Qual a situação da seleção um ano após eliminação na Olimpíada?

Luís Araújo

Um ano se passou desde que a seleção brasileira masculina entrou em quadra pela última vez. A vitória sobre a Nigéria não foi suficiente para tirar o time da quinta colocação do grupo e, consequentemente, evitar a eliminação logo na primeira fase da Olimpíada do Rio de Janeiro.

Essa queda precoce serviu como um imenso balde de água fria em cima de uma equipe que despertou muita expectativa antes do torneio olímpico, aparecendo até entre as candidatas a uma medalha. Foi também um marco importante de mudança de ciclo. A média de idade elevada daquele elenco já deixava claro que um processo de renovação precisaria ter início a partir daquela competição, independentemente dos resultados.

Em uma comparação a outras seleções consideradas fortes, dá para dizer que o leque de convocáveis do Brasil — em termos de quantidade mesmo, não qualidade — não era tão amplo assim. Rúben Magnano até tentou agir em cima desta questão. O Pan e a Copa América de 2015 foram usados como laboratórios de experiência para jovens com boas doses de talento em quadras nacionais, mas com pouca rodagem internacional. Só que isso foi apenas o começo de um processo que leva tempo mesmo para dar resultado.

É aí que entram Cesar Guidetti e tudo o que estamos prestes a ver na Copa América. A competição não vale mais vaga no Mundial. Também não sabemos se o treinador, anunciado como interino, vai permanecer depois disso. Mas usar a competição continental como experiência para gente ainda pouco testada em nível internacional é muito importante.

Do grupo convocado por Guidetti, Rafael Hettsheimeir é o único que esteve nos Jogos do Rio. O pivô, que acertou o retorno para Bauru, pediu dispensa pouco depois por causa de um problema no tornozelo, mas iria para a Copa América se estivesse saudável como uma espécie de líder para os demais jovens. Aos 31 anos, ele acumula participações em Mundial e Olimpíada com a seleção e deve ter ainda mais uns anos de basquete em bom nível para oferecer. É um nome que deverá continuar aparecendo com frequência neste novo ciclo da seleção brasileira.

O mesmo pode ser dito por jogadores mais jovens que ele e que também foram à Olimpíada. Cristiano Felicio, por exemplo, não teve tanto espaço assim no Rio, ate por ter se juntado ao restante do elenco em cima da hora, depois do corte de Anderson Varejão. Mas é inegável que o pivô vem em curva ascendente na carreira. Os minutos na última temporada da NBA com o Chicago Bulls e o novo contrato que recebeu ajudam a mostrar isso. Raulzinho não foi tanto utilizado assim pelo Utah Jazz, mas continua fazendo parte de um time que foi semifinalista do Oeste e, mais importante ainda, mostrou-se um colaborador bastante sólido quando precisou aparecer pela seleção.

Augusto Lima também. O pivô já tinha participado da conquista da vaga olímpica em 2011, na Copa América de Mar del Plata, foi um dos que mais se destacou naquele período de experiências de 2015 e chegou a ser titular no Rio de Janeiro. Na última temporada, começou 19 das 30 partidas que fez com o Zalgiris, da Lituânia, na Euroliga. Vitor Benite e Rafa Luz seguem a linha de remanescentes mais jovens do time olímpico e de quem se espera um papel um pouco maior dentro da seleção nos próximos anos. Os dois também estão na Europa e foram peças utilizadas com regularidade nas rotações de Murcia e Baskonia, respectivamente, na liga espanhola.

Dos mais veteranos que vinham formando o grupo de confiança de Magnano nas últimas competições, o único que de fato anunciou aposentadoria da seleção é Guilherme Giovannoni. Alex chegou falar que a Olimpíada do Rio seria a sua despedida, mas mudou de ideia depois do título do Bauru no NBB. Ele foi o MVP das finais, continua sendo referência defensiva e até poderia continuar sendo útil para a seleção hoje, mas já tem 37 anos. Nenê, Leandrinho, Marcelinho Huertas e Marquinhos têm mais de 33. Todos eles, assim como Alex, poderiam ser chamados se uma outra grande competição fosse acontecer amanhã, mas não é esse o caso. Se no Mundial eles ainda estiverem em boa condição, ótimo. Lucro. De qualquer jeito, porém, demandam renovação com urgência.

