possível colocá-lo à frente de outros grandes jogadores da liga em um projeto. Então era preciso recorrer a um Plano B. E Jordan foi taxativo: queria a Adidas. Nada de Nike, de jeito nenhum.

Não teve negócio com a Adidas também. Enquanto isso, a Nike se mostrava aberta. É importante colocar as coisas em contexto: a empresa na época não era tão expressiva quanto hoje em dia. Estava alguns degraus abaixo neste sentido e não tinha tanta ligação com o basquete. Falk até pontuou no documentário que queria que Jordan a escolhesse por entender que a Nike estava crescendo àquela altura, mas ele permanecia irredutível. Ao ponto de nem querer ouvir a proposta da empresa.

Isso só mudou porque Falk ligou para a mãe de Jordan, que depois o convenceu a pegar o avião e pelo menos ouvir o que tinham para oferecer. “Fui para aquele encontro sem vontade de estar lá. Mas ouvi uma ótima apresentação. E meu pai me falou que eu tinha de ser um bobo para não aceitar o que negócio que nos ofereceram”, lembrou Jordan.

Negócio fechado. E não demorou muito para se mostrar um acerto para os envolvidos. “A expectativa da Nike é que conseguisse alcançar os US$ 3 milhões em vendas ao final do quarto ano de acordo. Em um ano, vendemos US$ 126 milhões”, revelou Falk.


APOSTAS E (FALTA DE) POSICIONAMENTO

A propaganda do Gatorade com a música “Be Like Mike” veio para anunciar um mergulho mais profundo nas imperfeições de Jordan. O início do sexto episódio mostra um pouco mais sobre o quanto o dia a dia dele, quando olhado de perto, não era feito apenas de prazeres. A popularidade cobrava um preço alto, e isso acabou sendo discutido sob vários outros aspectos ao longo deste capítulo. Um deles abordou o gosto pelas apostas, a fuga para Atlantic City durante a final do Leste contra o New York Knicks em 1993 e as dívidas que surgiram a partir disso.

Mas a destruição da imagem de Jordan como um ser imaculado começou mesmo no episódio anterior, com a lembrança da disputa pelo Senado na Carolina do Norte, em 1990. De um lado, Jessie Helms, que se mostrava abertamente racista em seus discursos e em suas ideias de política pública. Do outro, Harvey Gantt, negro, que se colocava como um combatente das visões de mundo do seu adversário. Helms ganhou — e dá até para ver no documentário uma escolha de palavras revoltante no dia em que comemorou a vitória.

Jordan não se posicionou em favor de Gantt em momento nenhum. Ele se recusou a gravar um comercial para apoiar o candidato. Também revelou que a mãe havia pedido para que ele apoiasse Gantt, mas que não se sentiu à vontade e achou melhor se limitar a fazer doações para a campanha.

Um pouco mais adiante, Jordan falou algo que deu a entender o quanto realmente não queria adotar nenhum tipo de posicionamento. “Eu admiro Muhammad Ali por defender suas crenças, mas nunca me vi como ativista. Eu me via como jogador de basquete. Não era político. Eu jogava o meu esporte. Estava focado na minha arte. Isso é egoísta? Provavelmente. Mas essa era a minha energia. Era daí que ela vinha”, disse.

Antes da estreia do documentário, Jordan havia admitido que esperava ser menos admirado como pessoa no decorrer dos episódios. É de se imaginar que essa questão venha a ter grande peso neste sentido. Não é difícil imaginar que muita gente tenha se decepcionado com a postura dele enquanto cidadão, especialmente se for considerado o quanto se amplificaria a voz de alguém com tamanho alcance e popularidade ao redor do mundo.

Há até um outro ponto na trajetória de Jordan em Chicago que vai ao encontro disso tudo. Esse ponto atende pelo nome de Craig Hodges, um armador especialista em tiros de três pontos que fez parte do elenco do Bulls entre 1988 e 1992. Ao contrário de Jordan, Hodges sempre se colocou como um ativista na luta pelos direitos dos afro-americanos e já criticou abertamente — e várias vezes — o ex-companheiro pela falta de posicionamento.

