O que a saída de Brasília do NBB mostra ao basquete brasileiro?

Luís Araújo

O que já se temia havia algumas semanas acabou se confirmando: Brasília está fora do NBB. Dono de três títulos da competição, o time não conseguiu superar os problemas financeiros que vinha atravessando e não apresentou as garantias necessárias de que poderia participar do campeonato.

Antes mesmo de a Liga Nacional de Basquete (organizadora do NBB) se posicionar sobre o assunto, Brasília mesmo soltou um comunicado confirmando a saída, atribuindo ela à “crise financeira pela qual passa o país, aliada à já conhecida falta de incentivo ao esporte nacional”.

A grande razão por trás da saída de Brasília foi a perda do apoio da UniCEUB. Patrocinadora master da equipe por sete anos, a instituição de ensino anunciou que não iria renovar o acordo com o Instituto Viver Basketball — que é o responsável pela vaga do Distrito Federal no NBB.

Que o país atravessa uma crise econômica é inegável. É desafiador fazer o esporte acontecer no Brasil, principalmente quando não se trata de uma modalidade que não seja o futebol? Claro, sem dúvida. Não se pode fechar os olhos para esses pontos. Mas também não é como se todos os outros fatores ligados à essa questão estivessem funcionando de maneira impecável. Longe disso.

A mesma coisa que já foi falada quando Palmeiras, Limeira, São José dos Campos e Rio Claro fecharam as portas nos últimos anos volta à tona agora: o risco grande que qualquer time corre quando se depende tanto de uma única fonte de renda. Brasília mesmo deixou claro nesta nota que emitiu que a crise e a falta de apoio impossibilitaram que um novo patrocinador fosse encontrado. Ou seja: não é nem que uma tentativa de mudança de modelo foi tentada às pressas e não deu certo, o que aconteceu foi só que buscaram foi alguém novo que topasse entrar nisso aí no lugar da UniCEUB.

Através deste e de outros exemplos de desistências, não é difícil perceber que isso não funciona. Uma situação que costuma acontecer bastante por aqui é uma empresa se interessar em injetar uma boa grana em uma determinada equipe, em um ano específico, mirando títulos. É ótimo poder contar com um patrocinador forte assim, mas justamente por estar condicionado a conquistas, esse tipo de apoio tem prazo de validade. Basta as coisas não darem certo dentro de quadra, algo que mais cedo ou mais tarde acontece com qualquer time do mundo, que essa parceria pode acabar.

Também é preciso que fique para trás a ideia de que uma empresa qualquer aceite patrocinar um time simplesmente para ajudar o desenvolvimento da modalidade. Isso não existe. Não se pode contar com a camaradagem e reclamar quando ela não aparece. No esporte profissional, é papel dos times apresentarem um modelo de parceria a potenciais investidores que justifique a injeção de dinheiro. É algo que precisa ser visto como negócio e que realmente valha a pena para as duas partes envolvidas.

Alguma coisa precisa ser feita para mudar esses tipos de visões. Os times devem encontrar uma maneira de tornar o patrocínio o mais atraente possível para quem decidir investir e ampliar as fontes de renda para não ficarem tão dependentes assim de um único apoiador, como era o caso de Brasília. E é aí que deveria entrar a LNB. Não no sentido de doar parte da verba que recebe das empresas que conseguiu conquistar nos últimos anos, até porque isso é uma ideia completamente fora da realidade, mas dividindo “know-how” e mostrando diferentes estratégias para se fazer uma gestão moderna e de fato eficiente. Como se estivesse mesmo pegando os clubes pelas mãos para caminhar junto.

Quando Rio Claro decidiu fechar as portas às vésperas do começo da última temporada do NBB, Kouros Monadjemi, diretor de relações institucionais da LNB, falou ao podcast do Triple-Double sobre como aquilo representava em termos de alerta para o futuro, já que o motivo do afastamento foi o corte da verba da prefeitura da cidade.

“Teremos esse problema toda vez que um clube depende de verba pública. O que precisamos fazer é evitar isso, tentando contornar para que as ajudas financeiras sejam feitas de outras formas. Não quer dizer que esse apoio público não ajuda. Ajuda, sim. É importante por envolver toda uma cidade. Mas não se pode depender só de prefeitura. Estamos conscientizando os clubes a procurarem ajuda de outra forma. Se ela vier da prefeitura, ótimo. Mas se não vier, que não desestabilize a estrutura toda”, disse ele.

É justamente uma extensão desta conscientização que precisa ser feita aos clubes. A grande dependência de uma única fonte de renda deve receber o mesmo tipo de preocupação e virar foco do trabalho da LNB do mesmo jeito que Kouros falou sobre apoio de prefeituras. No Jogo das Estrelas, por exemplo, deu para ver uma série de ativações das marcas que firmaram parceria com o evento, ampliando o alcance delas junto ao público. São conhecimentos do tipo que devem ser passados aos clubes.

O NBB tem crescido demais nos últimos anos como liga, tanto dentro de quadra como fora dela. Mas essas baixas anuais representam um baque enorme para um campeonato que ainda busca conquistar consumidores. Especialmente neste caso de uma equipe tão tradicional como Brasília, que estava desde a primeira edição, conquistou três títulos da competição e ainda ganhou algumas taças internacionais no meio do caminho.

Tags: ,

COMPARTILHE