Ron Harper engoliu o orgulho para se tornar campeão

Luís Araújo

Durante a passagem pelo Brasil para participar do Jogo das Estrelas do NBB, Ron Harper separou a tarde de sexta-feira, antes do início do evento, para atender os jornalistas. O encontro aconteceu na cobertura do hotel onde se hospedou em Mogi das Cruzes. Ele se sentou e conversou pacientemente com todo mundo que apareceu por lá. O Triple-Double marcou presença e fez algumas perguntas ao ex-jogador, cinco vezes campeão da NBA.

Para conquistar esse anéis todos, uma postura foi fundamental. “É questão de engolir o orgulho”, disse Harper, referindo-se ao fato de ter aceitado deixar de ser cestinha para fazer poucos pontos no Chicago Bulls. Tudo porque queria muito ser campeão. O bate-papo também passou por Kobe Bryant, Golden State Warriors, mudanças no jogo e muito mais. Veja abaixo.

Triple-Double – Você sabe que tem muita gente aqui no Brasil que adorou te ver naquele episódio de Kenan & Kel, né?

Ron Harper – (risos) Nossa, isso faz muito tempo. Foi uma ótima experiência, muito divertida mesmo. Não tinha nem de fingir que estava jogando, era só a parte divertida. Foi legal fazer parte daquele programa.

Triple-Double – A carreira de Kobe Bryant está chegando no fim. Como foi trabalhar com ele no começo, quando ele não se dava tanto com Shaquille O’Neal e queria muito superar Michael Jordan?

Ron Harper – Os primeiros anos foram uma transição difícil para ele e todos os companheiros. Ele era orgulhoso, tinha um ego grande, um talento enorme e achou que poderia ser o melhor na NBA. Eu não tentei mudá-lo. O que tentei fazer foi ajudá-lo a fazer parte do time. Um jogador tem de acreditar nos companheiros. Se Shaq e Kobe tivessem ficado 20 anos juntos, poderiam ter conquistado mais uns dez campeonato. Kobe ainda ganhou mais dois sem Shaq, e Shaq ganhou um outro sem Kobe. Mas eles poderiam ter vencido muito mais juntos porque eram ótimos e tinham grandes companheiros, como Rick Fox, Derek Fischer e Tyronn Lue. Eram dois jovens que se conflitavam. Eles não souberam coexistir, e isso foi triste de se ver. Kobe era jovem, e acredito que ele mesmo admitiria que cometeu alguns erros naquela época. Assim como acredito que Shaq também admitiria isso. Acho que faz parte do amadurecimento.

Triple-Double – Você começou a carreira na NBA no Cleveland Cavaliers e fez parte de um time que reuniu bons jogadores, mas que nunca foi longe nos playoffs. O que faltou?

Ron Harper – Nós deveríamos ter vencido o Leste naquela temporada 1988/89. Tivemos o desfalque nos últimos jogos da fase de classificação do Mark Price, que sofreu um golpe do Rick Mahorn em uma partida contra o Detroit Pistons. Ele ficou fora do primeiro duelo dos playoffs, quando perdemos em casa para o Chicago Bulls. Aí a série foi até o quinto jogo, e todos sabemos o que aconteceu. Michael Jordan acertou aquele arremesso maluco. Éramos uma equipe bem jovem, de gente vinda do Draft de 1986. Tinha o Brad Daugherty, que foi primeira escolha. Eu fui a oitava, e o Mark Price saiu na segunda rodada. Havia o Hot Rod Williams. Éramos jovens, não tínhamos tanta experiência assim. Sabíamos que éramos novos e cresceríamos juntos com o passar dos anos.

 

Triple-Double – E você ficou frustrado quando o Cavs decidiu te trocar com o Los Angeles Clippers logo no começo da temporada seguinte?

Ron Harper – Eu sinto essa frustração até hoje. Nasci e cresci em Ohio. Tinha o sonho de jogar em casa. É sempre um sonho tentar dar um título para o time da sua casa. Foi triste quando aconteceu aquela troca, mas acho que me dei bem. Ganhei cinco anéis de campeão depois disso, então não posso ficar tão bravo assim, certo? Um pouco eu bravo eu fico, mas acontece.

Triple-Double – Na sua última temporada com o Clippers, antes de assinar com o Chicago Bulls, você teve média de mais de 20 pontos por jogo. Como foi chegar a um novo time e ter de mudar completamente essa postura?

