O que o jogo dos 81 pontos diz sobre Kobe Bryant?

Luís Araújo

Rafael Araújo, o Bábby, estava bem perto de tudo quando Kobe Bryant fez 81 pontos. “Fomos xingados, o técnico deu bronca, mas não tinha o que fazer. Era a noite do cara”, disse o brasileiro, que defendia o Toronto Raptors naquele 22 de janeiro de 2006, em entrevista à ESPN. Charlie Villanueva, que também atuava no time canadense, e Devean George, um dos companheiros de Kobe no Los Angeles Lakers, foram outros personagens que se pronunciaram sobre o feito, através de textos cheios de detalhes publicados no Players Tribune.

É ótimo que essas lembranças todas apareçam agora, no aniversário de dez anos daquela atuação incrível. Mais do que um justo reconhecimento ao responsável pela segunda maior pontuação individual em uma partida da NBA em todos os tempos, atrás apenas dos 100 pontos de Wilt Chamberlain em 1962, trata-se de uma contribuição à história por parte de quem também participou daquilo e que nos ajuda a entender melhor o contexto.

George, por exemplo, destaca no seu texto uma coisa importante neste sentido. “Com o passar dos anos, existem alguns mitos sobre aquele jogo que continuam aparecendo. Um deles é que Kobe fez 81 pontos do nada. Quando ouço as pessoas se perguntando se tinham ideia de que ele poderia marcar 81 e detecto um tom de surpresa em suas vozes, eu respondo que apenas não sabíamos quando isso ocorreria, mas que nenhum de nós duvidava que fosse possível”, escreveu.

A afirmação realmente não chega a ser um exagero. Cerca de um mês antes, em uma vitória tranquila do Lakers sobre o Dallas Mavericks por 112 a 90, Kobe antou 62 pontos em apenas três quartos. Nem voltou para o último. Quando saiu de quadra, tinha, sozinho, mais pontos do que o adversário.

Diante do Raptors, Kobe concluiu o terceiro período com 53. Ao longo dos 12 minutos derradeiros, marcou mais 28. Chegou aos 81 ao final da partida após acertar 28 dos 46 arremessos que tentou, o que representa um aproveitamento de 60,9%. Também vale a pena lembrar que ele ainda pegou seis rebotes, roubou três bolas.

Mas o que mais chama a atenção naquele duelo é que o Lakers chegou a ficar 18 pontos atrás no marcador durante o segundo tempo. A reação ocorreu justamente a partir do momento em que Kobe explodiu. “Foi uma questão de conseguir a vitória. Foi o motivo pelo qual eu me transformei e isso virou algo especial. Eu estaria mentindo se sentasse aqui e dissesse que compreendo o que aconteceu”, disse o craque após aquela partida.

Vale a pena voltar mais uma vez para o jogo contra o Mavericks, em dezembro de 2005. Um dos assistentes de Phil Jackson no Lakers naquela época, Brian Shaw contou à ESPN norte-americana que foi perguntar a Kobe se ele queria voltar para o último quarto e ter a chance de fazer ainda mais do que 62 pontos, mas que ouviu dele que não.

“Eu disse que ele tinha a chance de marcar 70 pontos e perguntei se ele sabia quantas pessoas já haviam feito isso. Pedi para ele entrar só para jogar mais alguns minutos, bater esta marca e depois sair de vez. Mas ele disse que faria isso quando fosse realmente necessário”, lembrou Shaw.

Parecia loucura, mas a partida diante do Raptors no mês seguinte mostrou que Kobe tinha razão — e não só no que diz respeito a voltar a se colocar em condição de fazer algo tão expressivo. Mais do que entrar para a história, a capacidade impressionante de se sobressair diante das marcações adversárias e acumular pontos foi usada para dar a vitória a um time limitado e que precisou de cada uma das suas cestas para reagir e chegar à virada.

Foi algo que se repetiu com frequência naquele momento em que o Lakers se encontrava. Durante a temporada de 2005/06, Kobe marcou pelo menos 40 pontos em 27 jogos, sendo que em seis deles conseguiu passar dos 50. A média de 35,4 pontos por partida foi, com alguma folga, a maior de toda a carreira.

Isso tudo reflete o quanto Kobe estava determinado a dar tudo o que tinha para fazer o Lakers, que tinha ficado fora dos playoffs na temporada anterior, superar as limitações e voltar a se classificar. É verdade que Lamar Odom já estava lá, mas dá para dizer com segurança que tratava-se de um elenco bem limitado em termos de talento. Para se ter uma ideia disso, o quinteto inicial contra o Raptors teve, além dos Kobe e Odom, o pivô Chris Mihm, o ala-pivô Kwame Brown e o armador Smush Parker.

No fim das contas, o Lakers somou 45 vitórias e foi aos playoffs com a sétima melhor campanha do Oeste, que teve disputa acirrada pelas últimas posições. O Sacramento Kings, que acabou em oitavo, teve 44 triunfos. O Utah Jazz, que ficou em nono e não avançou, somou 41.

O nível das apresentações de Kobe ao longo daquela temporada teve papel decisivo nesta briga toda. Os 81 pontos contra o Raptors o fizeram entrar para a história e talvez representem a melhor atuação dele durante a carreira. Mas o entendimento da grandeza do feito de dez anos atrás não para por aí. Aquela apresentação foi a principal demonstração, mas não a única do quanto ele era capaz de elevar o próprio nível para deixar seu time mais competitivo.

Parece ser algo que qualquer um que passe a concentrar mais o jogo sobre si mesmo consiga fazer, mas não é. É o tipo de coisa que separa os bons dos gênios.

Tags: , ,

COMPARTILHE