Saíram os titulares do “All-Star Game”. O que poderia ser diferente?

Luís Araújo

Vamos falar a verdade: o “All-Star Game” está longe de ser uma das coisas mais empolgantes do mundo e a votação popular para definir os titulares só serve para mostrar quem as pessoas que ainda se importam com isso têm mais vontade de ver no evento. Simples assim. É muito mais uma medição de popularidade dos jogadores do que um instrumento para se fazer justiça ao que é apresentado dentro de quadra, o que ajuda a explicar Lonzo Ball na frente de Jimmy Butler e a votação expressiva que Zaza Pachulia teve no ano passado.

Apesar disso tudo, vale a pena dar uma olhada nos dez jogadores selecionados como titulares para o “All-Star Game” e discutir por aqui se de fato mereceriam essa condição, caso as questões técnicas fossem o único parâmetro. É uma boa desculpa para se fazer um balanço do que tem acontecido até agora na temporada.

Antes de mais nada, é importante lembrar quais foram os escolhidos. O Leste teve LeBron James como o mais votado, além de Giannis Antetokounmpo, Joel EmbiidDeMar DeRozan e Kyrie Irving. No Oeste, o líder em votos foi Stephen Curry, e os outro escolhidos foram James Harden, Kevin Durant, Anthony Davis e DeMarcus Cousins. Sabemos muito bem que LeBron e Curry serão os chefes dos times e poderão escolher seus companheiros independentemente da conferência, mas isso não importa agora por aqui. A ideia é apenas tentar pensar se esses dez foram mesmo as melhores escolhas do ponto de vista técnico.

Os titulares do Leste

O nome que mais chamou a atenção foi o de Embiid, que participará do “All-Star Game” pela primeira vez e será titular logo de cara. Um jogador que pode entrar no debate sobre essa vaga do pivô do Philadelphia 76ers é Al Horford, peça crucial nos dois lados da quadra para o sucesso do Boston Celtics, líder da conferência.

A média de pontos de 13,4 pontos por jogo é a mais baixa desde a temporada 2011/12 — quando foi limitado a apenas 11 partidas. Mas a quantidade de chutes também tem sido a menor desde 2011/12. E os resultados têm sido excelentes: o aproveitamento de 42,9% nas bolas de três e o índice de 58,7% em eficiência nos arremessos representam recordes pessoais a carreira dele, assim como as 5,3 assistências por partida. São números que ajudam a mostrar algo que se percebe sem tanta facilidade quando o Celtics está em quadra: Horford é muito mais um facilitador no ataque do que qualquer outra coisa, usando sua habilidade enquanto passador para atuar como armador de fato em diversos momentos, mas tem sido eficiente como nunca nas vezes em que precisa definir. A combinação disso tudo e do altíssimo nível de inteligência dentro de quadra o fizeram desenvolver um entrosamento tão grande com Kyrie Irving que parece até que os dois jogam juntos há anos, não há alguns meses.

Do outro lado da quadra, Horford tem uma parcela de responsabilidade enorme pelo fato de o Celtics ter a melhor defesa da NBA, muito graças à sua agilidade, leitura precisa de como reagir às jogadas e ao excelente senso de posicionamento. Esse pacote de qualidade o faz encarar trocas de marcação no perímetro sem grandes problemas e permite que o técnico Brad Stevens o use na posição quatro, com Aron Baynes ou Daniel Theis na posição cinco, sem medo nenhum de deixar a equipe pesada demais.

O mais importante é que Horford faz tudo isso em uma equipe que está ganhando mais do que qualquer outra do Leste, algo que dificilmente aconteceria se não fosse por esse trabalho de tão alto nível que ele tem entregado. Então não seria nem um pouco absurdo se o nome dele aparecesse entre os titulares da conferência no “All-Star Game”. O próprio Embiid declarou que o considerava um candidato forte à essa vaga.

