“Para tentar salvar a temporada”

Luís Araújo

Nas discussões sobre quais treinadores começariam a temporada 2017/18 ameaçados em seus cargos, o nome de David Fizdale dificilmente aparecia. Mas a crise que o Memphis Grizzlies mergulhou nas últimas semanas acabou custando o emprego dele, que se tornou o segundo comandante a ser mandado embora com o campeonato em andamento. O primeiro foi Earl Watson, demitido do Phoenix Suns depois de apenas três partidas, nas quais os jogadores simplesmente não tentavam fazer nada em quadra, fazendo questão de mostrar falta de empenho a cada posse de bola.

A gota d’água foi a derrota para o Brooklyn Nets, a oitava consecutiva do Grizzlies na temporada. Ao ver o seu time acabar o terceiro quarto com uma desvantagem de 14 pontos, Fizdale optou por uma estratégia pouco convencional e que naturalmente chamou bastante a atenção: deixar Marc Gasol no banco durante todo o último período. A justificativa do então treinador foi que os reservas estavam jogando melhor e que ele se sentiu na necessidade de arriscar porque estava desesperado por uma vitória.

Gasol nem tentou esconder a insatisfação com o ocorrido após o jogo. “Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo e eu não gostei nem um pouco. Estou mais frustrado com isso do que consigo mostrar no momento”, declarou o espanhol. “Eu odeio não jogar. Isso é o que eu mais valorizo. Se não estou em quadra, significa que não sou valorizado”, ele completou, antes de finalizar o raciocínio dizendo que duvidava que esse tipo de coisa aconteceria com Mike Conley.

Não demorou nem 24 horas depois disso tudo para que a demissão fosse anunciada pelo Grizzlies. Notícia que não foi bem recebida por muita gente ao redor da NBA, especialmente por dois jogadores do Cleveland Cavaliers: LeBron James e Dwyane Wade, que foram campeões no Miami Heat ao lado de Fizdale, que era auxiliar de Erik Spoelstra. Ambos se pronunciaram no Twitter cobrando respostas pelo o fato de alguém que tanto respeitam ter perdido o emprego.

LeBron voltou a falar sobre o assunto antes de entrar em quadra com o Cavs para uma partida contra o Philadelphia 76ers. “Todo mundo no meio do basquete ficou surpreso com a demissão dele. Não sei os detalhes por trás disso porque não estou por perto do Grizzlies, mas eu o conheço, sei da maneira como os jogadores se relacionam com ele e sei das coias que ele defende. Talvez tenha sido esse o motivo. Porque ele não puxa saco de ninguém”, afirmou.

Vince Carter, que era jogador do Grizzlies até a temporada passada, disse se sentir muito mal por saber da demissão de um sujeito como Fizdale, a quem ele classificou como uma pessoa preocupada em desenvolver seus comandados para além das quadras de basquete. E Gregg Popovich falou que está confiante de que o treinador recém-demitido não ficará muito tempo sem emprego na NBA.

Chris Wallace, gerente-geral do Grizzlies, tentou explicar a decisão de romper os laços com Fizdale. “Nós precisávamos de uma mudança para tentar salvar a temporada. Olhando para onde estamos no momento, não existiam muitas expectativas animadoras. Esperamos ter um recomeço positivo”, ele declarou, antes de admitir que de fato havia uma tensão entre o ex-treinador e Gasol: “Foi um fator que contribuiu para essa nossa escolha, mas também não foi o fator de maior importância.”

Pelas informações que foram saindo de quem acompanha a história de maneira mais próxima, essa rusga entre os dois já vinha se arrastando havia um tempo. Jonathan Givony, da ESPN dos EUA, escreveu no Twitter que o clima entre Gasol e Fizdale já era ruim ao final da temporada passada, depois que os dois se desentenderam algumas vezes nos treinos, e que parecia ser questão de tempo até o Grizzlies ser forçado a decidir com qual dois dois ficar.

A escolha de Wallace foi por Gasol, que pode tranquilamente ser colocado como o principal jogador da história da franquia. Dá para entender essa resistência à ideia de se abrir mão de alguém tão simbólico como o espanhol ou como Mike Conley, outro ícone dos tempos mais gloriosos que o Grizzlies já teve nestes pouco mais de 20 anos de existência. É uma maneira de mostrar valorização dos ídolos, o que não deixa de ser uma cultura importante para os torcedores e para imagem que a franquia busca passar para o restante da liga. Tudo isso é compreensível.

Por mais que Fizdale seja respeitado por um monte de gente e que sua demissão não tenha sido bem vista por outros colegas de NBA, as coisas seriam muito complicadas para o Grizzlies caso ele tivesse sido mantido. Diante dos fatos apresentados com relação ao desgaste com a maior estrela da companhia, a preferência pelo treinador fatalmente levaria à troca de Gasol, que tem salário anual na casa dos US$ 25 milhões e tem contrato até 2019, com opção ainda de prorrogá-lo por mais um ano.

Se esse caminho de reconstrução fosse mesmo adotado, o mesmo procedimento seria feito com Conley — com a diferença que quase todos os times têm a posição de armador bem preenchida e mesmo aqueles que não têm dificilmente topariam oferecer muita coisa por alguém que já passou dos 30 anos. Mesmo que os dois rendessem escolhas de primeira rodada e algum alívio na folha salarial, o Grizzlies precisaria construir algo em cima desta implosão, o que poderia ser um problema para uma franquia que fez alguns péssimos trabalhos com escolhas de Draft nos últimos anos e avaliou tão mal jovens jogadores de uma maneira geral.

Mas ao falar em “tentar salvar a temporada”, Wallace deixa claro que não está pronto para implodir nada, que ainda vê sentido em apostar no presente e que tem esperanças em ver o time voltar a vencer e brigar por um lugar nos playoffs do Oeste. Caberá a JB Bickerstaff, que era auxiliar e agora assume o cargo de treinador de maneira interina, dar um jeito de corresponder a essas expectativas. É um caminho que também passa longe de não apresentar obstáculos consideráveis. Primeiro porque essa série de derrotas já deixou o Grizzlies em uma posição na qual será preciso dar uma boa remada para sonhar novamente com um espaço entre os oito melhores da conferência. Além disso, Conley está machucado e Bickerstaff não teve uma experiência muito animadora quando precisou ficar à frente do Houston Rockets dois anos atrás, depois da demissão de Kevin McHale.

Mas o grande problema mesmo é que ainda não parece haver um caminho definido para fazer todas essas variáveis funcionarem para um time como o Grizzlies — que, é bom que se diga, não espantaria ninguém se ficasse fora dos playoffs em meio a toda essa competitividade da Conferência Oeste. A mentalidade cobrada do elenco será mais ou menos como a que Fizdale estava disposto a colocar em prática antes da temporada? Com um ritmo de jogo mais acelerado, mais chutes de três e mais protagonismo dos seus dois principais jogadores na hora de definir os ataques? Ou Bickerstaff será, na verdade, uma ponte para a volta aos hábitos antigos deste time, que por muito tempo andou na contramão da NBA?

São muitos pontos de interrogação, não tem jeito. Seria assim qualquer que fosse a decisão que Wallace resolvesse tomar. A única coisa que dá para dizer com alguma segurança é que está muito difícil imaginar o Grizzlies, em meio a todas essas dúvidas, conseguindo salvar a temporada.

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