O que mais chamou a atenção em “The Last Dance” – Episódios 7 e 8

Luís Araújo

Mais dois episódios de “The Last Dance” foram disponibilizados na Netflix. O Triple-Double segue acompanhando o documentário e repercute por aqui os principais pontos deste par de novos capítulos.

Para ver os textos sobre os episódios anteriores, é só clicar nos links: 1 e 2, 3 e 4, 5 e 6.


Um colega complicado

Os episódios 7 e 8 se aprofundam um pouco mais nas relações de Michael Jordan com seus companheiros de time no dia a dia. Não era nada fácil. Os depoimentos de algumas das pessoas que tiveram a chance de jogar com ele em Chicago deixam isso claro.

“As pessoas tinham medo dele. A gente era companheiro de time do cara e sentia medo”, disse Jud Buechler.

“Ele era um idiota, ele cruzou a linha diversas vezes”, afirmou Will Perdue. “Mas com o passar do tempo, você pensa no que ele estava tentando alcançar e percebe que ele era um tremendo companheiro de time.”

“Ele nos cobrava o tempo todo para sermos melhores”, relatou Bill Wennington. “Ele só queria ganhar. E adivinha só? Funcionou.”

As imagens recuperadas de treinos daquela época ajudam a confirmar declarações do tipo. O próprio Jordan tratou de reforçar essa narrativa. Dizia acreditar que as pessoas em sua volta não aguentariam a pressão dos playoffs se não fosse capazes de lidar com esse tipo de intensidade que ele levava aos treinos.

Algumas histórias com ex-companheiros específicos ganharam um pouco mais de destaque dentro deste contexto no documentário. Como, por exemplo, a relação com Scott Burrell, ala que tinha acabado de chegar ao Bulls para aquela temporada 1997/98.

Depois de cenas que o mostravam desafiando e até ridicularizando Burrell em uma série de situações durante os treinos, Jordan apareceu dizendo que via o então companheiro como um jogador talentoso, mas que ainda precisava amadurecer em termos de concentração e comprometimento dentro de quadra.

Burrell levou numa boa. Jamais se irritou com esse tipo de coisa. Em entrevista recente ao jornal USA Today, afirmou que não via problema naquele tratamento, que não se sentia ofendido pelas palavras e que sabia, lá no fundo, que Jordan gostava dele.

“Eu tentei fazer com que ele brigasse comigo algumas vezes. Mas ele é um cara muito legal”, contou Jordan no documentário. Mas nem todo mundo encarava essa situação da mesma maneira que Burrell — e nem tinha por que ser assim, mesmo. Com Steve Kerr, o negócio foi diferente. Não teve toda essa tolerância, não.

Jordan contou que teve um dia em que Phil Jackson colocou Kerr para marcá-lo. Kerr disse que passou a ouvir todo tipo de provocação e que estava se irritando com aquilo. As coisas ficaram ainda mais tensas quando o treinador começou a repreender Jordan pelas faltas cometidas em Kerr.

“Eu passei a ficar irritado. Porque o Phil defende-lo desse jeito não iria nos ajudar quando fôssemos enfrentar o New York Knicks ou outros adversários mais duros fisicamente. Então falei que se fosse para marcar falta, eu ia fazer falta de verdade”, relatou Jordan.

Em seguida, houve um corte para que Kerr expressasse o que passou pela sua cabeça naquele momento. “Eu sou um ser humano muito paciente, mas tendo a explodir em algum ponto porque também sou extremamente competitivo. Geralmente não sou forte o bastante para bancar isso, mas eu vou para cima. Eu vou lutar”, disse ele.

Kerr de fato estourou e deu um soco no peito de Jordan. Que devolveu com um golpe no olho. Jackson imediatamente expulsou Jordan do treino, que se mostrou arrependido pouco depois por ter agredido um companheiro de time muito menor e mais fraco que ele. Então ele pediu o telefone de Kerr para que pudesse se desculpar o mais rápido possível.

No fim das contas, deu certo. Kerr disse que sentiu ter conquistado o respeito de Jordan depois daquilo e que a relação entre os dois mudou drasticamente depois daquilo. O Bulls conquistou aquele segundo tricampeonato e entrou para a história como protagonista de uma das dinastias mais marcantes já vistas. Mas é importante que se observe o quanto o processo para construção disso passa longe de qualquer ideia relacionada à perfeição.

Aliás, vale lembrar de Luc Longley no meio disso tudo. O pivô, primeiro australiano a ser campeão da NBA, não aparece em momento nenhum de “The Last Dance”. A versão oficial para justificar isso atribui a ausência ao limite de orçamento, alegando que ficaria caro demais ir à Austrália só para ouvir o depoimento de Longley e que o esforço não valeria tanto a pena, já que ele não era um personagem tão pesado assim para a história.