Também poderia pesar a favor de Horford o fato de Embiid ter jogado bem menos vezes na temporada. Só que o impacto do pivô do 76ers tem para o time quando está em ação é tão grande que acaba até tornando compreensível a escolha por ele entre os titulares. Considerando a primeira metade da fase de classificação, a equipe somou 21 vitórias e 20 derrotas em 41 partidas. Nas 32 vezes em que ele esteve à disposição, a campanha foi de 19 vitórias e 13 derrotas. Sem ele, foram sete derrotas em nove jogos.

Durante o tempo que tem Embiid em quadra, o Sixers produz em média 108,5 pontos e toma 99,9 a cada 100 posses de bola. Isso representa um “Net Rating” de +8,6 pontos, maior de todo o elenco. Sem ele, esse número cai para -5,9 pontos, fruto de uma eficiência ofensiva de 99,8 pontos e defensiva de 105,7 pontos.

Não é só isso. As médias por 36 minutos estão mais ou menos no mesmo nível da temporada passada, quando foi limitado pelo 76ers a não mais do que 26 minutos por jogo. Isso significa que ele provou ser capaz de manter um alto nível de produção mesmo passando muito mais tempo em quadra. O nível de eficiência em arremessos subiu de 50,8% para 51,3% mesmo com a queda para 28,6% em aproveitamento de três pontos. E não é difícil perceber o quanto ele desperta preocupações das defesas adversárias, atraindo frequentemente duplas marcações e sabendo como reagir a partir disso.

Diante disso tudo, o que dá para dizer é que existem bons argumentos para os dois. Embiid acabou levando a melhor, mas também não seria injusto se Horford fosse o selecionado. O ponto é que essa disputa entre os dois precisava acontecer. O absurdo mesmo seria se ambos entrassem, já que isso significaria que LeBron James ou Giannis Antetokounmpo teriam fiado sem uma das três vagas disponíveis entre jogadores de “frontcourt”. Com relação ao “backcourt”, nada a se contestar. Victor Oladipo precisa ser um “all-star” e até poderia aparecer nesta conversa sobre titularidade, tendo em vista o tamanho da influência dele para a campanha acima dos 50% do Indiana Pacers. Mas as escolhas ficaram em boas mãos com DeMar DeRozan e Kyrie Irving, que estão tendo as melhores temporadas de suas carreiras e liderando seus times às primeiras posições do Leste.

Os titulares do Oeste

Se LeBron James e Giannis Antetokounmpo precisam ter vagas garantidas no Leste por serem dois dos concorrentes mais fortes ao prêmio de MVP da temporada até aqui, o mesmo precisa acontecer com James Harden no Oeste. Então não tem nem conversa sobre uma das vagas de “backcourt”. A outra tem uma situação que lembra mais ou menos a de Embiid no Leste: Curry desfalcou o Golden State Warriors 15 vezes ao longo da temporada, o que representa uma parcela considerável de jogos.

A campanha do time nestas 15 partidas foi de 11 vitórias e quatro derrotas — sendo que em uma delas Kevin Durant não jogou e em outra foi Klay Thompson o desfalque. Ou seja: pelo menos em termos de resultados em si, o Warriors não sentiu a falta dele tanto assim. Por outro lado, um olhar mais atento para os números nos mostra o tamanho do impacto que Curry causou nas oportunidades em que esteve à disposição.

A média de 27,7 pontos por jogo é a segunda maior da carreira, só atrás dos 30,1 pontos por partida da temporada 2015/16, quando se tornou o primeiro MVP unânime da história da NBA. O índice de 61,3% em eficiência de arremessos também só fica atrás do que foi registrado em 2015/16 (63%). Além disso, Curry tem o maior “Net Rating” do elenco com uma marca surreal de +16,9 pontos é quem tem a menor frequência de desperdícios ofensivos na temporada até aqui (14,6%).

Tem mais: levando em conta só as últimas 14 vezes que entrou em quadra, Curry liderou o Warriors a 14 vitórias e a um saldo de 178 pontos nestes jogos todos. Na temporada inteira, o saldo é de 357, o melhor da liga. Isso passa por tudo o que nos acostumamos a ver de incrível no ataque, claro, mas também é resultado de ações cada vez mais eficientes para se virar na defesa — principalmente naqueles momentos dos jogos, normalmente depois do intervalo, em que a equipe destrói os sistemas ofensivos rivais e os fazem passar longos períodos sem pontuar.

