O reforço que Markelle Fultz pode ser para o Sixers

Luís Araújo

O Philadephia 76ers subiu de rendimento desde a virada do ano, carimbou o passaporte para os playoffs, briga com o Cleveland Cavaliers pelo terceiro lugar do Leste e tem um quinteto titular que vem registrando um saldo médio de 21,1 pontos a cada 100 posses de bola. É o maior “Net Rating” da temporada dentre todas as formações que foram utilizadas por pelo menos 300 minutos. Já havia motivos o bastante para esse time ser considerado muito perigoso e temido por qualquer adversário que venha a cruzar seu caminho. O cenário que já era animador ficou ainda mais promissor com o reforço de Markelle Fultz.

Primeira escolha do Draft de 2017, o armador tinha jogado pela última vez no dia 23 de outubro. Desde então, ele passou por um problema no ombro direito, muita indefinição e uma desconfiança que parecia cada vez maior por parte público em geral a cada vídeo em que aparecia arremessando com dificuldade nos treinos. Isso tudo durou até a vitória do Sixers dentro de casa sobre o Denver Nuggets.

A participação de Fultz foi confirmada pouco antes da partida pelo técnico Brett Brown. Quando restavam pouco menos de três minutos para o final do primeiro quarto, o calouro entrou em quadra sob muitos aplausos da torcida no ginásio. “Houve um pouco de empolgação neste momento, mas houve também um sentimento de que eu precisava ajudar o time e de que não queria decepcionar. Assim que pisei em quadra, eu me senti muito bem por estar de volta e jogar ao lado dos meus companheiros”, disse ele.

Pois é, não houve desapontamento algum. O sentimento que prevaleceu na noite foi o de empolgação mesmo com Fultz, que entregou uma performance expressiva — dadas todas as condições que cercavam esse jogo dele. Foram dez pontos, oito assistências e quatro rebotes em apenas 14 minutos de ação, com aproveitamento de cinco arremessos certeiros em 13 tentados. E o Sixers teve um saldo de 16 pontos durante esse tempo que ele permaneceu em quadra.

Desta maneira, o calouro se tornou apenas o segundo jogador na história da NBA a registrar pelo menos dez pontos e oito assistências em menos de 15 minutos de ação em uma partida. O primeiro foi Kevin Porter, que precisou de 12 minutos para ter exatamente dez pontos e oito assistências pelo Washington Bullets, no dia 17 de fevereiro de 1980, em uma derrota para o Los Angeles Lakers.

A atuação de Fultz começou com um desperdício de posse de bola que gerou um contra-ataque do Nuggets. Mas qualquer sentimento de pulga atrás da orelha por parte da torcida rapidamente deu lugar à animação. Não demorou muito para que o calouro anotasse seus dois primeiros pontos, que saíram neste lance abaixo. Ajudou muito o fato de a marcação adversária ter batido caebça, já que Devin Harris virou o corpo para induzir o armador do Sixers à uma região da quadra em que não havia cobertura da defesa. Mas teve também mérito de quem imediatamente identificou essa situação e soube tirar proveito dela.

No ataque seguinte, foi a vez de executar um “pick and pop” preciso com Joel Embiid. Fultz não se apavorou nem um pouco com a dobra da defesa após o bloqueio e conseguiu encontrar o companheiro livre na linha de três com um passe por trás das costas na medida. Foi um lance que não rendeu nada em termos de estatísticas para ele, mas que serviu para refrescar a memória das coisas boas que o armador é capaz de fazer quando tem a bola nas mãos.

A primeira assistência saiu meio no tranco, mas saiu. Em uma chegada rápida do Sixers ao ataque, Fultz tentou infiltrar com um giro em cima de Devin Harris, que reagiu bem e não deu espaço para a finalização. Mas aí ele encontrou Ersan Ilyasova sozinho por ali para um chute tranquilo de média distância.

Uma outra assistência que vale a pena reparar saiu nesta jogada que culminou em um chute de três de Robert Covington. Fultz deixou a bola com JJ Redick de um lado, correu em direção à cesta, recebeu um bloqueio de Embiid e apareceu para receber dentro do garrafão. Não houve espaço o suficiente para finalizar, mas a ação atraiu as atenções da defesa ao ponto de permitir o passe para Covington.

A leitura de jogo apareceu também nesta outra jogada em que Fultz soltou a bola para algum companheiro no início para depois receber embaixo da cesta. Desta vez, o passe foi para Dario Saric. Em seguida, ele esperou a sequência da movimentação, viu Marco Belinelli infiltrar depois de cortar Paul Millsap, esperou seu marcador sair na cobertura e apareceu no garrafão para finalizar.

Além da boa leitura do que acontecia à sua volta, seja para identificar o passe certo ou mesmo para saber aonde correr, uma outra característica que chamou a atenção nesta atuação de Fultz foi a agressividade. Isso rendeu alguns tocos de Mason Plumlee no começo do jogo em arremessos de média distância, mas ele conseguiu se redimir durante o último quarto e converter um par de chutes do tipo. De qualquer maneira, o importante mesmo foi a mentalidade de atacar sem hesitação e a maneira como isso o permitiu entrar no garrafão adversário.

Essa sequência a seguir ilustra bem isso. No primeiro lance, Fultz gingou na frente de Wilson Chandler e conseguiu o espaço necessário para infiltrar. Foi um pecado a bola não ter caído. Alguns segundos depois, em um contra-ataque do Sixers, partiu para cima de Jamal Murray no garrafão e deu um jeito de colocar a bola na cesta.

“Ele nos oferece um outro ritmo de jogo que também é ótimo”, disse Joel Embiid sobre o companheiro. “Ele é capaz de encontrar maneiras de pontuar e também de fazer passes para os outros. Dá para ter uma noção disso com as oito assistências que ele deu em 14 minutos. Isso foi impressionante. É o que precisamos que ele faça mesmo: pontuar, envolver os colegas e criar jogadas”, completou o pivô, que ficou em pé o tempo todo no banco de reservas durante a participação do armador no último quarto de jogo, aplaudindo cada movimento correto.

Do outro lado da quadra, restam ainda algumas dúvidas no que diz respeito à defesa individual. Foram poucos elementos que apareceram para a análise. Mas, do ponto de vista coletivo, deu para perceber um comportamento muito bom, com trocas de marcação em sintonia com o que time vinha fazendo. Ótimo sinal para quem voltou a jogar depois de tanto tempo e busca conquistar um espaço definitivo na rotação de um time que vai para playoffs.

Após a partida, o técnico Brett Brown não quis oferecer garantia nenhuma sobre Fultz ter papel importante nos playoffs ou não, o que faz todo sentido do mundo para uma equipe que se tem se mostrado tão redonda nos últimos tempos. É preciso ter bastante calma nesta hora. Foi só um jogo, e ajudou muito o fato de que o Nuggets tem uma das piores defesas da NBA. Mas isso não anula alguns sinais bastante positivos que apareceram durante esses 14 minutos de ação. Ficou claro que o talento ainda está lá. E se isso continuar aparecendo de forma constante ao longo das próximas semanas, o time ganhará um reforço e tanto para a parte mais importante da temporada.

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