Faz sentido? Algum. Mas dá para suspeitar que isso tem a ver também com desavenças até hoje não superadas. Longley tem recusado pedidos de entrevistas sobre “The Last Dance” de todos os meios de comunicação que o procuraram nas últimas semanas. Bem antes disso, em seu livro “Running With the Bulls”, o ex-pivô já havia relatado como reprovava as sucessivas provocações de Jordan nos treinos. Disse que não caía na pilha, não perdia a paciência ao ponto de querer agredir o companheiro, mas que não olhava nos olhos dele no dia a dia.

É curioso como tudo isso mostra o quanto a convivência pode ser complicada. Jordan entendia que precisava fazer aquilo com todo mundo ao seu redor para se chegar ao título ao final de cada temporada. Havia gente que gostava. Havia quem não gostava, mas comprendia. Teve quem explodisse e partisse para cima. Teve quem segurou a onda, mas se encheu.

São personalidades tão diferentes precisando compartilhar o mesmo ambiente por um período longo, e encontrar uma maneira de se conciliar tudo isso é tão importante do que qualquer coisa incrível que Jordan fosse capaz de fazer dentro de quadra. É o tipo de coisa que não faz parte das análises rotineiras, até porque não temos acesso a todas essas informações sobre os vestiários de todas as equipes ao longo das temporadas, mas que exerce um papel gigantesco no resultado final.

Por melhor que ele fosse, ninguém era capaz de aguentar o comportamento de Jordan. Nem obrigado a levar aquilo numa boa sob qualquer circunstância. Sorte do Bulls que aquilo não implodiu o time antes do sexto título. Mas não foi nada bonito, as cicatrizes desse processo são visíveis até hoje e havia, claro, o risco de dar muito errado.


“Bom jogo, Mike”

A capacidade que Jordan tinha de transformar qualquer coisa em combustível para motivação já havia aparecido em outros momentos de “The Last Dance”. Mais história nesta linha aparecem nos episódios 7 e 8. Mas há uma em especial que consegue se destacar ainda mais por mostrá-lo indo longe demais.

Em 19 de março de 1993, o Bulls recebeu o Washington Bullets em Chicago. Ganhou por 104 a 99, mas o grande destaque individual daquele confronto foi LaBradford Smith. O ala-armador, que estava apenas em seu segundo ano como profissional e jamais terminou uma temporada com média de dois dígitos em pontos por jogo, anotou 37 naquela noite. Acabou sendo, de longe, um recorde pessoal. Do outro lado, Jordan fez 25 pontos, mas amassou o aro. Errou 18 dos 27 arremessos que tentou. Passou bem longe de impressionar.

No dia seguinte, os times se enfrentaram de novo. Desta vez, em Washington. O Bulls ganhou de novo, mas o resto das coisas foi bem diferente. Enquanto Smith teve desempenho discreto, Jordan saiu de quadra com 47 pontos, além de outo rebotes e quatro assistencias. No intervalo, já tinha feito 36 — só um a menos do que Smith havia anotado na partida anterior.

Jordan estava disposto a mostrar ao então jovem de Washington quem mandava ali. O motivo por trás de tanto gás para provar um ponto seria uma frase dita por Smith após o término do primeiro jogo. “Bom jogo, Mike”, ele teria dito.

Será que isso é de fato uma provocação? Existiu mesmo algum desrespeito nisso? Parece difícil. Tem muito mais cara de ser uma frase que um jovem falou apenas por falar em uma conversa rápida com o maior craque do basquete naquele momento. O fato de Jordan ter usado algo tão pequeno como combustível para atuar em nível tão alto na partida seguinte já é impressionante.

O problema é que essa frase nunca existiu. Jordan admitiu ter inventado aquilo. Só para ter um motivo a mais para se desafiar para o jogo seguinte. É impressionante — para o bem e para o mal — que isso tenha funcionado.


A lenda da suspensão

Três temporadas vitoriosas, mas desgastantes, raiva da imprensa por darem tanta atenção ao seu gosto por apostas e o assassinato do pai motivaram Jordan a anunciar aposentadoria em setembro de 1993. As imagens recuperados do dia em que isso aconteceu mostram uma declaração interessante dele em meio ao anúncio: “Se eu quiser voltar um dia, talvez seja o desafio que precise colocar para mim. Não vou fechar essa porta.”