Vale também lembrar de outros dois jogadores com mais de 32 anos, que têm histórico extenso pela seleção, mas que acabaram não disputando a Olimpíada. Tiago Spitter nem foi convocado porque se recuperava de uma cirurgia no quadril. Depois disso, participou de oito jogos na reta final da temporada da NBA pelo Philadelphia 76ers. Já Anderson Varejão foi cortado na fase de amistosos por causa de uma hérnia de disco na lombar. Recuperou-se com o tempo e disputou 17 partidas pelo Golden State Warriors antes de ser dispensado. Está até agora sem equipe. A última vez que entrou em quadra foi no dia 2 de fevereiro, quando atuou por oito minutos em uma vitória sobre o Los Angeles Clippers.

Para ampliar o leque de convocáveis, o primeiro passo seria amadurecer o pessoal que não participou de Mundiais e Olimpíadas, mas que estava nas experiências de 2015. São os casos de Ricardo Fischer e Léo Meindl. O armador não teve uma boa temporada no Flamengo, mas está a caminho da Espanha, onde poderá continuar a se desenvolver de maneira bem interessante, e estava em ótima fase antes de se lesionar — quando ainda defendia o Bauru. Sobre o ala, dá para dizer que ele é hoje um jogador muito melhor do que era há dois anos. É claro que essa evolução ainda precisa ser provada em nível internacional, mas não é exagero esperar coisas boas dele.

Rafael Mineiro é outro que participou das experiências de 2015 e que, assim como Léo Meindl, está na lista da Copa América. Pode não ser o mais talentoso em meio às opções do garrafão, onde o Brasil ainda parece estar mais bem servido. Mas tem algumas qualidades especiais, sobretudo defensivas, que podem ser extremamente úteis na formação de um elenco competitivo. Para uma seleção que deseja aumentar o leque de opções, é um nome que ainda não pode ser descartado.

E é claro que outro passo importante deste processo de renovação é aumentar esse número de jovens testados na seleção e dar maior bagagem a quem ainda tem pouca experiência internacional. Yago, Jaú e Michael foram vítimas da suspensão que a Fiba aplicou à CBB até esse primeiro semestre. Seja lá quem continuar comandando a seleção, seria bom se fosse encontrado um jeito de ajudar esses três a recuperarem o tempo perdido. Lucas Dias, Arthur Pecos, Alexey e Georginho são jovens que apareceram até melhor que os outros três no último NBB e que agora precisam dar o próximo passo em quadras fora do Brasil, em um nível de competitividade maior.

Tem ainda a dupla do Toronto Raptors. Lucas Bebê até andou sendo mais utilizado na última temporada, mas ainda não teve a oportunidade de se juntar à seleção. Por mais que tenha perdido espaço na rotação nos playoffs, mostrou defesa sólida e uma evolução bastante interessante no ataque também, completando pontes-aéreas e encaixando bons passes para continuar a desequilibrar as marcações adversárias.

Já Bruno Caboclo não entra em quadra na NBA. Estar no ambiente do Raptors, receber atenção especial, fazer treinamentos específicos e poder jogar a D-League sâo experiências positivas e que devem ser vistas como melhorias consideráveis em relação aos tempos em que estava por aqui, mas não é o suficiente para evitar que ele seja visto como incógnita até o momento. Quanto mais cedo esses dois puderem começar a serem testados com a seleção, melhor.

A filosofia estabelecida para a Copa América é um bom primeiro passo nesta direção, mas só teremos noção do resultado disso tudo quando chegar a hora de fazer a convocação para o próximo Mundial. Isso, é claro, se o Brasil de fato estiver lá.

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