Todo mundo (ou quase todo mundo) já foi modinha

Luís Araújo

Não faz muito tempo que o Golden State Warriors passava longe de ser considerado um modelo de sucesso na NBA. Aliás, era justamente o contrário. Estava mais para exemplo de franquia que comete erros atrás de erros no que diz respeito a planejamento, falhando por anos na missão de tentar emplacar um projeto sólido de competitividade.

Entre 1995 e 2013, o time só avançou para os playoffs uma única vez. Isso aconteceu naquela temporada 2006/07, quando caiu para o Utah Jazz na semifinal de conferência depois de ter surpreendido o mundo ao eliminar na primeira fase o Dallas Mavericks, que havia feito a melhor campanha da liga. Foi uma jornada especial, claro, mas acabou sendo apenas um ponto fora da curva. Até 2013, quando voltou a se classificar entre as oito melhores do Oeste, continuou evoluindo nos anos seguintes e alcançou o status de potência da liga.

Também em 2013, David Lee interrompeu um longo período da equipe sem um representante no “All-Star Game”. O último antes dele tinha sido Latrell Sprewell, selecionado em 1994. O mesmo que algum tempo depois estrangulou o então treinador P.J. Carlesimo e, com isso, assinou sua carta de despedida. Garry St. Jean, gerente geral na época, afirmou que o ala nunca mais voltaria a defender o Warriors e o mandou ao New York Knicks. Palavra cumprida. O problema foi conseguir acertar na remontagem do grupo para deixá-lo competitivo ao ponto de, pelo menos, colocá-lo nos playoffs.

Demorou, mas dias muito melhores chegaram. Depois de toda essa fase de erros e incertezas, o Warriors é hoje um time com três títulos nas últimas quatro temporadas. Mais do que isso: tornou-se uma das forças mais dominantes do basquete em todos os tempos — história que pode ser relembrada em detalhes neste outro texto aqui.

É seguro apontar Stephen Curry como o personagem principal símbolo deste Warriors. A maneira como ele é capaz de acertar chutes de qualquer canto da quadra e a forma como desafia o entendimento sobre arremessos bons e ruins são coisas mágicas. Mas é claro que não é só isso. Basta só um pouco mais de atenção para reparar em como ele é um mestre em aproveitar os espaços que surgem nas defesas adversárias para infiltrar e finalizar com qualidade ao redor do aro. Isso além de ser um excelente jogador também sem a bola nas mãos. E se a leitura de jogo for ainda mais aprofundada, é possível admirar também as boas reações defensivas dele, que superam algumas limitações individuais e conseguem integrar um sólido sistema coletivo de marcação.

Ainda assim, Curry é só uma parte disso. O Warriors como um todo encanta nestes últimos anos. Por ter outros grandes astros ao redor de Curry, claro, mas também pelas incessantes movimentações sem bola, pelo espetacular sistema defensivo que aparece quando todo mundo está engajado e uma série de outras coisas menores, mas também fundamentais para que todo o sucesso ocorra. É uma máquina de jogar basquete, que cansou de transformar partidas relativamente difíceis em placar dilatados, muito graças à habilidade de produzir em momentos decisivos de confrontos parelhos como nenhuma outra equipe na liga.

São coisas impressionantes demais de um time revolucionário e que está escrevendo a história. E quando algo tão grandioso assim acontece, qual a consequência? O surgimento de cada vez mais novos fãs. É inevitável. Gente que se diz torcedor do Warriors, mas que não fazia ideia do que estava acontecendo na NBA quando Baron Davis, Monta Ellis e companhia eliminaram o então favoritaço Mavericks em 2007.

São os chamados “modinhas”. O problema deles? Nenhum. Zero. Nada mesmo.

Times incríveis e grandes personagens têm esse poder. É a coisa mais natural do mundo que despertem novos admiradores. Torcer o nariz e tentar condenar esse tipo de coisa não faz sentido, até porque todo mundo já foi “modinha” um dia. Ou quase isso, vai. É claro que dá para encontrar por aí torcedores de equipes que andaram longe dos holofotes nas últimas décadas, cada um deles com uma história sobre como se apaixonou. Mas é inegável que o Chicago Bulls de 20 anos atrás, por exemplo, não tenha tido efeito semelhante ao do Warriors atual. Ou alguém ousa contestar que Michael Jordan e companhia arrebataram muitos corações ao redor do mundo durante aquela onda de sucesso nos anos 1990, atraindo até mesmo uma legião de novos fãs para a própria NBA?

O mesmo aconteceu com o Los Angeles Lakers do “showtime”. Ou com o Boston Celtics mágico de 1986. Ou com o San Antonio Spurs nas últimas décadas. Ou qualquer outro grande time que marcou uma época e foi passado de geração para geração por quem o viu.

Por mais que às vezes possa parecer irresistível o uso daquele discurso de “no meu tempo é que era bom”, tratar com rejeição os “modinhas” de hoje, os que chegaram agora ao mundo da NBA graças ao efeito Warriors, seria uma maneira de fechar as portas para alguém se encontra na situação que o próprio cidadão de má vontade já esteve um dia. O rapaz que hoje é fã do Bulls, por exemplo, e é apaixonado pelo basquete já foi uma criança que só passou a dar atenção ao esporte depois de ouvir falar em Jordan. Será que esse torcedor gostaria de ter encarado qualquer tipo de rejeição por parte de quem não era tão novo assim 20 anos atrás?

É uma birra boba. O melhor a ser feito é relaxar, aproveitar a história sendo escrita diante de nossos olhos e abraçar essa nova turma. Os “modinhas” são bem-vindos. Sem eles, o esporte morreria logo.

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