Ron Harper – É questão de engolir o orgulho. Todo mundo tem orgulho, ego e amigos que adoram cobrar que você faça pontos e dê vários arremessos. Mas eu não precisava fazer pontos em Chicago. O time já contava com quem sabia fazer isso melhor do qualquer outro no basquete. Então por que eu tentaria fazer mais pontos que ele? Não fazia sentido. Tinha ele e Pippen, que também era ótimo nisso. Eu sabia fazer pontos, mas não precisava. Eu queria ganhar. Éramos bons em Cleveland, mas não passamos da primeira rodada dos playoffs. No Clippers também não, e eu comecei a pensar em como queria ir para um algum lugar onde poderia ganhar. Fiquei anos sem chegar longe nos playoffs, queria competir no nível mais alto. Há caras que se preocupam em quantos pontos vão fazer. Eu só queria ganhar. Era a única coisa com a qual eu me preocupava.

Triple-Double – Durante aquele tricampeonato com o Bulls, qual foi o momento que você sentiu a derrota mais próxima? Foi naquela final do Leste com o Indiana Pacers em 1998?

Ron Harper – Bom, chegamos a ficar em desvantagem durante o último quarto daquele jogo. Foi a única sétima partida de uma série que disputamos.  Parecia que a gente ia perder ali, sim. Mas a torcida começou a torcer com mais intensidade. E nós sabíamos que éramos um ótimo time, confiamos que as coisas poderiam melhorar se a gente defendesse duro, jogasse uma posse de bola por vez, desse a bola para o Michael Jordan e saísse do caminho dele. E foi o que aconteceu.

Triple-Double – Essa autoconfiança era o diferencial do time? Era o que o tornava tão forte?

Ron Harper – Nós sabíamos que éramos os melhores. Sempre que entrávamos em quadra para treinar, encarávamos aquela hora e meia como se fosse uma partida de verdade. Jordan era muito competitivo. Scottie Pippen, Toni Kukoc e eu também éramos. Cada exercício da atividade tinha uma competição dura. Nós nos provocávamos, falávamos besteira um para o outro e não queríamos perder de jeito nenhum. Quando a gente levava isso para dentro da quadra contra outros times, as coisas davam certo. Os adversários se preocupavam demais com a gente e não faziam com que a gente se preocupasse tanto assim com o que eles iam fazer.

Triple-Double – Esse aspecto se observa também no atual Golden State Warriors, não?

Ron Harper – O Warriors tem isso também. Os times se preocupam demais com eles, e eles não se preocupam tanto com os outros. O seu time não vai chutar mais que o Warriors. Você não pode simplesmente copiar o estilo deles. Eles chutarem 35 bolas de três em uma partida não significa que você deve fazer igual se esse não for o seu estilo e se você não tiver armas para isso no seu elenco. É preciso trabalhar da sua própria maneira e parar de tentar imitar o resto.

Triple-Double – Os armadores de hoje são realmente bem diferentes em relação aos dos anos 1990? São mais agressivos?

Ron Harper – Bom, na minha época havia Isiah Thomas. Eu gosto mais dele do que de qualquer outro cara de hoje. Isiah poderia marcar Curry, mas Curry não o marcaria. Ele era muito bom no que fazia, ganhou dois títulos com um tornozelo ruim. Hoje não se pode mais encostar nos jogadores e os times não jogam de maneira agressiva na defesa.

Triple-Double – Você considera que o triângulo ainda pode ser útil à NBA nos dias de hoje?

Ron Harper – Pode ser útil, sim. Basta que o jogador saiba exatamente como se comportar dentro de quadra e o que ele realmente sabe fazer de bom. Há algumas lendas que as pessoas dizem sobre o triângulo que eu ouço e penso: “isso é besteira”. Eu acho que os jogadores precisam acreditar no que o triângulo pode fazer e em como isso pode ajudar.

Triple-Double – Há alguns ex-jogadores que andam fazendo uma série de críticas ao jogo atual. Você concorda? Ou ainda se diverte quando assiste a uma partida de basquete?

Ron Harper – Não há nada de ruim para dizer, sabe? O jogo mudou, as pessoas chutam mais agora mesmo. Há mais liberdade. O jogo é assim e pronto. Há um estilo diferente. E o jogo vai sempre mudar. Agora o Warriors está meio que ditando uma moda de chutar bastante de três, mas não vai ser sempre assim. De qualquer maneira, tiro o meu chapéu para eles.

Triple-Double – Dos quatro times que você defendeu durante a carreira, com qual pode dizer que tem uma ligação mais especial?

Ron Harper – Eu amo Ohio, sou de lá. Então Cleveland é meu primeiro time. Sou um torcedor do Cavs. Mas eu também amo o Bulls. O que fizemos lá foi especial. Devo dizer ainda que gostei dos meus anos no Clippers e aproveitei bem a passagem pelo Lakers. Amei jogar para o Phil Jackson e trabalhar com Shaq e Kobe. Foi uma grande experiência. Mas sou um torcedor para a vida toda do Cavs e do Bulls.

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