Passou da hora de esquecer do rótulo “armador de ofício”

Luís Araújo

Quem acompanha basquete há algum tempo fatalmente já deve ter ouvido o termo “armador de ofício”. Em geral, ele vem acompanhado de um conjunto de regras que esse tipo de jogador deve ter em quadra e muitas vezes é apontado como receita para um determinado time ter sucesso, como se não fosse possível vencer campeonatos sem alguém assim no quinteto principal.

Mas será que não passou da hora, e já há algum tempo, de olhar as coisas de maneira diferente? O melhor jogador do mundo na atualidade pode ajudar a nos mostrar que esse pensamento tradicional não faz tanto sentido. Peguemos, por exemplo, essa ação de LeBron James nos playoffs de 2008, durante a série que culminou na eliminação do Cleveland Cavaliers para o Boston Celtics.

Ele chama o bloqueio de Joe Smith e ataca a cesta. No momento em que entra no garrafão e começa a fazer o movimento para definir, dois marcadores estão em cima dele e outros dois correm para ajudar, atraídos como se o camisa 23 do Cavs tivesse um ímã. É que LeBron é uma aberração física e enterrou na cabeça de quem apareceu pela frente mesmo assim, mas vale a pena reparar no espaço que se abriu para Daniel Gibson, posicionado atrás da linha de três pontos no lado esquerdo da quadra.

Na teoria, na hora de listar as posições de quem estava em quadra e tal, era Gibson o armador do time. Mas não foi assim na prática. Neste caso, pouco importava se ele tinha ou não as qualidades que o faziam se encaixar no rótulo de “armador de ofício”. A única coisa que bastava era ser um bom complemento, capaz de ameaçar de algum jeito se for acionado. Coisa que ele era: o aproveitamento nas bolas de três de 44% naquela temporada e de mais de 40% ao longo da trajetória na NBA fazia a defesa sempre correr um grande risco quando optava por deixá-lo livre.

Não é nada raro ver LeBron exercendo a armação de jogadas dos seus times. O lance abaixo, ocorrido na série que decidiu o título da última temporada, é mais uma amostra disso. Ele chamou o “pick and roll” com Tristan Thompson, forçou a infiltração, viu a porta fechada, identificou a passagem do companheiro e o acionou com um passe espetacular no meio da defesa para completar a jogada.

Neste Cavs campeão, é Kyrie Irving quem ocupa o papel que Daniel Gibson desempenhava em 2008: o do jogador que é armador apenas nas escalações oficiais, mas que precisa mesmo é ser uma ameaça sem bola para as defesas para virar um bom complemento a LeBron. Ele não só atende a isso como faz muito melhor. Além de punir nas bolas de longe, é capaz de ser acionado e cortar para dentro do garrafão se for o caso, a fim de continuar desequilibrando a marcação adversária e criando espaços para definição.

Não é surpresa nenhuma, portanto, que em muitos ataques Kyrie corra direto para fora da linha de três ao passo que LeBron conduz a bola e inicia as ações ofensivas. O lance abaixo, mais um da série contra o Golden State Warriors que valeu o título de 2016, ilustra bem isso.

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Depois de receber um bom bloqueio de JR Smith, que conseguiu iludir a cobertura de Stephen Curry, LeBron invade o garrafão. Naturalmente, toda a defesa é atraída. Inicialmente responsável por Kyrie, Klay Thompson é um dos que correm para tentar fechar os espaços do craque do Cavs.

Jogar a bola por cima de Draymond Green para Tristan Thompson completar a enterrada acabou sendo mesmo a melhor escolha para somar pontos nesta posse de bola. Mas é interessante observar que neste momento Kyrie fica completamente livre, já que Klay Thompson teve de largá-lo. Seria uma alternativa interessante caso necessário.

Olhar para o que LeBron faz há tempos é muito bom para a desconstrução do mito do “armador de ofício”. Afinal de contas, a última coisa que um time dele precisa é alguém do tipo, que tem a necessidade de controlar a bola e pouco acrescenta sem ela. Mas há outros jogadores que podem ajudar a quebrar as tais regras que envolvem esse rótulo.

