O que Lakers e Nets buscam na troca envolvendo D’Angelo Russell?

Luís Araújo

Definir o que fazer com a segunda escolha do Draft não foi a primeira decisão importante tomada para a próxima temporada do Los Angeles Lakers. Antes de selecionar Lonzo Ball, Magic Johnson, Rob Pelinka e companhia decidiram se livrar de D’Angelo Russell, mandando-o junto de Timofey Mozgov para o Brooklyn Nets em troca de Brook Lopez e a 27ª escolha do Draft deste ano, que acabou se transformando no ala-pivô Kyle Kuzma.

Ainda em seu primeiro contrato na NBA, Russell receberá US$ 5,5 milhões na próxima temporada, com o time podendo estender o vínculo e pagá-lo cerca de US$ 7 milhões na seguinte. Mozgov tem salário de aproximadamente US$ 16 milhões até 2020. E Lopez ganhará aproximadamente US$ 22,5 milhões até 2018, quando irá se tornar agente livre.

Em um primeiro momento, ficou mais claro entender o lado do Nets nesta negociação. Abrir mão de um contrato gordo que está prestes a expirar, como o de Lopez, seria péssimo para quem estivesse planejando ter espaço na folha salarial para perseguir algum grande astro em 2018. Só que esse não é o caso do Nets. Sean Marks, novo gerente-geral da franquia, parece completamente ciente da realidade: tem em mãos um time fraco, que tenta dar os primeiros passos em uma nova direção, mas que ainda se encontra prejudicado por causa daquela troca com o Boston Celtics em 2013.

Para quem não se lembra, vale a pena um refresco na memória: aquela mesma troca que envolveu Paul Pierce, Kevin Garnett e Jason Terry levou o Nets a mandar ao Celtics as escolhas de primeira rodada de 2014, 2016 e 2018, além do direito de inverter as posições no Draft de 2017 — por isso o Nets ainda tinha direito à 27ª posição neste ano.

Sem a competitividade necessária para tentar atrair grandes nomes, sem moedas de troca e sem escolhas de loteria no Draft até 2019, o Nets ficou praticamente sem perspectiva. Diante deste cenário, Sean Marks assumiu o cargo tendo basicamente dois desafios. Um deles era a instalação de uma nova cultura. As derrotas poderiam até continuar aparecendo, como de fato ocorreu, mas a ética de trabalho, o ambiente, os valores e todos as outras coisas intangíveis para se formar um time competitivo e que levam um tempo para engrenar já começariam a entrar em prática.

O outro desafio importante do novo gerente-geral era aproveitar esse período para tentar achar talento onde quer que fosse. O Nets então abriu as portas para gente como Sean Kilpatrick, por exemplo, que estava zanzando pela NBA havia algum tempo e que buscava se firmar. Além disso, explorou o valor das moedas de troca que ainda restavam transformando Thaddeus Young e Bojan Bogdanovic em escolhas de primeira rodada — nenhuma de loteria, é verdade, mas que não deixam de ter valor devidas as circunstâncias.

E agora Brook Lopez rendeu um sujeito como D’Angelo Russell, que pode até acabar não virando grande coisa na NBA, mas que foi segunda escolha do Draft de 2015. É, de longe, a peça mais valiosa que o Nets conseguiu adicionar nesta fase de lenta reconstrução que atravessa. A aposta faz bastante sentido. Tanto que nem chega a ser um problema assumir compromisso com Mozgov até 2020. Como o time não vai a lugar nenhum tão cedo, tudo bem então ficar engessado até lá. Vale o preço para ter a chance de ver o potencial do armador se transformar em algo especial.

Algo que Magic Johnson não deixou de reconhecer, mesmo em meio a um comentário com boa dose de crítica. “Ele tem talento para virar ‘all-star’, gostaríamos de agradecer por tudo o que ele fez aqui. Mas o que eu precisava era um líder, alguém que pudesse fazer os outros ao redor melhores e alguém com quem os outros queiram jogar”, disse o ídolo do Lakers e agora presidente de operações da franquia.

A declaração ilustra a preocupação com relação à maturidade de Russell. Demonstrações disso não faltaram mesmo nestas duas primeiras temporadas em Los Angeles, mas trata-se de um garoto de 21 anos. É algo natural e há tempo de sobra para mudar isso. Pelo menos as palavras como jogador do Nets foram animadoras neste sentido: “Estou animado. Quando soube que a troca aconteceu, fiquei surpreso. Não a encarei de maneira negativa, mas como algo a ser celebrado. Não posso esperar para entrar no ginásio com o pessoal daqui e aprender com eles”, afirmou.

Acontece que o Lakers não estava disposto a esperar pela maturidade de Russell. Ou pelo desenvolvimento da defesa, que se mostrou extremamente frágil até agora, ou pelo refinamento do jogo ofensivo. Nem muito por causa dele, mas pelas possibilidades que foram se abrindo nos últimos meses, que acabaram por mudar totalmente a direção que a franquia decidiu tomar no ano passado, quando assinou com Mozgov e Luol Deng para eles serem a voz da experiência em um elenco recheado de moleques.

Mas aí vazou a história de que Paul George não quer ficar mais no Indiana Pacers depois de 2018, quando seu atual contrato chegar ao fim, e que ele tem o desejo de se juntar justamente ao Lakers. Depois veio a loteria do Draft, que deu a chance de deixar a armação do time nas mãos de alguém como Lonzo Ball, considerado um passador extremamente talentoso e que Magic Johnson imagina atender mais ao perfil de líder que mencionou. E a cereja do bolo veio em forma do rumor sobre LeBron James considerar deixar Cleveland ao final da próxima temporada e se mudar para Los Angeles, onde tem uma casa e onde a mulher teria o desejo de morar de vez.

Pode ser que a história sobre LeBron não tenha fundamento no fim das contas e que ele termine a carreira no Cavs. Mas, de qualquer jeito, o caminho que o Lakers está inclinado a seguir é bastante claro: abrir espaço na folha salarial para poder comportar Paul George e ainda atrair mais um agente livre em 2018. As qualidades e os defeitos de Lopez pouco importam. O que o torna realmente valioso para a franquia são os mais de US$ 22,5 milhões expirantes. O próximo passo deve ser o de tentar se livrar do contrato de Luol Deng, que receberá cerca de US$ 18 milhões até 2020.

É um modelo que nada tem a ver com o que começou a ser colocado em prática há um ano. Mozgov e Deng receberam contratos gordos porque a intenção era apostar no desenvolvimento dos jovens recém-selecionados no Draft. Mas isso foi antes de Magic Johnson e Rob Pelinka chegarem para assumir o comando e mudarem totalmente os planos, sem esconderem de ninguém o compromisso de colocar o foco do trabalho nos agentes livres de 2018. Como se dissessem que são eles que farão o Lakers vai voltar a ser competitivo, não a garotada.

Despachar Russell, portanto, foi o preço a se pagar para que o Lakers se colocasse em condição de poder perseguir o que estabeleceu como meta. O importante mesmo foi se livrar do compromisso de Mozgov. Foi uma troca de planos que certamente veio bem a calhar para o Nets. Ainda que a maturidade do armador de 21 anos seja um problema realmente grande e que comprometa o desenvolvimento dele enquanto profissional, vale a aposta. O teto é muito alto.

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