“Eu imaginei que o Bulls fosse fazer história do jeito mais significante possível. Nós tínhamos um jogador no elenco que era mais popular no mundo do que o Papa. Se essa voz do Bulls falasse durante a época de ouro do basquete profissional, o mundo ouviria”, disse Hodges em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Há depoimentos no documentário que recriminam, sem rodeio nenhum, a postura de Jordan diante daquela eleição pelo Senado na Carolina do Norte em 1990. Barack Obama, primeiro presidente afro-americano dos Estados Unidos, também mostrou decepção, mas ofereceu um olhar um pouco mais acolhedor.

“Para alguém que na época se preparava para uma carreira na área de direitos civis e da vida pública, e sabendo o que Jesse Helms representava, seria melhor se Michael tivesse se posicionado. Por outro lado, ele ainda não havia decidido como administrar a imagem criada ao seu redor e como corresponder a ela”, disse Obama.

Em depoimento à revista Time, Gantt afirmou não ter nenhum tipo de mágoa de Jordan. Ele revelou que ninguém da sua campanha tentou entrar em contato com o jogador na época, admitiu não imaginar que o apoio dele teria mudado alguma coisa no resultado final e até procurou entender a decisão de evitar envolvimento.

“Ele ainda estava tentando construir uma marca”, declarou Gantt, lembrando-se que Jordan ainda nem havia conquistado seu primeiro título da NBA. “Meus apoioadores estam muito fortes e fervorosos. Você precisa querer fazer parte de uma campanha como essa. Tínhamos gente assim em todo o país. Eu me sentiria de um jeito horrível se sentisse que havia obrigado alguém a fazer algo que não queria fazer. Então sem ressentimentos”, concluiu.

Como se pode perceber, a discussão sobre a necessidade de se envolver em questões políticas pode ser observada de diversas maneiras e levar a conclusões distintas. Há motivos para se entender por que Jordan não quis se envolver nesta disputa pelo Senado relatada no episódio? Sim, tanto que Obama e o próprio Gantt oferecem uma espécie de compreensão.

Por outro lado, há vozes mais inconformadas a respeito, e é importantíssimo que elas tenham sido ouvidas pelo documentário. Isso nos mostra que, apesar de qualquer pesar, a ausência de posicionamento de Jordan não deixou de ser ofensivo para uma parcela das pessoas. E tem ainda a declaração dele nos dias atuais sobre se ver como atleta e não como um ativista, o que indica que provavelmente o mesmo caminho teria sido tomado se fosse possível voltar no tempo. O que fica bem claro é a reflexão de que a falta de posicionamento por si só já um posicionamento.


PÚBLICO RECORDE

Há um trecho da temporada 1997/98 que mostra o Bulls visitando o Atlanta Hawks já na reta final da fase de classificação. O curioso é que a partida aconteceu no Georgia Dome, casa do Atlanta Falcons, time da NFL.

É importante explicar que o estádio foi adaptado para receber jogos do Hawks entre os anos de 1997 e 1999, durante a construção de um novo ginásio. Então o local em si não foi um ponto fora da curva. Mas outros fatores contribuíram para que esse duelo tivesse um impacto grande na história da NBA.

Àquela altura, parecia improvável que Jordan retornaria a Chicago para o campeonato seguinte. Portanto, tinha tudo para ser a última partida dele em Atlanta. Aproveitando-se disso e do tanto de gente que ele costumava atrair em seus jogos por onde quer que passasse, o Hawks vendeu muitos ingressos. Inicialmente, o plano era disponibilizar 57 mil, o que já parece um absurdo para uma partida de basquete. Mas a procura foi tão grande que resolveram colocar ainda mais.

Resultado: no final das contas, aquele jogo teve um público de exatas 62.046 pessoas, um recorde na história da NBA que dura até os dias de hoje. O confronto terminou com vitória do Bulls por 89 a 74. Jordan teve 34 pontos, cinco rebotes e quatro assistências.

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