Os 70 pontos de Devin Booker

Luís Araújo

Não é todo dia que vemos alguém anotando 70 pontos. É tão raro que fazia mais de 11 anos que isso não acontecia na NBA. Antes de Devin Booker alcançar tal marca na derrota do Phoenix Suns para o Boston Celtics nesta sexta-feira, a última vez que alguém fez esse tipo de coisa foi Kobe Bryant, com os 81 pontos sobre o Toronto Raptors no dia 22 de janeiro de 2006.

Aliás, foi do ídolo do Los Angeles Lakers que veio a inspiração para o desempenho que o colocou na história. “Eu vi uma entrevista com Kobe. Ele disse que o que o separava de um monte de gente é que o resto pensava que 30 pontos já era muita coisa. Ele disse que nunca se deixou estabelecer um limite de pontos. Isso sempre ficou na minha cabeça. Eu não coloco limite em nada. Eu quero ser o melhor em tudo nesta vida. Tudo mesmo, não só no basquete”, disse Booker.

Além dele e de Kobe, só outros quatro jogadores em toda a história da NBA conseguiram chegar na casa dos 70 pontos em uma partida: Wilt Chamberlain (seis vezes), David Thompson, Elgin Baylor e David Robinson. Todos participaram do “All-Star Game” e foram eleitos para o quinteto ideal da liga em algum momento de suas respectivas carreiras, o que mostra como o jovem do Suns está em ótima companhia.

Além disso tudo, esses 70 pontos de Booker são o máximo que alguém anotou até hoje em uma partida contra o Celtics — o que não é pouca coisa, obviamente — e representam também um novo recorde em toda a história da franquia do Arizona. Antes disso, a melhor marca pertencia a Tom Chambers, que anotou 60 pontos em um duelo com o Seattle Supersonics justamente no dia 24 de março de 1990. Exatamente 17 anos antes de Booker superá-lo.

Para chegar a esses 70 pontos, a promessa do Suns — que ainda nem completou 21 anos, é bom lembrar — fez 24 lances livres e acertou 21 dos 40 arremessos durante o jogo. Vale a pena dar uma olhada com um pouco mais de atenção em cada um deles para entender como essa atuação foi construída.

Cesta 1 – Veio em uma jogada individual, em um momento no qual o Suns simplesmente não conseguia passar pela defesa do Celtics. Booker recebeu, imediatamente buscou cortar Jaylen Brown pelo fundo e conseguiu fazer a bandeja.

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Cesta 2 – É curioso observar como Jae Crowder tentou congelar o bloqueio no início da jogada, virando o corpo de maneira a mandar Booker para o canto da quadra. Só que Leandrinho apareceu por ali para ajudar fazendo um outro bloqueio em Crowder, o que permitiu em seguida que Booker avance, use o corpo de Alan Williams para cortar pelo meio e finalizar com uma bandeja.

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Cesta 3 – Um tiro três que veio em um contra-ataque, contra uma defesa ainda desarrumada. Por isso o marcador mais próximo dele no lance era Kelly Olynyk, que é mais alto, mais lento e não conseguiu fechar tão bem o espaço assim para o chute.

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Cesta 4 – Mais uma bola de três em transição. Desta vez, sem ninguém por perto. Foi só parar e chutar antes de Marcus Smart chegar para contestar.

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Cesta 5 – Mais uma em contra-ataque, só que não em bola de longe. Desta vez, Booker fez um drible com mudança de direção, buscou atacar Gerald Green pelo fundo da quadra e ainda atraiu a ajuda de Al Horford. Deu certo, mas vale observar como essa ação permitiu que Alex Len entrasse livre no garrafão como opção de passe.

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Cesta 6 – Depois de cortar o garrafão, Booker viu Amir Johnson sair para marcá-lo e tratou de aproveitar a vantagem de agilidade neste confronto para criar o espaço para o arremesso de média distância.

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Cesta 7 – Booker recebeu um bloqueio sem bola de Alex Len no canto da quadra, partiu para o meio para receber e não parou de se movimentar depois disso, tratando de manter Jaylen Brown atrás dele o tempo inteiro nesta jogada. A conclusão veio graças a mais um bloqueio de Len, desta vez em Olynyk. Na hora do arremesso, o canadense até conseguiu chegar perto, mas essa ação do pivô do Suns foi fundamental para que Booker subisse com espaço para o chute.

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Cesta 8 – Depois de o Suns tomar uma cesta, Booker foi imediatamente acionado para agredir Horford na linha de três. Ele buscou o corte pelo fundo, fez a cesta e ainda sofreu a falta.

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Cesta 9 – Bom trabalho de Booker no “post-up”, com paciência para fugir da dobra de Amir Johnson, esperando a hora certa de entrar no garrafão e finalizando com um arremesso no qual jogou o corpo para trás, escapando das tentativas de tocos de três defensores do Celtics.

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Cesta 10 – O corte de Leandrinho logo no começo do vídeo ajudou a dificultar um pouco a vida de Marcus Smart, que saiu correndo para tentar perseguir Booker e logo deu de cara com um outro bloqueio, desta vez de Len. Aí ele resolveu passar por trás deste bloqueio e deu o espaço necessário para o chute de três.

