O que a vitória sobre o Warriors mostra sobre o Celtics?

Luís Araújo

“Parece muito, mas muito provável mesmo, não?”, comentou Stephen Curry, depois de ter sido perguntado sobre as chances do seu Golden State Warriors voltar a encontrar o Boston Celtics em junho, nas finais. “Eles estão jogando o melhor basquete do Leste neste momento. Mas é claro que ainda precisam passar pelo Cleveland Cavaliers, que ganhou a conferência nos últimos três anos. Então vamos ver. Ouvi falar que o clima em Boston é ótimo em junho”, completou.

Essas palavras de Curry foram ditas depois de o Celtics vencer o duelo contra os atuais campeões em Boston por 92 a 88. Antes da partida, Steve Kerr já tinha se derretido em elogios pelo oponente que teria pela frente dali a algumas horas. “Eles parecem ser o time do futuro no Leste pelos ativos que ainda têm, pelo talento jovem, pelo técnico e porque Kyrie Irving é incrível. Eles querem ganhar um título e estão mostrando isso. Mesmo sem Gordon Hayward, estão arrasando os adversários”, comentou o treinador do Warriors.

A temporada tem só um mês ainda, há muito chão pela frente até junho e, como bem observou Curry, existe um time que vem dominando o Leste há três anos e que só poderá ser colocado fora de consideração quando de fato for derrotado em uma série nos playoffs. Mas é muito difícil não se apaixonar pelo o que tem acontecido com o Celtics nas últimas semanas, sobretudo depois desta vitória sobre o Warriors.

Se era um jogo que serviria como uma espécie de prova de fogo para tudo de bom que tem sido visto nos dois lados da quadra por essa equipe, conforme dito no podcast, dá para dizer que a resposta foi excelente. Mais do que nunca, esse Celtics parece mesmo ser de verdade. Ao ponto de realmente faturar o Leste e disputar o título com Warriors ou qualquer outro oponente que sair do Oeste, com chances reais de ganhar? Isso é difícil cravar, só o tempo vai dizer mesmo, mas é um time que tem condição de vencer sempre que entrar em quadra.

Muito disso passa pela capacidade de encontrar respostas e fazer ajustes durante os jogos com as peças que há à disposição. Algo que ficou especialmente claro neste confronto com o Warriors, que chegou a disparar no placar em dois momentos distintos, dando a impressão de que logo a vitória estaria encaminhada.

“Era uma destas noites em que seria muito fácil não continuar a manter o empenho máximo em toda posse de bola defensiva”, declarou Brad Stevens após a partida. “No intervalo, eu escrevi no nosso quadra no vestiário que cedemos muitos pontos em transição para eles, além de mais alguns em cortes para a cesta pelas costas dos nossos jogadores, que tivemos dez desperdícios ofensivos e que chutamos só 30%. Mesmo assim estávamos só a cinco pontos no placar. Portanto, se melhorássemos algumas dessas coisas, teríamos uma boa chance de vencer”, concluiu o treinador do Celtics.

Essa diferença no intervalo foi de cinco pontos graças ao bom trabalho da defesa, que deixou o Warriors sem acertar um único arremesso de quadra nos últimos cinco minutos da primeira metade. No ataque, o Celtics teve muita dificuldade para encontrar espaços para produzir e os jogadores apresentavam até mesmo certa hesitação em finalizar quando as oportunidades apareciam.

O lance a seguir ajuda a ilustrar isso: depois do bloqueio que recebeu de Al Horford, Kyrie Irving viu a defesa dobrar e colocar pressão o suficiente para evitar um passe rápido, o que deu tempo de a marcação se restabelecer e voltar a estagnar o sistema ofensivo, obrigando Jaylen Brown a forçar um chute.

Durante o segundo tempo, o Warriors voltou a abrir distância folgada. Quando o placar apontava 66 a 49, parecia que já era. Especialmente pelo histórico recente dos atuais campeões, que vinham de uma sequência de jogos nos quais usaram o terceiro quarto para aniquilarem seus oponentes, transformando partidas apertadas em vitórias tranquilas ao ponto de os reservas dominarem os minutos do último período.

Só que aí o Celtics respondeu com uma corrida de 19 pontos consecutivos, dos quais dez foram anotados por Jaylen Brown. É claro que o nível de confiança dos jogadores para fazer o ataque render foi aumentando ao longo desta sequência, mas o grande trunfo do time para a recuperação foi mesmo a defesa. Mais uma vez, foi ela que forçou erros atrás de erros, evitando que o Warriors disparasse e mantendo viva a chance de se alcançar a vitória.

