O quinteto de peso, a insônia de Green e a agressividade de Durant

Luís Araújo

A derrota acachapante no Jogo 3 da série contra o New Orleans Pelicans parece ter mexido com o Golden State Warriors. O técnico Steve Kerr, por exemplo, resolveu fazer algo inédito: escalar um quinteto inicial com Stephen Curry, Klay Thompson, Andre Iguodala, Kevin Durant e Draymond Green. É claro que esses cinco já tinham aparecido em quadra antes ao longo desta temporada e da anterior, mas jamais haviam começado uma partida juntos.

“Você está fora de casa, pressionado e com as costas na parede. Então é assim que você responde”, disse o técnico Steve Kerr após o jogo. “São nossos cinco melhores jogadores, claro. Eu não me senti confortável colocando esse quinteto no jogo passado. Queria continuar colocando Steph aos poucos porque muito do funcionamento das nossas formações mais baixas passa pelos bloqueios altos que ele executa. Mas acho que ele respondeu bem, conseguiu se movimentar muito melhor do que na partida anterior. Foi um ponto de afirmação dele em termos de condicionamento.”

O resultado foi espetacular. Logo de cara, o Warriors abriu vantagem de dois dígitos e assumiu o controle do jogo. No terceiro quarto, emplacou uma nova corrida para acabar com qualquer chance de reação do rival, que tinha se aproximado no placar ao longo do segundo período. No fim das contas, todos os cinco titulares tiveram saldo de pontos na caas das duas dezenas durante o tempo em que permaneceram em quadra.

Uma amostra de como as coisas funcionaram com esse quinteto pode ser observada na posse de bola defensiva a seguir. Green e Durant trocaram a marcação no início, o que deixou Durant responsável por acompanhar Anthony Davis — o que não é nenhum problema grande, visto que ele é até maior do que Green. No outro lado da quadra, o Pelicans forçou um “mismatch” para Nikola Mirotic cair com Curry, mas não conseguiu tirar proveito. Ao invés disso, o passe foi feito para Rajon Rondo na zona morta. E quando ele acionou Davis no garrafão, Curry apareceu por trás para ajudar a dobrar e a forçar o roubo de bola. Tudo isso enquanto Iguodala fechou para fazer a cobertura em cima de Mirotic.

A formação com os cinco melhores jogadores do elenco funcionou para o Warriors, mas o próprio Kerr observou que não foi só isso que decidiu o jogo. “A grande questão foi o quanto eles jogaram duro e estavam focados. O esforço nos dois lados da quadra foi completamente diferente em relação ao Jogo 3”, opinou.

Draymond Green que o diga. A derrota no Jogo 3 também mexeu bastante com ele, ao ponto de até tirar o sono. “Eu não consigo dormir depois de uma derrota como essa”, contou o jogador, que passou a madrugada vendo vídeos da derrota para o Pelicans Foi aí que surgiu o impulso de mandar uma mensagem para Kevin Durant. O conteúdo exato não foi revelado, mas ele afirmou que foi um texto longo e que, em suma, pediu mais agressividade ao companheiro.

“Eu só o desafiei a ser quem ele é. Eu tinha que falar isso para ele. Eu não o vi atacando ou sendo agressivo nos dois lados da quadra. Pelo menos não o quanto a gente precisa que ele seja. Vocês sabem que eu não me seguro, né? Quando vejo algo errado, eu preciso expressar a minha opinião. Não houve nenhum tipo de ressentimento. A gente só está tentando vencer jogos e basquete”, disse Green.

Durant parece ter entendido o recado. Depois do Jogo 4, ele afirmou ter reconhecido tudo o que Green apontou sobre a atuação dele na partida anterior. E dentro de quadra ele mostrou isso. Foram 38 pontos, com 15 arremessos certeiros em 27 tentados, além de nove rebotes e cinco assistências.

“Vimos neste jogo o Durant que nós precisamos”, aprovou Green. “Ele estava enganado e pontuando de todos os cantos da quadra. Ele estava mudando a partida. Esse é o impacto que ele pode causar quando mostra essa postura agressiva. É isso o que amo ver.”

As duas cestas iniciais de Durant no duelo mostram isso com clareza. Nesta primeira, ele recebeu o passe e um bloqueio de Green. Como a marcação do Pelicans decidiu não trocar, sobrou para Jrue Holiday escapar deste bloqueio e ainda tentar dar um jeito de contestar a finalização, enquanto Mirotic seguiu próximo ao corpo de Green. Não funcionou.

Na segunda cesta, Holiday ainda escapou bem de um primeiro bloqueio sem bola e fez o que pôde no segundo, quando Durant já estava com a bola nas mãos. Do ponto de vista individual, não foi uma defesa ruim. Longe disso. Mas é como o próprio Holiday já tinha observado em algum outro momento desta série: “Ele é alto demais, o que eu posso fazer?”

Um pouco depois disso tudo, Durant acertou um arremesso na cara de E’Twaun Moore. Foi mais um caso de defensor que até estava bem posicionado e fez tudo o que estava ao alcance para contestar a finalização, erguendo o braço com o corpo colado ao do adversário. Só que Durant é tão mais alto e comprido que Moore não deve nem ter aparecido no seu campo de visão na hora do chute.

Esse ritmo que encaixou logo cedo ao se aproveitar das marcações dos mais baixos foi determinante para o que veio mais para frente. Durant se mostrou cada vez mais agressivo e confiante. Ao ponto de nem Anthony Davis, alto e de braços bem longos, ter escapado.

Ao que tudo indica, a insônia de Green levou a um nível muito maior de agressividade de Durant, que acabou sendo um elemento gigantesco na história do jogo. Mas não foi só isso. Foi muito mais do que simplesmente um “all-star” arremessando por cima de seus marcadores e fazendo cesta atrás de cesta. Deu para ver também uma defesa capaz de trancar o oponente, com nível de comunicação e entrosamento que remete aos melhores momentos do Warriors campeão em 2017.

Apareceram também aquelas trocentas movimentações com e sem a bola a cada ataque, que vão deixando os rivais tão confusos que invariavelmente rendem um espaço para alguém finalizar em ótima condição. Neste lance a seguir, por exemplo, o Pelicans ficou confortável demais com a ideia de ceder um chute de longa distância a Iguodala. Faz sentido. Diante de um oponente com tantas armas poderosas, tudo bem pagar para ver esse tipo de arremesso. Afinal, Iguodala não é nenhum especialista em tiros de três. Mas o enorme grau de conformismo foi punido com o aparecimento de Curry livre na zona morta. Vale também reparar em como a movimentação de Thompson sem bola, em direção ao garrafão, terminou de confundir a defesa adversária e ajudou demais a render esse chute tão livre.

Parece que aquela sensação de desinteresse na reta final de temporada regular ficou mesmo para trás. Os playoffs estão refrescando a memória de quem, por ventura, se esqueceu do que esse Warriors é capaz de fazer dentro de quadra. Principalmente quando alguém tão importante quando Green ainda se importa com as coisas ao ponto de, por exemplo, perder horas de sono em uma noite para tentar corrigir o que precisa de conserto.

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