A rivalidade que serviu de combustível para Kobe Bryant

Luís Araújo

Na última visita que fez ao San Antonio Spurs como jogador de basquete, Kobe Bryant foi recebido com festa e viu um vídeo em sua homenagem ser exibido no telão do ginásio. Em seguida, ouviu aplausos de um público que cansou de tratá-lo de forma hostil em outras oportunidades. O sentimento de admiração acima de qualquer batalha do passado é mútuo. Antes de ir para a quadra, o craque admitiu que a rivalidade com o Spurs serviu de combustível para a carreira.

Mas por quê? Como exatamente? A resposta disso passa pela primeira vez em que encontrou o rival nos playoffs. Foi em 1999, na semifinal do Oeste. O Spurs varreu o Lakers e continuou a caminhada que culminaria no primeiro dos cinco títulos da franquia. Perder daquele jeito foi uma grande lição.

“Quando entrei na liga, jogava com muita emoção e muita raiva. Mas o duelo com o Spurs em 1999 realmente me mostrou um outro nível de frieza e disciplina que eles tinham. Foi quando percebi que precisava elevar o meu jogo àquele nível e rápido. Eles me ajudaram a alcançar isso”, refletiu Kobe.

O encontro de 1999 foi o primeiro dos seis entre o craque do Lakers e o Spurs nos playoffs. O histórico aponta vantagem para o time de Los Angeles. Mas o mais curioso nisso tudo é notar que o vencedor de cada duelo acabou chegando à final em todas as oportunidades.

1999 – Semifinal de conferência – Spurs venceu por 4 a 0, foi à final e ganhou o título
2001 – Final de conferência – Lakers venceu por 4 a 0, foi à final e ganhou o título
2002 – Semifinal de conferência – Lakers venceu por 4 a 1, foi à final e ganhou o título
2003 – Semifinal de conferência – Spurs venceu por 4 a 2, foi à final e ganhou o título
2004 – Semifinal de conferência – Lakers venceu por 4 a 2, foi à final e perdeu o título
2008 – Final de conferência – Lakers venceu por 4 a 1, foi à final e perdeu o título

*teve ainda um duelo em 2013, vencido pelo Spurs em quatro jogos, mas Kobe estava afastado por causa da lesão no tendão de Aquiles e não entrou em quadra

A simples repetição de confrontos ao longo dos anos entre equipes tão poderosas já seria o bastante para construir uma grande rivalidade. Mas a coisa ficou mais apimentada depois que Phil Jackson, contratado como técnico do Lakers para a temporada 1999/2000, disse que o título do Spurs no campeonato anterior deveria ter um asterisco, referindo-se à menor duração da competição por causa do locaute.

O pessoal em San Antonio não gostou, é claro. David Robinson ainda foi mais elegante ao dizer que o asterisco deveria estar marcado no anel de campeão dele. Mas Terry Porter resolveu responder de maneira mais dura. “Ele insulta os jogadores que estavam aqui no ano passado e tudo o que eles fizeram. Eu imagino se ele teria seis títulos sem Michael Jordan e Scottie Pippen. Queria ver se esse negócio zen dele funcionaria em Dallas ou em Vancouver”, declarou o ex-armador, que depois virou técnico.

Não foi algo que partiu de Kobe, mas ele acabou sendo afetado de maneira indireta pela provocação. A contestação de um título tão esperado como aquele de 1999 acirrou os ânimos e acabou sendo transformada em motivação extra, o que aumentou o nível de competitividade do Spurs e deixou os duelos com o Lakers ainda mais cheios de tensão. Cenário ainda mais desafiador para quem quisesse superá-los.

O Lakers conseguiu, mas sem passar por San Antonio em um primeiro momento. Na caminhada para o título de 2000, os adversários derrotados antes da decisão contra o Indiana Pacers foram Sacramento Kings, Phoenix Suns e Portland Trail Blazers, ao passo que o Spurs tinha caído ainda na primeira fase. Mas, em 2001, o encontro aconteceu.

Por mais dominante que Shaquille O’Neal se apresentava nas proximidades da cesta naquela época, a equipe não teria virado uma máquina e atropelado todo mundo se não fosse por Kobe. Inclusive o Spurs, varrido na final do Oeste. “Eu não consigo acreditar no quanto ele está melhor, seja pontuando, defendendo ou nos colocando em posições livres para os arremessos. Todos nós estamos nos aproveitando dele”, disse Derek Fisher sobre o então companheiro, logo após a classificação.

