Os dez anos da troca que levou Garnett ao Celtics

Luís Araújo

Uma das trocas mais intrigantes e impactantes sob vários aspectos da história da NBA completou dez anos. Foi no dia 31 de julho de 2007 que o mundo ficou sabendo que Kevin Garnett ia mesmo para o Boston Celtics, que mandou ao Minnesota Timberwolves um pacote composto pelos então jovens Al Jefferson, Gerald Green, Ryan Gomes e Sebastian Telfair, pelo contrato expirante de Theo Ratliff e por duas escolhas futuras de primeira rodada.

Não dá para dizer que a mudança de ares de Garnett era algo totalmente inesperado na época. Nos meses anteriores à transação, não faltaram rumores envolvendo o nome dele. Glen Taylor, proprietário do Timberwolves, tinha admitido que ouviria propostas envolvendo o principal jogador da franquia, embora tenha dito também que um negócio só sairia se fosse algo que pudesse considerar “fabuloso”. Aparentemente, foi assim que ele e Kevin McHale, então gerente-geral da equipe, enxergaram o conjunto de peças oferecidas pelo Celtics.

Uma combinação de fatores levou a essa abertura do Timberwolves à possibilidade de aceitar romper os laços com Garnett. Um deles foi a série de fracassos que sucedeu a viagem à final do Oeste em 2004. Depois de registrar a melhor campanha da história da franquia, o time não conseguiu mais voltar aos playoffs — iniciando um jejum que dura até os dias de hoje — e viu o número de vitórias diminuir temporada a temporada. Paralelamente a isso, ficava cada vez mais clara a incapacidade da direção de colocar talento ao redor de Garnett, que continuava sendo um dos melhores jogadores da NBA nos dois lados da quadra. Além disso tudo, ele poderia virar agente livre em julho de 2008, e Taylor não parecia disposto a oferecer um novo vínculo se o jogador não aceitasse uma redução no salário anual — que ultrapassaria os US$ 23 milhões na temporada 2007/08, de acordo com o Basketball Reference.

Mesmo com as primeiras investidas de times interessados em tirá-lo de onde estava desde o início da carreira, Garnett dizia que não queria sair do Timberwolves. Depois, chegou a deixar bem claro que de fato viraria agente livre em 2008 e se mandaria caso realmente fosse negociado com o Celtics. Mas a chegada de Ray Allen a Boston alguns dias antes o fez mudar de ideia e o levou a aceitar uma extensão que o deixaria sob contrato com o novo time até julho de 2012. “Essa provavelmente é a minha melhor oportunidade de conquistar um anel de campeão, nem tinha muito o que pensar sobre isso”, disse Garnett na época ao comentar a troca.

Não demorou para que essa sensação dele se transformasse em realidade. O impacto foi imediato. Comandado por um trio de estrelas ainda no auge e por um sistema defensivo que logo se consolidou como o mais eficiente da liga, o Celtics abriu a temporada 2007/08 com oito vitórias consecutivas e 20 nos primeiros 22 compromissos. No fim das contas, o time ganhou 66 partidas, 42 a mais do que havia feito no campeonato anterior, o que representa até hoje a maior evolução de uma equipe entre um ano e outro já vista na história da NBA.

A caminhada nos playoffs teve alguns sustos, sobretudo nas duas primeiras rodadas, em que foram necessários sete jogos para despachar Atlanta Hawks e Cleveland Cavaliers. Mas o time sobreviveu, seguiu adiante e acabou se sagrando campeão ao derrotar o Los Angeles Lakers em seis partidas na decisão. Na festa do título, completamente tomado pela emoção, Garnett beijou o centro da quadra e gritou que “qualquer coisa é possível” na entrevista que deu ao vivo à ESPN dos EUA.