O segredo por trás disso? A resposta passa por várias coisas boas que esse sistema defensivo do Celtics, o mais eficiente de toda a liga, tem feito de bom ao longo da temporada e que deram certo também diante de uma potência como o Warriors. Além de contar com peças versáteis o suficiente para encarar trocas de marcação em determinados momentos das partidas, essa defesa tem como pontos fortes a resistência a bloqueios sem bola e o combate às linhas de passe, com os braços longos e atentos dos seus jogadores dificultando a ligação. Essas duas coisas aparecem nesta posse de bola a seguir através de Jaylen Brown, que teve papel fundamental para que o oponente voltasse a quadra.

No lance abaixo, foi Terry Rozier quem resistiu bem a um bloqueio sem bola para não deixar Stephen Curry se distanciar tanto assim. Além disso, é possível ver Jaylen Brown pulando na frente do armador do Warriors como uma forma desesperada de atrapalhar de um jeito ou de outro o chute.

É claro que a bola poderia ter entrado assim mesmo, trata-se de um dos grandes arremessadores da história da NBA. Mas essa ação deixa bem clara a orientação do Celtics de incomodar de qualquer maneira Curry e Klay Thompson, evitando que eles engatassem um ritmo de acertos — o que poderia ser fatal para as pretensões da equipe na partida. E dá para dizer que essa estratégia teve um papel importante na atuação discreta da dupla do Warriors.

Nesta outra jogada, Rozier reagiu tão bem à tentativa de bloqueio e conseguiu se manter tão próximo a Curry que o forçou a mudar de ideia em relação ao arremesso e a fazer um passe para Draymond Green chutar. É o tipo de finalização com a qual o Celtics conviveria numa boa se fosse o caso. Afinal de contas, seria melhor — ou menos pior — forçar Green a chutar as bolas e a definir os ataques do que os “splash brothers”. Ainda assim. Al Horford usou sua agilidade para recuperar terreno e conseguiu atrapalhar.

Já neste “pick and roll” puxado por Curry, o Warriors conseguiu espaço suficiente depois do bloqueio para que um terceiro defensor do Celtics fosse envolvido na jogada. Por isso que Al Horford saiu de perto de Andre Iguodala e correu para o garrafão para fazer a cobertura em JaVale McGee, que entendeu o que estava acontecendo e tentou fazer um passe para Iguodala embaixo da cesta. Mas Marcus Smart apareceu por ali depois de deixar a zona morta e roubou a bola, mostrando por que é um membro tão valioso no elenco de Brad Stevens mesmo chutando tão mal e tomando decisões contestáveis no ataque com alguma frequência.

Depois de restabelecido, o equilíbrio continuou até o fim. Nem mesmo a escalação do “novo” quinteto da morte — com Iguodala no lugar de Zaza Pachulia ao lado dos quatro “all-stars” — fez o ataque do Warriors se destravar nos minutos finais. O Celtics conseguiu encarar bem essa cartada do oponente nos minutos finais com uma formação que reuniu Kyrie Irving, Marcus Smart, Jaylen Brown, Jayson Tatum e Al Horford, com Smart assumindo o papel de marcador primário de Curry e Irving colocado em cima de Iguodala.

Nesta posse de bola a seguir, Smart foi perfeito ao perseguir Curry e não ficar preso em um bloqueio, enquanto Tatum fez a mesma coisa para não se perder contra Durant. E, assim, o Celtics conseguiu se defender de maneira muito eficiente sem fazer nenhuma troca de marcação.

Nem tudo foi perfeito. A última cesta do Warriors no jogo veio de um contra-ataque finalizado com uma bola de três de Klay Thompson segundos depois de uma tentativa estúpida de passe de Marcus Smart, que pulou com a bola nas mãos para decidir no ar o que faria com ela.

E na jogada abaixo, é possível observar o quanto a lerdeza de Kyrie Irving em identificar para onde deveria correr permitiu que Draymond Green chutasse livre. Mas vale a pena reparar em como Marcus Smart fez um ótimo trabalho no início do ataque para evitar o bloqueio que o Warriors tentou fazer para Stephen Curry, algo que muito provavelmente levaria a uma situação bem mais complicada para a defesa do Celtics se virar.

Foi a defesa que devolveu o Celtics ao jogo. Foi graças a ela que os principais arremessadores do outro lado não conseguiram entrar em um ritmo de acerto que poderia ser fatal — e que costuma ser assim contra a maioria dos adversários. Foi por ela continuar funcionando até o fim que a vitória sobre o Warriors se concretizou. E é por causa dela que esse time tem capacidade de bater qualquer um que cruzar pela sua frente. Ao ponto de já fazer Stephen Curry imaginar o clima em Boston no mês de junho.

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