O Sixers não está satisfeito

Luís Araújo

Aos 33 anos, JJ Redick é o jogador mais velho do atual elenco do Philadelphia 76ers. É também um dos poucos ali com experiência em playoffs. Alguns minutos após a vitória sobre o Miami Heat que garantiu a classificação do time às semifinais do Leste, ele faltou em alto e bom som na entrevista coletiva o quanto ninguém ali está satisfeito por terem passado da primeira rodada. Nem ele, que nunca disputou uma final de conferência; nem Marco Belinelli, que já foi campeão com o San Antonio Spurs; nem qualquer um dos vários pirralhos que o cercam nesta equipe.

“Não há motivo para complacência. Esse time venceu dez jogos dois anos atrás e 28 no ano passado. Quando restavam cinco jogos para o ‘All-Star Game’, nossa campanha era de 25 vitórias e 25 derrotas. Essa situação agora é algo novo para a gente enquanto grupo. Acho que uma coisa interessante que está acontecendo é que nossa meta para a temporada já mudou umas quatro vezes. Primeiro era ir para os playoffs. Depois pensamos que talvez poderíamos vencer 50 partidas. Aí buscamos o mando de quadra na primeira rodada dos playoffs e depois o terceiro lugar do Leste. Eu lembro que em uma conversa com alguém da nossa diretoria chegamos a falar sobre como seria vencer a primeira rodada. Agora nenhum de nós se sente satisfeito. Ainda estamos famintos. Queremos fazer mais coisas. Essa é a natureza do nosso grupo”, declarou Redick.

A linha de raciocínio de Joel Embiid foi semelhante, o que não causa surpresa nenhuma vindo de quem veio. Antes do início dos playoffs, ele postou em sua conta no Instagram uma série de fotos de duelos contra Miami Heat, Boston Celtics, Cleveland Cavaliers e Golden State Warriors. Para bom entendedor, ficou claro: a sequência sugeria o caminho do Sixers até as finais da NBA.

“Muita gente diz que temos um futuro brilhante, mas eu penso que a nossa hora é agora”, disse Embiid. “Temos uma chance boa de brigar pelo título. Temos um time especial, com vários ótimos jogadores. Não acho que a gente precise de alguém mais para poder chegar lá.”

Isso não era para acontecer assim tão rápido. Até o começo da temporada, não faltavam incógnitas ao redor deste Sixers. Embiid, por exemplo, já tinha dado sinais do quanto poderia ser especial, mas as lesões e a restrição de minutos levantavam dúvidas sobre o quanto ele seria capaz de permanecer em quadra no longo prazo. Também não havia nenhuma clareza sobre a posição em que Ben Simmons se encaixaria na NBA e como iriam se virar um bando de moleques que nunca tinham jogado juntos.

Apesar de tanto talento junto, tanto era normal imaginar dificuldades neste começo de trajetória que esse time chegou a ter campanha de 50% pouco antes do “All-Star Game, como bem lembrou Redick. Na verdade, teve um momento até em que o número de derrotas era superior ao de vitórias. Mas o que aconteceu depois foi impressionante. O Sixers ganhou as últimas 16 partidas da fase de classificação, o que virou a maior série invicta de uma equipe às vésperas dos playoffs em toda a história da NBA. Ao final da temporada regular, teve o 11º ataque mais eficiente da liga e ficou em terceiro lugar no ranking de eficiência defensiva.

Se formos levar em consideração apenas o que aconteceu depois do “All-Star Game”, que compreende o momento do campeonato em que a equipe explodiu e subiu alguns degraus em relação ao que era antes, o Sixers teve o quarto melhor ataque da NBA, ao lado do Toronto Raptors, com média de 111,5 pontos a cada 100 posses de bola. E a defesa foi a segunda mais eficiente, limitando os oponentes a uma média de 100,8 pontos por 100 ataques. Número que só não foi melhor que o do Utah Jazz, que registrou incríveis 96,0 pontos de eficiência defensiva depois do “All-Star Game”. Isso apesar do desfalque de Embiid, que perdeu as últimas partidas antes dos playoffs por causa de um choque com Markelle Fultz.

Além disso, a equipe foi a que proporcionalmente mais distribuiu assistências, utilizando-as em 70,1% de todas as cestas que fez depois do “All-Star Game”. A proporção assistência/desperdício foi de 2,07, a melhor de toda a liga. O Sixers também foi líder da NBA nestas últimas semanas de temporada regular em eficiência nos arremessos, com índice de 55,2%. E o “True Shooting” de 58% foi o segundo maior, inferior apenas aos 58,6% registrados pelo Denver Nuggets.

Também vale destacar que o Sixers acabou a temporada com um quinteto titular que se mostrou extremamente potente. A formação reunindo Ben Simmons, JJ Redick, Robert Covington, Dario Saric e Joel Embiid foi a sexta que mais tempo permaneceu em quadra ao longo da temporada. Foram, no total, exatos 600 minutos. As médias a cada 100 posses de bola foram de 117,1 pontos anotados e 95,7 pontos sofridos, o que gerou um “Net Rating” de 21,4 pontos. Nenhum outro quinteto que atuou por pelo menos 300 minutos teve resultado tão bom.

Esse quinteto titular funcionar em nível tão alto é uma ótima notícia, claro. Mas o banco também ficou mais forte depois das chegadas de Marco Belinelli e Ersan Ilyasova no meio da temporada. Isso sem falar em Markelle Fultz, que passou a ser usado pouco antes dos playoffs e conseguiu se mostrar bem útil, permitindo algumas variações importantes ao técnico Brett Brown.

A inexperiência de um elenco recheado de jovens poderia ter sido um obstáculo nesta primeira participação em playoffs. Pode até ser mais para frente, mas na primeira rodada o time se virou muito bem. Depois do susto que levou ao perder em casa o Jogo 2 da série para o Miami Heat, respondeu bem em seguida com três vitórias para garantir a vaga na fase seguinte.

Diante do cenário em que o Leste se encontra, em que a corrida pelo topo parece muito mais aberta do que nos últimos anos, não é absurdo dizer que o Sixers pode chegar lá. Durante a primeira rodada dos playoffs, o time se mostrou mais consistente do que qualquer outro da conferência. Claro que isso é relativo, pois os adversários foram diferentes e as coisas costumam mudar entre uma fase e outra. Mas não deixa de ser um bom indicativo.

O elenco do Sixers conta com uma estrela consagrada, um outro jogador que fatalmente acabará se tornando “all-star” em breve, defensores versáteis e prontos para encararem trocas de marcação, arremessadores competentes e armas interessantes no banco. Pode até ser prematuro afirmar que essa equipe é a favorita para conquistar o Leste neste ano, mas também não é mais uma ideia de lunático imaginar essa possibilidade. Pelo o que vem acontecendo nas últimas semanas, Embiid, Redick e companhia estão mais do que certos em almejar isso.

O certo é que nem mesmo o mais otimista admirador do “processo” poderia imaginar que as coisas chegariam neste ponto um ano atrás, quando havia dúvidas demais em torno deste time. O futuro continua parecendo muito promissor para o Sixers. Mas as coisas deram certo de uma maneira tão rápida que uma história especial pode já estar sendo escrita neste exato momento.

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