É verdade que os atuais campeões têm um elenco forte o bastante para continuar sobrando na temporada regular mesmo sem Curry, mas está claro o quanto esse time é muito melhor quando ele está à disposição. Em termos de impacto dentro de quadra, é o nome certo para se ter ao lado de Harden no “backcourt”. Mas se os 15 jogos de ausência forem uma barreira tão grande assim, então Russell Westbrook poderia ser o escolhido. O Oklahoma City Thunder ainda não transformou o potencial em realidade, o que passa bastante pelos problemas de encaixe entre as três estrelas no ataque, mas ele continua levando muito mais coisas boas do que ruins para um time competitivo e está com médias bem próximas a um triplo-duplo.

 

Assim como Harden, Kevin Durant é outro que precisa estar de qualquer jeito na seleção do Oeste. Uma vaga do “frontcourt” já é dele. Uma outra provavelmente seria de Kawhi Leonard, que se consolidou como um dos melhores jogadores da NBA na temporada passada. O problema é que ele disputou só nove partidas e está fora por tempo indeterminado, o que contribuiu para a dobradinha do New Orleans Pelicans.

É óbvio que DeMarcus Cousins e, principalmente, Anthony Davis continuam sendo dois dos melhores jogadores da atualidade, extremamente habilidosos e cheios de qualidades, capazes de pontuar por cima de múltiplos marcadores que forem lançados para cima deles. Ambos têm médias de duplo-duplo. Mas os dois estão em um time que até irá para os playoffs, mas que aparece longe da briga pelo mando de quadra e que perde muitos jogos tolos. É uma sensação muito estranha ter dois representantes de uma equipe assim entre os titulares de uma conferência com tanto talento, o que talvez acabe falando muita coisa sobre o Pelicans.

Mas então quem poderia se candidatar a tomar uma destas duas vagas? Karl-Anthony Towns, Draymond Green e Nikola Jokic são peças importantes em times que estão na zona de playoffs e têm boas chances de acabarem entrando como reservas, mas não chega a ser um absurdo pensar em Cousins ou Davis sendo titulares ao invés de qualquer um deles. É a mesma coisa com Blake Griffin, que ficou muito tempo lesionado. Quem poderia aparecer com mais força nesta conversa é LaMarcus Aldridge. Afinal de contas, o San Antonio Spurs continua em terceiro lugar do Oeste mesmo sem Kawhi Leonard. E isso passa em grande parte pela contribuição de Aldridge, seja pelo alto nível apresentado como foco central do ataque ou até mesmo pela capacidade de se encaixar em um sistema defensivo que é o segundo mais eficiente da temporada.

É importante levar em consideração a campanha do time em que o jogador em questão atua. Não é que Aldridge está levando o Spurs nas costas, seria exagero dizer isso, mas trata-se de uma peça vital em uma campanha tão acima dos 50%. Talvez faria mais sentido que ele ficasse com uma destas vagas do “frontcourt” titular do Oeste. Mas aí precisaria ver qual dos dois representantes do Pelicans seria barrado.

A resposta é Cousins. Essa impressão já aparece só de olhar para os jogos do Pelicans. Não é difícil vê-lo sendo punido pelos ataques rivais na hora de defender o “pick and roll”, sem falar em uma série de outros erros defensivos que poderiam tranquilamente ser evitados. Além disso, os números bancam o quanto o companheiro dele tem sido consideravelmente mais importante para o time. Levando em conta só os momentos em que Davis está em quadra, o “Net Rating” é de +5,1 pontos. Sem ele, esse número fica no negativo: -6,3. A diferença é absurda. No caso de Cousins, ela praticamente não existe: o Pelicans tem +1,0 de “Net Rating” com ele em quadra e +1,3 sem.

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