Por que tanta reverência a Manu Ginóbili?

Luís Araújo

Finais do Oeste de 2014. Jogo 1. Ou 2, talvez. Não importa tanto. Manu Ginóbbili cortou seu marcador pela esquerda, entrou pelo meio do garrafão do Oklahoma City Thunder, sofreu uma falta e ficou caído no chão. Patty Mills, jogador do San Antonio Spurs mais perto dali, prontamente ofereceu o braço para ajudar o companheiro a se levantar. Assim que o fez, tomou uma bronca do argentino, que o mandou continuar parado na zona morta em lances do tipo ao invés de correr para perto da cesta. Assim, a expressão de quem provavelmente esperava qualquer demostração de gratidão rapidamente deu lugar a um semblante de total concentração ao que estava sendo dito.

Três anos depois. Semifinais de conferência. Jogo 5 da série contra o Houston Rockets. Prorrogação. James Harden subiu para o arremesso de três que empataria a partida e forçaria mais cinco minutos de tempo-extra. Mas a bola acabou nem chegando à cesta porque a mão de Ginóbili a alcançou por trás e impediu o disparo. Tocaço. Decisivo. Matou o jogo. Coisa linda, protagonizada por alguém que estava muito longe de ter o hábito de distribuir tocos, mas que naquele momento apareceu com a leitura certa e com “timing” preciso para fazer exatamente o que seu time precisava para sacramentar a vitória.

São episódios como esses que ajudam a simbolizar o que Ginóbili representou para o Spurs ao longo de uma década e meia. Essa combinação de espírito de liderança com leitura de jogo no lance com Mills, o negócio de parecer estar no lugar certo e na hora certa quando sua equipe mais precisava, um passe milimétrico em um ângulo pouco favorável aqui, um “eurostep” ali, um corte seco seguido de uma enterrada destemida na cabeça de algum adversário maior lá. A composição do argentino enquanto jogador passava por todos esses fatores. Era poesia pura, capaz de dizer muito mais do que a frieza dos números muitas vezes dizia.

Gregg Popovich sabe disso melhor do que ninguém. A relação com o argentino representou um marco na sua trajetória como treinador. Ginóbili o transformou a partir do momento em que o fez aceitar o seu jeito imprevisível. “As coisas não acontecem de um dia para o outro. Mas quando você o vê jogar, percebe que se trata de um talento único e de um competidor único. Fechar a boca e tentar não ser um técnico tão duro é muito melhor nestes casos, deixando um jogador tão abençoado mostrar o que é capaz de fazer e como pode te ajudar a levar seu time à vitória”, disse certa vez o comandante do Spurs.

“Pop tinha um jeito de comandar e o Manu veio como uma espécie de pássaro livre”, contou Tony Parker. “Era tipo um louco do bem, que fazia as coisas acontecerem. Pop era inteligente o bastante para se ajustar e o Manu entendeu o que o Pop queria. E eles encontraram um meio-termo.”

Nestes anos todos em que atuou na NBA, foram só duas participações em “All-Star Game”, algo que em um primeiro momento pode parecer pouco em uma comparação a outros grandes astros da liga. É o mesmo número de aparições de Luol Deng, por exemplo. Ou só uma a mais do que Jamal Magloire. A lista de prêmios individuais se resume ao trofeu de melhor reserva de 2008, mesmo título que Ben Gordon chegou a ganhar antes de desaparecer da NBA sem deixar saudade. Em nenhuma temporada a média de pontos por partida de Ginóbili atingiu a casa das duas dezenas. E a média de assistências por jogo nunca chegou a cinco.

Pode até parecer tudo discreto demais perto do que conquistaram outros grandes gênios que causaram enorme comoção ao se despedirem do basquete. Daí para que tudo isso seja questionado com ferocidade por algum desavisado com o passar dos anos é um piscar de olhos. Por que esse argentino é tão reverenciado na NBA, em que pese tudo o que fez pela seleção do seu país e pela Europa? As pessoas eram idiotas por supervalorizarem um cara que teve números tão discretos e sem tantas conquistas individuais?

Acontece que a grandeza de Manu Ginóbili não fica só por aí. E nem pode ficar. Qualquer tentativa de diminuir a carreira dele na NBA com base nestes argumentos, sem levar em conta o contexto em que toda essa história foi escrita, é um absurdo. Chega a ser desonestidade intelectual. A quantidade de idas ao “All-Star Game” na vida de um jogador é muito circunstancial. Os números não tão gordos podem ser explicados em parte pelo papel de sexto homem que ele abraçou como poucos na história do jogo, mas o instinto pontuador e a habilidade para atuar como facilitador quando tinha a bola nas mãos era evidente para qualquer um que parasse para vê-lo com um pouco mais de atenção. Bastava só alguns minutos para isso tudo aparecer. Isso sem voltar naquela questão com Popovich. Quantas pessoas podem dizer que mudaram a maneira de trabalhar de uma das mentes mais brilhantes que o basquete já teve?

A grande pergunta que pode ser feita em meio a tudo isso é: quão pesado foi Ginóbili dentro deste processo de construção e manutenção desta identidade do Spurs, que se tornou um dos maiores exemplos de sucesso duradouro da NBA de todos os tempos? E aí a resposta é claríssima para quem o acompanhou: um peso enorme. Ainda que tenha desempenhado papel de sexto homem durante praticamente toda a trajetória em San Antonio, ele foi muito mais do que um mero reserva. Era uma peça fundamental dentro de um modelo extremamente competitivo e que começava no banco por pura questão estratégica, até como uma forma de fazer vários outros elementos desta engrenagem se encaixarem. Mas nas horas cruciais mesmo, ele estava lá na quadra. E é seguro afirmar que esse temido bicho papão do Oeste por muitos anos não teria sido tão poderoso sem essas doses de uma imprevisibilidade genial.

Idiotice, no fim das contas, é deixar de reverenciar o gênio que Ginóbili foi na NBA. Que a noção geral sobre o impacto gigantesco em uma cultura reconhecidamente vencedora se sobreponha sempre qualquer tipo de opinião rasa centrada em estatísticas básicas. Quem viu sabe muito bem o quanto foi especial essa história que o argentino construiu em San Antonio. Quem não viu pode conversar com quem viu, ler relatos da época, buscar vídeos ou tentar dar qualquer outro jeito de entender todo esse impacto. Porque o fato de a camisa 20 do Spurs não poder ser mais usada por ninguém daqui para frente faz todo o sentido do mundo.

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