Os últimos capítulos da carreira de Marcelinho Machado

Luís Araújo

“Eu propus uma brincadeira que não valia nada, mas logo o Marcelinho Machado já estava pensando no melhor jeito de ganhar”, conta Gustavo De Conti, técnico do Paulistano. O episódio aconteceu durante um treino da equipe dos brasileiros no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, um dia antes do Jogo das Estrelas de 2018, e o treinador foi um dos escolhidos para participar do evento.

“Eu vejo isso e espero que os mais novos percebam isso também. Porque o Marcelinho não é só alguém que mete muita bola quando está em quadra. Ele tem uma cabeça de vencedor. Para mim, isso é o que está em primeiro lugar. Se os mais novos pegarem isso, cortarão um bom caminho na carreira deles”, emenda De Conti.

As vitórias, de fato, se mostraram rotineiras na carreira de Marcelinho. Só pelo Flamengo, clube onde passou a última década e virou grande ídolo da torcida, ele conquistou cinco vezes o NBB e a Copa Intercontinental de 2014. Pela seleção brasileira, marcou presença na Olimpíada de Londres e em cinco Mundiais, o que o coloca ao lado do porto-riquenho Jerome Mincy como o recordista de participações na competição. Além disso, teve atuação decisiva na semifinal da Copa América de 2011, contra a República Dominicana. Foram cinco cestas de três e 20 pontos para impulsionar a vitória que carimbou o passaporte brasileiro para a Olimpíada depois de 16 anos de ausência.

É uma trajetória que está bem perto do fim. Aos 42 anos, Marcelinho já anunciou que vai se aposentar ao final da temporada. Mas isso não quer dizer que a vaga para integrar o time dos brasileiros no Jogo das Estrelas do NBB tenha sido um simples ato de homenagem a uma figura marcante. Foi um questão de reconhecimento mesmo ao que têm sido esses últimos capítulos da história dele como jogador de basquete. Mesmo em fim de carreira, ele desequilibra. Os tiros de longa distância, os passes e a leitura de jogo ainda despertam pavor nas defesas adversárias, cientes do quanto podem pagar caro se o deixarem com espaço.

“A surpresa por ele estar participando deste Jogo das Estrelas é zero”, comenta José Neto, comandante de Marcelinho no Flamengo e que já o viu sendo decisivo em algumas partidas da equipe nesta temporada do NBB. “A gente sabe do profissional que ele é e do quanto se dedica. Tudo o que acontece em quadra é reflexo do que ele se propõe a fazer. Ele não quer simplesmente fazer parte de um grupo. Ele quer é ganhar. E no caso dele, todo o discurso é muito condizente com o que vemos na prática.”

José Neto e Marcelinho chegaram à essa pausa no NBB para o Jogo das Estrelas com o Flamengo em bom momento. O time disputa palmo a palmo a liderança da tabela de classificação com o Paulistano, tem a maior eficiência ofensiva da competição (média de 115,9 pontos a cada 100 posses de bola) e quinta maior eficiência defensiva (100,5 pontos) — de acordo com estatísticas do RealGM. O elenco profundo e que ficou ainda mais rico com a chegada de Anderson Varejão parece estar cada vez mais redondo, com as peças bem mais adaptadas ao esquema tático nos dois lados da quadra.

É uma situação bem diferente em relação ao que se viu há alguns meses, nas primeiras rodadas do NBB. “A temporada não começou como gostaríamos, mas muito porque a gente estava em processo de conhecimento da equipe”, analisa Marcelinho. “Os jogadores que chegaram ainda buscavam se encontrar no nosso sistema. E tivemos logo de cara a fase final da Liga Sul-Americana. Fomos eliminados. Foi um resultado bem abaixo do que esperávamos, mas tivemos tranquilidade para seguir trabalhando. Sabíamos do nosso potencial como time e evoluímos muito depois disso.”

Boa forma aos 42

“Até falei para ele que ele está bem fisicamente e poderia continuar.” A frase é de Rafael Hettsheimeir, pivô do Bauru que já foi várias vezes adversário de Marcelinho no NBB, mas que o teve como companheiro na seleção brasileira.

“Eu estou torcendo para ele mudar de ideia qualquer hora dessas aí e não se aposentar”, diz Murilo, pivô do Vitória que também chegou a ter Marcelinho ao seu lado algumas vezes pela seleção. “Mas claro que a gente entende o lado dele, né? Ele quer terminar a carreira bem, jogando bem e fazendo a diferença.”

