O que o “All-Star Game” em Toronto diz sobre a cidade

Luís Araújo

Antes de virar desfalque do “All-Star Game” de 2016 e ser substituído por Al Horford, Chris Bosh lembrou com carinho de Toronto, a cidade escolhida para sediar o evento naquele ano. Ele optou por sair de lá em julho de 2010 para ser campeão em Miami, ao lado de LeBron James e Dwyane Wade, mas parece carregar doces memórias do que viveu antes disso em solo canadense.

“Devo dizer que foi nossa primeira participação nos playoffs, mesmo não ganhando a série na primeira rodada”, disse Bosh, em uma entrevista por vídeo com jornalistas do mundo todo da qual o Triple-Double fez parte, ao ser questionado sobre qual foi o seu momento favorito do tempo em Toronto.

“O gosto de sentir a classificação aos playoffs pela primeira vez foi ótimo. Muitas coisas boas aconteceram. Foi uma temporada gostosa e divertida por causa da cidade e dos companheiros que tive. Foi muito legal estar aqui. Hoje, essa franquia está acostumada ao sucesso e está tentando voltar a chegar mais longe nos playoffs. Mas aquela experiência foi muito legal para mim.”

É importante ter em mente o contexto desta declaração. Ela foi dada em fevereiro de 2016. Naquela época, o Raptors vinha de duas quedas decepcionantes na primeira fase dos playoffs. Principalmente na temporada anterior, quando foi varrido pelo Washington Wizards mesmo tendo o mando de quadra. Por isso Bosh falou sobre a tentativa de voltar a avançar, coisa que só tinha acontecido até então com a franquia em 2001.

Alguns meses depois daquilo, o Raptors chegou à final de conferência. Foi eliminado pelo Cleveland Cavaliers, que contava com LeBron James ainda. Esse embate se repetiu nos dois anos seguintes na segunda fase dos playoffs. A história foi até pior. O time canadense acabou sendo varrido pelo Cavs em ambas as oportunidades. Foram episódios que podem considerados frustrantes, é claro, mas que aconteceram após campanhas de mais de 50 vitórias na fase de classificação.

Será que uma hora os fanáticos torcedores em Toronto poderão desfrutar de uma caminhada mais bem-sucedida nos playoffs? Independente da resposta para essa questão, já é possível afirmar que o sucesso é uma coisa certa para a cidade.

Afinal de contas, o que aconteceu em fevereiro de 2016 foi histórico para Toronto: foi o primeiro “All-Star Game” sediado fora dos EUA. O jogo em si foi uma porcaria, com uma pontuação extremamente alta que deve ter sido sem graça até mesmo para os mais apaixonados por basquete. Mas isso aconteceria em qualquer lugar, evidentemente. O simples fato de a bola da vez ter sido uma cidade canadense é muito representativo.

Para entender melhor é preciso voltar um pouco no tempo. Em 1995, o Toronto Raptors entrou na NBA junto com o Vancouver Grizzlies. Não foram os primeiros times canadenses, já que o Toronto Huskies tinha participado da temporada 1946/47, mas isso não anula a relevância do ingresso deles sob o ponto de vista histórico. Era a volta do país em um momento completamente diferente da liga, já estabelecida como um produto de sucesso no mundo todo.

Aliás, havia uma corrente que defendia a ideia de resgatar o nome Huskies em Toronto, mas a ideia foi deixada de lado pela organização da equipe depois que chegaram à conclusão de que não haveria um jeito de fazer isso sem criar um logo que não lembrasse demais o do Minnesota Timberwolves. A saída encontrada foi a de promover um concurso que acabou levando ao Raptors.

Como qualquer outra equipe novata, Raptors e Grizzlies sofreram para competir nos primeiros anos. Algo completamente natural para quem teve de se formar a partir de Drafts — primeiro no de expansão, recrutando jogadores que estavam em outros times, depois no tradicional, colecionando novatos mesmo.

Mas o Grizzlies sofreu um pouco mais. O público que comparecia ao ginásio nunca foi grande coisa e despencou ainda mais depois dos quatro primeiros anos. Neste intervalo de tempo, a franquia foi vendida pelo grupo “Orca Bay Sports and Entertainment”, que também controlava o Vancouver Canucks na NHL. Quem comprou foi o empresário norte-americano Michael Heisley, que até se comprometeu em um primeiro momento a mantê-la em Vancouver, mas depois acabou a levando para Memphis, usando principalmente a queda de público e os prejuízos que teve para apontar que o basquete não dava certo em Vancouver.

Um outro ponto importante nesta curta história do Grizzlies em Vancouver passa pelo Draft de 1999. Escolhido na segunda posição, o armador Steve Francis bateu o pé e disse que não jogaria lá de jeito nenhum. Citou a distância em relação a Maryland, de onde vinha, questões financeiras e até mesmo “vontade de Deus” para justificar sua posição. Teve seu pedido atendido e foi parar no Houston Rockets, em troca de Michael Dickerson, Othella Harrington, Antoine Carr, Brent Price e escolhas futuras de Draft.

Enquanto isso tudo de desgraça acontecia em Vancouver, o Raptors teve um pouco mais de sorte. Um nome em especial foi muito importante para que os mesmos problemas do Grizzlies com interesse de público e novatos rebeldes não aparecessem: Vince Carter. Selecionado na quinta posição do Draft de 1999, o ala logo impressionou com sua explosão físicas e suas enterradas acrobáticas que apareciam constantemente entre as melhores jogadas da semana. O público em Toronto realmente não tinha motivos para não acompanhar de perto o que o então jovem estava fazendo. Para ajudar ainda mais, tinha um outro garoto se desenvolvendo ali e indicando que coisas boas poderiam acontecer em um futuro não muito distante: Tracy McGrady.

É verdade que Carter acabou sendo trocado com o New Jersey Nets em 2004 depois de uma série de desentendimentos com a diretoria da franquia e que McGrady saiu bem antes disso como agente livre, mas aí já são problemas de gestão que podem ser tranquilamente vistos em outras franquias. Menos mal para o Raptors é que um outro jovem talento não demorou muito para aparecer depois que Carter se mantou. Quarta escolha do Draft de 2003, Bosh já teve um desempenho bastante sólido enquanto novato e continuou crescendo nas temporadas seguintes. Tanto que tem sido selecionado para o “All-Star Game” em todos os anos desde 2006, quando foi pela primeira vez.

Bosh saiu de Toronto em 2010. Apesar das boas recordações que tem da cidade, entendeu que precisava sair se quisesse ser campeão porque — de acordo com ele próprio — nenhum grande astro ia se mudar para a cidade.

Aí já é a situação que o atual elenco tenta começar a mudar. Dentro de quadra, o Raptors ainda luta para se firmar como um time mais confiável na hora dos playoffs. Mas fora das quatro linhas, é uma franquia que jamais encerrou uma temporada entre os dez piores públicos da liga, nem mesmo em tempos nada promissores, e que levou o “All-Star Game” para fora dos Estados Unidos pela primeira vez. Coisas que já simbolizam o triunfo do basquete em Toronto.

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