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Cesta 11 – Booker mais uma vez aceitou o confronto com Smart fora do garrafão. Mas ao invés de trabalhar de costas para a cesta, ele resolveu chutar assim mesmo, por cima do adversário. Até foi bem marcado, o jogador do Celtics cedeu o mínimo de espaço e ergueu o braço, fez mais ou menos o que dava. Mas a bola entrou assim mesmo.

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Cesta 12 – Roubo de bola e cesta fácil do outro lado da quadra. Smart nem fez força para tentar atrapalhar.

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Cesta 13 – Tudo começou com um “pick and pop” com Jared Dudley. Havia a opção de fazer o passe para o companheiro, que ficou completamente livre já que Brown resolveu persegui-lo no lance. Mas Booker optou por agredir Olynyk, explorando o “mismatch”, e criar o arremesso de média distância.

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Cesta 14 – Mais uma cesta em contra-ataque depois de roubar a bola na defesa. Ao contrário de Smart um pouco antes na partida, desta vez Terry Rozier até tentou atrapalhar. Mas não conseguiu e ainda fez a falta.

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Cesta 15 – Depois de cruzar a quadra, Booker recebeu dois bloqueios pelo lado direito da quadra, um de Dudley e outro de Leandrinho. A ação o deixou frente a frente com Rozier. Ele manteve a agressividade e chutou por cima do oponente. Acabou dando certo.

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Cesta 16 – É interessante observar o que Dudley faz para facilitar essa jogada. A simples mudança de posição do corpo na hora de fazer o bloqueio acabou confundindo Jonas Jerebko, que demorou para voltar a ficar em posição de reagir. A ação abriu um corredor para Booker atacar. Como saiu atrasado, o sueco não conseguiu conter a infiltração e ainda fez a falta.

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Cesta 17 – Em mais uma ação individual contra Brown, Booker tentou cortar pelo fundo. Assim que percebeu que não conseguiu encontrar espaço para entrar no garrafão, ele fincou os pés e se posiconou para o arremesso.

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Cesta 18 – Booker estava dando toda a pinta de que queria receber a bola atrás da linha de três e conseguiu vender essa ideia para Smart. Só que ele resolveu mudar de direção, então usou o bloqueio de Alan Williams para receber nas costas de Tyler Zeller e finalizar com tranquilidade embaixo da cesta.

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Cesta 19 – Aqui não tem muito segredo. É só muita confiança mesmo para chegar ao ataque, parar e chutar de tão longe assim.

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Cesta 20 – O bloqueio de Dudley no meio da quadra paralisa Smart e também Jerebko. A partir disso, abriu-se uma avenida para Booker atacar o garrafão. Zeller ainda apareceu na cobertura, depois de abandonar Williams completamente, e conseguiu atrapalhar. Mas o rebote ficou nas mãos do jogador do Suns, que fez mais dois pontos.

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Cesta 21 – Mais uma vez Booker engana a defesa com mudança de direção sem bola, aproveitando bloqueio de Williams para se desmarcar. Desta vez, de dentro do garrafão para fora.

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“Esse tipo de coisa não acontece direto, especialmente contra um time tão bom defensivamente como o Celtics. É uma coisa de momento, meio difícil de explicar. Eu já tive momentos assim antes, mas eles nunca duraram tanto assim”, disse Booker depois do jogo.

De fato, as coisas deram certo demais para ele. Mesmo algumas bolas muito difíceis e até bem marcadas acabaram entrando. É óbvio que esses 70 pontos foram uma aberração e que provavelmente não irão se repetir. Mas algumas coisas nesta partida chamaram muito a atenção, independentemente de virarem cesta ou não no fim das contas, como a movimentação sem bola, a capacidade de comandar jogadas quando tem a bola nas mãos, a maneira como explorou o “mismatch” após um bloqueio, as finalizações agredindo a cesta, os chutes de três e até mesmo ações no post-up.

Uma rápida olhada pelo desempenho dele nos diferentes tipos de jogadas ofensivas na temporada mostra que Booker ainda não se destaca tanto assim pontuando quando chama o “pick and roll”. Ele também não chama a atenção quando usado “off screen”, algo que é feito muito bem por Klay Thompson — quem muita gente vê semelhanças com o jovem do Suns, e não sem motivos. Mas Booker tem resultados relativamente bons em transições e, ainda mais, em jogadas de isolação, chegando até a ter um rendimento nestas ações semelhante aos de Jimmy Butler e Kawhi Leonard.

Dá para imaginar que todas essas coisas no leque ofensivo de Booker, até mesmo as que já parecem boas, melhorem ainda mais com o tempo. Afinal de contas, estamos falando de um garoto de 20 anos, que está só na segunda temporada da carreira e que tem jogado em um time fraco, ainda em construção e recheado de outros jovens. É impossível ter alguma ideia do quanto a carreira dele vai se aproximar das que tiveram os outros cinco que alcançaram a marca dos 70 pontos na história da NBA, tem muita estrada ainda pela frente. Mas será bastante divertido ver onde isso tudo vai dar. O rapaz já deu pinta de que pode se tornar especial e mais de uma vez.

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