Nesta sua temporada de despedida, o ídolo flamenguista tem médias de 7,4 pontos, 2,8 assistências e 2,3 rebotes em cerca de 15 minutos por partida. São números bem inferiores em relação ao que chegou a entregar em outros tempos, naturalmente, mas que sozinhos não contam toda a história. Tem muita coisa que não entra nas estatísticas básicas, como os passes certeiros que geram assistências justamente por fazer a bola rodar rápido ou a capacidade de abrir a quadra com a simples presença atrás da linha de três, mesmo que nem chegue a ser acionado.

O fato é que Marcelinho continua sendo um jogador relevante dentro do NBB, capaz de sair do banco e infernizar a vida de marcadores muito mais jovens durante os minutos que permanecer em quadra. “Eu sempre cuidei muito da minha parte física, e meu biotipo ajuda também. Estou me sentindo muito bem. Claro que não vou correr como um garoto de 20 anos, mas a experiência te ajuda a conhecer melhor certos atalhos na quadra. E às vezes os mais novos não têm ainda esse entendimento”, conta.

Temporada de homenagens

Um dos pontos altos do Jogo das Estrelas de 2018 foi a cerimônia que a organização do evento preparou para reverenciar um dos grandes nomes do basquete brasileiro nestes últimos anos. Marcelinho ganhou um par de tênis personalizado da Nike, viu uma mensagem de Kobe Bryant no telão do ginásio e recebeu aplausos do público que lotou o Ibirapuera.

“É um orgulho chegar ao fim de um carreira tão longa como a minha tendo reconhecimento de tanta gente legal”, relata o ídolo flamenguista, que passou a receber o carinho e o reconhecimento de outras torcidas ao longo desta temporada de despedida.

“Eu não tinha expectativa nenhuma sobre como esse tipo de coisa seria por causa da cultura de torcida que existe por aqui, que é bem diferente em relação ao que acontece lá fora. Mas fui surpreendido positivamente com homenagens em lugares nos quais sempre encontrei muita rivalidade. Ficou bem claro que era tudo coisa de dentro da quadra, para tentar ganhar o jogo de maneira honesta e limpa, sem afetar o grande respeito que há fora das quatro linhas.”

O amanhã

“Técnico? Não, não”, responde Marcelinho, ao ser perguntado se pretendia seguir essa nova carreira no basquete depois que parar de jogar. “Pelo menos hoje eu não penso em virar técnico, não, mas não sei como será amanhã”, ele completa.

Por mais que deixe essa possibilidade em aberto para um ponto distante no futuro, ele já tem uma ideia bem clara sobre como serão os primeiros passos após a aposentadoria. O basquete não vai sair de cena, mas essa relação será de um jeito diferente.

“Tenho um projeto social prestes a sair do papel”, revela Marcelinho. “É uma área em que nosso país tem uma necessidade grande, para dar oportunidade a crianças que não têm as oportunidades que eu tive. Eu vi muitos amigos meus que não viraram jogadores, mas que tiveram no esporte uma grande ajuda para formar o caráter deles. Então é esse meu foco inicial. Quero cuidar disso com muito carinho.”

O que vai ficar?

A disputa cabeça a cabeça do Flamengo com o Paulistano pela liderança do NBB ajuda a mostrar o quanto Marcelinho se encontra em uma boa condição de se despedir das quadras com mais um título. Seria um final com chave de ouro de uma carreira marcada por conquistas. Mas independentemente disso acontecer ou não, como será que ele ficará marcado assim que deixar a quadra pela última vez como jogador? Que imagem dele vai ficar para o basquete brasileiro?

“Muito mais do que as bolas de três e os passes, espero que fique a minha postura e meu comprometimento com os companheiros e com a modalidade”, ele reflete. “A postura de treinamento, o respeito a companheiros e adversários. Acho que isso é mais importante do que as conquistas e os arremessos.”

O episódio no treino um dia antes do Jogo das Estrelas chamou a atenção de Gustavo De Conti pela mentalidade vencedora. Para José Neto, uma outra característica especial de Marcelinho é a liderança pelo exemplo.

“Ele procura fazer o melhor que pode para que o grupo toda veja que dá para se ter êxito daquela maneira. Acho que o grande legado que ele vai deixar é que não adianta só falar. É preciso ter atitudes condizentes com aquilo que se fala”, opina o treinador.

Murilo concorda com essa característica levantada por José Neto. “O Marcelinho é o maior líder que eu conheci. Ele briga pelos jogadores, é sempre o primeiro a dar a cara a tapa. Eu não sei como foi antes de eu começar a carreira, mas dentre os jogadores que conheci, ele foi o maior líder do basquete brasileiro em termos de grupo. Disparado”, afirma o pivô do Vitória.

Essa liderança dele também foi que marcou Leandrinho. “O Marcelinho sempre procurou me dar conselhos quando estava começando a jogar, não só com coisas de quadra, mas sobre a carreira de maneira geral”, diz. “É alguém por quem tenho um grande carinho e que considero parte da minha família.”

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