Essas duas declarações, dadas em um intervalo de quase um ano, são bastante emblemáticas. Ao afirmar que ir para o Celtics representava a melhor oportunidade de perseguir um título, era como se Garnett enfim tivesse se convencido de algo que parecia claro para todo o resto das pessoas: que ele estava desperdiçando seus melhores anos de performance individual em uma equipe sem rumo, que parecia a uma distância enorme das mais competitivas da liga. E quando fez questão de expressar minutos após o título que tudo era possível, foi uma maneira de dizer que valeu a pena deixar algumas convicções para trás e se juntar a uma equipe mais forte. Era como se o gosto de ser campeão estivesse mostrando naquele momento o que ele estava perdendo esse tempo todo.

O título de 2008 acabou sendo o único de Garnett. No ano seguinte, ele sofreu uma lesão no joelho que o afastou dos playoffs e que diminuiu consideravelmente o poder de fogo do time — que até passou pelo Chicago Bulls na primeira rodada, mas que não resistiu ao Orlando Magic na segunda. Em 2010, o Celtics voltou a reinar no Leste, mas desta vez não conseguiu passar pelo Lakers na decisão. A partir de 2011, o topo da conferência passou a ser ocupado pelo Miami Heat, que tinha acabado de colocar LeBron James e Chris Bosh ao lado de Dwyane Wade, formando um novo trio de astros para atrair os holofotes da NBA.

Foi algo que aconteceu sob muita influência da experiência bem sucedida em Boston. LeBron não chegava ao ponto de sequer se classificar para os playoffs, como acontecia nos últimos anos de Garnett em Minnesota, mas o Cleveland Cavaliers morria na praia ano após ano e passava uma impressão muito grande de não conseguir reunir no elenco o suporte necessário para seu principal jogador. Quando LeBron resolveu assinar com o Heat, a ida de Garnett para o Celtics e o choque de realidade que isso acabou representando para ele em um curto espaço de tempo ainda era uma memória fresca na cabeça das pessoas.

O próprio LeBron chegou a admitir certa vez o que serviu como principal motivação para a maneira como encarou aquela fase como agente livre em 2010: a frustração por não conseguir passar pelo Celtics, responsável pela eliminação do Cavs em 2008 e em 2010. “Eu entendi ali que, para chegar ao nível de competir por um título, eu precisava estar com jogadores que estivessem no mesmo nível de Paul Pierce, Ray Allen, Rajon Rondo, Kevin Garnett e o resto daqueles caras”, declarou, em uma entrevista ao Cleveland.com em 2016.

A troca que levou Garnett ao Celtics teve ainda um papel importante na idolatria de Pierce em Boston. A frustração dele com o time só crescia à medida que as derrotas iam se acumulando nas temporadas anteriores. Ele mesmo contou certa vez que até desejou ser negociado em um determinado momento e que isso ficou bem perto de se concretizar. As chegadas de outras duas estrelas em 2007 aconteceram na hora certa, remediando a situação e possibilitando que ele continuasse a escrever uma história que o levará a ter a camisa aposentada.

São elementos que levam à reflexão sobre como Garnett, no processo de descobrir como é poderosa a sensação de ganhar um título, acabou afetando muito mais gente. Foi o que ajudou a evitar que a ligação especial que Pierce construiu com o Celtics fosse interrompida. Foi o que serviu de empurrão para LeBron tomar uma decisão importante sobre onde jogar. Deve ter sido algo que também passou pela cabeça de Kevin Durant ao se juntar ao Golden State Warriors no ano passado. Pode também ter inspirado de alguma maneira o desejo de Chris Paul de jogar ao lado de James Harden no Houston Rockets.

Isso tudo graças a uma troca que Garnett não queria que acontecesse em um primeiro momento. Depois de dez anos, a única parte envolvida na negociação que poderia lamentar alguma coisa é o Minnesota Timberwolves, que não viu a fase de renovação emplacar como esperado. De resto, só comemorações. O Celtics voltou ao ponto mais alto da NBA. Garnett ganhou um anel de campeão. E muita gente tem motivos de sobra para agradecer que ele mudou de ideia.

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