Alguns segundos depois, veio um depoimento da jornalista Andrea Kramer, que trabalhou na ESPN entre 1989 e 2006. Ela falou sobre o quanto aquilo parecia além da compreensão para muita gente, o que acabou levantando uma teoria conspiratória que muita gente acredita até hoje. “Ninguém conseguia racionalizar como Jordan decidiu simplesmente deixar o basquete. Veja alguns eventos que tinham acabado de acontecer: o pai assassinado de forma trágica, um monte de questões sobre as apostas dele. Você começa a ligar os pontos e se pergunta se há uma relação. Se foi uma suspensão secreta.”

O fato de Jordan ter voltado um ano e meio depois serviu para que uma parcela das pessoas imaginasse que aquela aposentadoria, na verdade, era uma suspensão de 18 meses imposta por David Stern, então comissário da NBA. Muito tempo antes do documentário, ele já tinha comentado sobre esse assunto. Chegou a dizer que seria o segredo mais bem guardado de todos os tempos e que a história nem fazia tanto sentido assim — e não é difícil concordar com isso, convenhamos.

Em “The Last Dance”, Stern apareceu para reforçar essa posição antes de morrer. “É ridículo. Isso não tem o menor fundamento. Eu poderia bater na mesa e dizer que é uma calúnia, uma mentira difamatória. Só não é verdade. Nunca foi e nunca vai ser, não importa quantas vezes façam essa pergunta”, disse.

A lenda urbana já parece uma forçada de barra enorme de qualquer jeito. E parece ainda mais depois de uma revelação importante que consta no documentário: a de que Jordan já planejava abandonar o basquete para jogar baseball um ano antes. Só não o fez por um único motivo: queria tentar o tricampeonato, coisa que nem Magic Johnson nem Larry Bird haviam conseguido.


O triângulo sem Jordan

Não podia ser diferente: havia muita curiosidade sobre como o Bulls da temporada 1993/94 se comportaria sem Jordan. A resposta foi muito positiva. O time teve campanha de 55 vitórias e 27 derrotas, varreu o Cleveland Cavaliers na primeira rodada dos playoffs e caiu para o New York Knicks em sete jogos na semifinal do Leste, em uma série tão parelha que poderia muito bem ter acabado com final feliz e levado a equipe para a disputa de mais um título.

Pippen assumiu a condição de principal estrela do Bulls. Viu suas médias subirem para 22,0 pontos, 8,7 rebotes, 5,6 assistências e 2,9 roubos de bola por partida. Mas era um time que estava longe de parecer funcionar com base em uma única peça. O próprio Pippen apareceu em determinado momento falando sobre isso: “Todos esperavam que eu tentasse ser o cara, mas vencemos em conjunto. Aprendemos a jogar juntos, a dividir a bola, e foi assim que ganhamos jogos.”

O segredo por trás disso? Para Charley Rosen, ex-treinador que chegou a ser auxiliar de Phil Jackson nos tempos de CBA, a resposta passa pelo comandante. “Naquela temporada em particular, sem o Michael, foi quando Phil fez seu melhor trabalho como técnico”, afirmou Rosen.

“Todos criticam o triângulo, dizem que só funcionam com o Michael lá. Mas naquele ano, a estrela do time era Pippen, que não era um pontuador. Ele era um facilitador do jogo. E eles executaram o triângulo com perfeição”, completou.

É muito bom ver em 2020 esse tipo de justiça sendo feita ao triângulo.


A recusa de Pippen

Não dava para esperar o contrário: é claro que a história sobre os segundos finais do Jogo 3 da série entre Bulls e New York Knicks nos playoffs de 1994 acabou aparecendo no documentário. Foi o seguinte: com o placar empatado, Phil Jackson desenhou a jogada derradeira para que Toni Kukoc desse o último arremesso. Scottie Pippen ficou tão frustrado por não ter sido ele o escolhido que se recusou a entrar em quadra.

Kukoc acertou, o Bulls venceu e a série se alongou até o sétimo jogo, que terminou com vitória e classificação do Knicks. Mas enquanto os torcedores em Chicago estavam eufóricos com aquele desfecho emocionante de partida, as coisas no vestiário estavam obviamente tensas.

De acordo com o depoimento de algumas das peças que faziam parte daquele elenco, havia uma insatisfação generalizada pela sensação de que Pippen havia desistido dos companheiros. E Bill Cartwright, até então um dos remanescentes da equipe tricampeã, foi quem rompeu o silêncio no vestiário com um discurso emocionado, repreendendo Pippen ao mesmo tempo em que chorava.