Como, por exemplo, Stephen Curry e Russell Westbrook. São, sim, dois dos melhores armadores da atualidade, mas devem chocar frequentemente quem imagina que jogadores da posição têm a necessidade de dar assistência e não podem arremessar bastante.

Vamos por partes. Westbrook dá muitas assistências, mas também concentra muitos arremessos da sua equipe. Nesta temporada 2016/17, já sem Kevin Durant no Oklahoma City Thunder, teve um jogo no qual chutou 44 vezes. Além disso, ele também coleciona desperdícios de posse de bola em uma quantidade que em um primeiro momento pode parecer condenável. Mas é necessário olhar para fora dos números neste caso e entender o que há em volta. Isso é tudo resultado de uma postura ultra agressiva que ele adota e que funciona para concentrar as atenções das defesas adversárias, que entram em quadra já sabendo que do outro lado está alguém que vai levar o caos toda hora que estiver com a bola nas mãos.

Dá para criticar, vez ou outra, as escolhas de Westbrook para definir as jogadas. Não é raro vê-lo subindo desequilibrado para a bandeja depois de se atrapalhar nas passadas, principalmente quando corta pela esquerda. Também dá para torcer o nariz quando ele recebe um bloqueio e resolve chutar de média distância, algo que não é uma força no seu jogo. Mas é, sim, fundamental que ele continue atacando com agressividade e desequilibrando as defesas adversárias porque elas sempre estarão em alerta enquanto isso acontecer. Os erros, assim como o número elevado de arremessos, acabam sendo parte do processo, paciência. Mas também é justo considerar que muitos destes desperdícios acabam sendo passes para fora ou terminam com a bola morta de algum outro jeito, o que não dá contra-ataques para os oponentes. Dos males, o menor.

Curry não dá tantas assistências quanto Westbrook. Na temporada em que se tornou o primeiro MVP unânime da história da NBA, quem liderou o Warriors no quesito foi Draymond Green — um ala-pivô que muitas vezes vira pivô, dependendo da formação que estiver em quadra. Mas não quer dizer que ele deixou de ser um facilitador para um ataque extremamente eficiente nos momentos em que teve a bola nas mãos. Pelo contrário. Sua capacidade de chutar de três a partir do drible e a uma distância cada vez maior da cesta passou a despertar nas defesas a preocupação de avançar mais a mais para combatê-lo.

 

Um bloqueio que aparece nestas situações basta para que Curry consiga fazer estragos. Dependendo de como o espaço surgir, ele pode tanto chutar de longe como aproveitar o corredor livre para o garrafão e infiltrar facilmente. E se a marcação dobrar nestes bloqueios que recebe ainda longe da cesta, ele consegue encontrar a melhor alternativa para o passe. Muitas vezes, o acionado é Green, que pode tanto definir quanto se aproveitar da cobertura da defesa rival para fazer um novo passe e encontrar um companheiro com mais espaço. Essa assistência entra nas estatísticas. Mas o passe de Curry que originou toda essa movimentação, não.

O que também acontece muito no Warriors e que vale a pena ser apontado nesta questão é o uso de Curry sem bola. Em muitas oportunidades, Andre Iguodala, Shaun Livingston ou o próprio Green iniciam os ataques, enquanto o camisa 30 passa a ter a preocupação de correr pelos bloqueios dos companheiros até aparecer em um canto da quadra em condição de receber a bola livre para o arremesso. Nestes casos, o armador da equipe não está sendo ele, obviamente, mas sim algum outro jogador que certamente não é listado como dono desta posição nas escalações oficiais.

Não são apenas jogadores da atualidade que desafiam as certezas que um dia alguém criou sobre os “armadores de ofício”. Não faltam exemplos também no passado que desafiam essa maneira tradicional de se encarar a posição. Mas hoje isso está muito mais forte, não só pela quantidade de estrelas que fazem isso como pelo volume de oportunidade que temos de vê-las em ação e de informações sobre o jogo de maneira geral. É uma ótima oportunidade para o rótulo ser enterrado de vez.

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