Em 2002, a história se repetiu: o Lakers voltou a despachar o rival no caminho de um título. Foi o terceiro seguido de uma dinastia que só chegou ao fim no ano seguinte, justamente diante do Spurs. A série acabou no sexto jogo, que terminou com 28 pontos de diferença entre os times. Kobe não fez a menor questão de esconder a frustração e deixou a quadra chorando. “É uma sensação horrível, não quero passar por isso de novo nunca mais”, ele afirmou após a eliminação. Mas a revolta não o impediu de encontrar a clareza para reconhecer o trabalho de Popovich e companhia: “É duro perder. Ficamos sem passar por isso nos últimos três anos, mas eles executaram tudo muito bem. Há uma excelente equipe lá do outro lado.”

O confronto de 2004 ficou marcado pelo arremesso surreal de Derek Fisher com 0,4s no relógio. Isso foi na quinta partida, que aconteceu em San Antonio, e a série estava empatada até então. Abrir 3 a 2 fora de casa, ainda mais da maneira que foi, representa um golpe muito poderoso, do qual o oponente dificilmente tem força para reagir. O Spurs não conseguiu. “Foi uma grande série para a gente. No ano passado eles nos tiraram e agora tivemos a chance de devolver o favor”, comemorou Kobe, antes da derrota para o Detroit Pistons na decisão que levou a uma série de mudanças à sua volta.

Shaq saiu. Jackson também, mas depois voltou. Kobe passou um tempo sem um elenco de apoio bom o suficiente para voltar a pensar em título, tanto que ficou bem perto de se transferir ao Chicago Bulls em 2007. Mas o Lakers conseguiu se fortalecer, principalmente depois de tirar Pau Gasol do Memphis Grizzlies, e retomar o topo do Oeste em 2008.

Para que isso acontecesse, foi necessário passar pelo Spurs na final de conferência daquele ano. O Lakers venceu por 4 a 1, mas precisou reverter uma desvantagem de 17 pontos no quinto jogo para evitar que a série durasse mais. Kobe anotou 17 dos seus 39 pontos no último quarto para completar a reação e carimbar a vaga para a decisão.

“Foi um tremendo feito. Acho que o Oeste é extremamente complicado. Estamos todos muito animados e orgulhosos pelo o que fizemos. Agora é hora de seguir em frente e ver se conseguimos terminar o trabalho”, disse Kobe. A exemplo de 2004, o Lakers foi derrotado na final — desta vez, pelo Boston Celtics. A diferença é que ali era apenas o início de um ciclo que resultou em título nos dois anos seguintes.

No vídeo em sua homenagem que o Spurs exibiu no telão do ginásio antes de entrar naquela quadra pela última vez, Kobe viu personagens importantes do outro lado da rivalidade se derreterem em elogios. “É preciso estar preparado toda vez que compete contra ele, se não você vai passar vergonha”, disse Manu Ginóbli. “É um cara para se ficar de olho, se preocupar e ter medo porque ele sempre está pronto”, observou Tim Duncan. “Ele tem uma habilidade incomum de competir no nível mais alto noite após noite, e não tem muita gente capaz disso”, comentou Popovich.

Se Kobe, de acordo com o que ele próprio reconheceu, era agressivo e nervoso durante seus primeiros passos na NBA, a série de encontros com o Spurs em playoffs o levou ao limite e o forçou a desenvolver também o aspecto mental, o que acabou sendo muito importante no aperfeiçoamento do instinto assassino que o transformou em alguém tão especial na história do basquete.

Por mais que a inspiração em Michael Jordan e as tentativas de imitar os movimentos do ídolo o ajudaram tecnicamente, dificilmente ele teria sido o gigante que foi se não tivesse cruzado tantas vezes com um oponente tão desafiador. Ao mesmo tempo, também dá para dizer que as experiências contra um adversário como Kobe ensinaram muita coisa e foram fundamentais para a história recente de sucesso do Spurs. Não é difícil entender, portanto, o motivo pelo qual admiração e respeito aparecem antes de mais nada quando as duas partes envolvidas nesta rivalidade pensam uma na outra.

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