Funcionou. A situação de fato se remediou, tanto que o Bulls acabou vencendo o Knicks outras duas vezes naquela série. Olhando em retrospecto, chega a ser impressionante que Pippen tenha jogado tão bem nas partidas seguintes e que o Bulls tenha passado tão perto de vencer aquela série depois de um episódio complicado como esse.

Foi um ponto baixo da carreira de Pippen, sem dúvida, mas definitivamente não foi a mancha que muita gente na época imaginou que fosse. A única coisa difícil de entender nisso tudo é que ele deixou bem claro que, apesar de ter se desculpado, não teria feito nada de diferente.


Jordan no baseball

Um ícone de um esporte, ainda no auge da sua forma física e técnica, decide encerrar a carreira para tentar a sorte em outra modalidade. Não é o tipo de roteiro que vemos toda hora. É tão incomum, tão estranho, que às vezes é até difícil assimiar que isso de fato aconteceu — especialmente para aqueles que não vivenciaram isso na época.

Mas aconteceu. Jordan se juntou ao Birmingham Barons. Ou seja: em um time que não fazia parte da MLB, acostumado a jogar para pequenos grupos de pessoas, sem despertar tanta atenção da imprensa em condições normais. O que obviamente mudou drasticamente durante o tempo em que ele permaneceu por lá. Nunca se viu tantos torcedores e jornalistas acompanhando aqueles jogos. Foi uma situação inusitada e que muito provavelmente jamais se repetirá.

Ao acompanhar as histórias contadas sobre esse capítulo da trajtória profissional de Jordan, é curioso ter ciência do quanto ele se sentiu realizado em um novo ambiente, de como buscou por melhorar dentro de um novo esporte, da maneira como a ética de trabalho foi elogiada e chamava a atenção tanto quanto na NBA. Mas talvez o que mais chame a atenção foi como a greve dos jogadores da MLB acabou o empurrando de volta para o basquete.

Tudo bem: não é todo mundo que acredita em alinhamento dos planetas ou coisa do tipo. Mas as coisas aconteceram na hora tão certa, e o retorno ao basquete depois foi tão bem sucedido, que fica um pouco mais difícil não olhar para isso como uma espécie de trabalho do universo.


Space Jam

Depois que voltou do baseball e se juntou de novo ao Bulls, Jordan viu-se eliminado pelo Orlando Magic nos playoffs de 1995. Uma sensação incomum para quem havia conquistado três títulos nas três temporadas anteriores que havia disputado antes disso, o que o levou a iniciar a preparação física para o ano seguinte tão logo entrou de férias.

Reatingir o pico da forma física seria um desafio e tanto, o próprio Jordan chegou a admitir que não foi fácil. Mas aquele não foi o único compromisso na agenda para o verão norte-americano (inverno por aqui) de 1995. As gravações de Space Jam deveriam acontecer também. Mas como ele não queria que isso atrapalhasse sua busca pela retomada do topo da NBA, pediu aos produtores que disponibilizassem um espaço em que pudesse treinar com seu preparador físico individual.

Pedido atendido, e em grande estilo. A Warner Brothers ofereceu uma academia repleta de equipamentos e uma quadra. A rotina de Jordan durante as gravações começava às 6h da manhã. Durante duas horas, ele fazia uma pausa para um treino duro. Depois voltava para continuar o trabalho como ator. E à noite jogava basquete contra alguns dos grandes nomes da NBA, que foram convidados por ele para irem até lá para jogar.

Para Jordan, foi uma oportunidade de adicionar mais uma etapa que julgou importante neste processo de resgate do trono do basquete: o contato direto com outros grandes jogadores, para que pudesse vê-los de perto e entender mais coisas na forma deles de jogar. Para Reggie Miller, um dos convidados, foi impressionante acompanhar como Jordan tinha energia para encarar esse tipo de rotina todos os dias. Era como se ali já fosse possível saber que ele voltaria a ser quem era antes de partir para o baseball.


Saudades dos playoffs

“Os playoffs representam o nível mais alto de competição que existe no nosso esporte. Você disputa 82 partidas na temporada regular, mas você pode chutar tudo isso para o lado depois. Os playoffs são os playoffs. Ter a oportunidade de enfrentar os melhores competidores era o a força que me conduzia, sem dúvida nenhuma”, disse Jordan em determinado momento do documentário.

É o tipo de depoimento que cai com um pouco mais de força nos fãs de basquete nesta época em especial. Não fossem esses tempos de quarentena, estaríamos todos vivendo essa fase tão gostosa, acompanhando aquelas séries de ajustes entre os melhores times, vendo histórias incríveis nascerem e confirmando se aquelas projeções que fizemos antes de tudo começar iriam se concretizar. Que saudades.

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