Um ponto de mudança para o Thunder?

Luís Araújo

O jogo contra o Golden State Warriors foi um prato cheio para a torcida do Oklahoma City Thunder. A atmosfera no ginásio era de playoffs, teve troca de provocação e até mesmo uma discussão mais acalorada cabeça a cabeça entre Russell Westbrook e Kevin Durant em um determinado momento. Mas o principal nesta história toda foi a atuação maiúscula da equipe como um todo, o que levou à vitória por 108 a 91.

O Thunder abriu dois dígitos ainda no segundo quarto, mas havia o fantasma das derrotas para San Antonio Spurs e New Orleans Pelicans na última semana, em jogos nos quais chegou a ter 23 e 19 pontos de frente, respectivamente. Além disso, se tem um adversário contra o qual qualquer vantagem pode evaporar em um curto intervalo de tempo, esse adversário é justamente o Warriors.

Só que desta vez não teve virada. O Thunder segurou as pontas tão bem que nem chegou a ver as coisas ficarem parelhas no fim. O que é ótima notícia para Billy Donovan e seus comandados, não só porque é muito melhor vencer os atuais campeões com facilidade e sem correr riscos, mas também porque essa equipe vem tendo como característica sofrer demais nas retas finais de jogos apertados. É um problema que precisará ser contornado com o passar do tempo, mas fez um bem danado não ter precisado lidar com isso nesta ocasião em especial.

Na entrevista que deu ainda dentro de quadra para a ESPN dos Estados Unidos após a partida, Russell Westbrook afirmou que entrou no jogo com uma mentalidade que ele próprio definiu como “por que não?”, no sentido de deixar qualquer hesitação para trás diante das situações que o confronto apresentasse e agir de maneira ultra agressiva. Algo que dá para se ter uma ideia nesta infiltração.

Westbrook também foi questionado se o resultado pode servir como um ponto de mudança para a campanha do Thunder, ainda cambaleante neste início de temporada. Ele disse que sim e que espera ver uma sequência de vitórias a partir disso. Um pouco mais tarde, Carmelo Anthony declarou acreditar que a apresentação diante do Warriors mostra o tipo de equipe que ele e os companheiros podem ser.

Chega a ser natural que eles falem esse tipo de coisa mesmo e se sintam confiantes. Ainda que tivessem ressalvas em meio a tudo o que passaram dentro de quadra, faz sentido que guardem para si esse tipo de pensamento. Mas seria prematuro cravar que esse resultado expressivo contra os campeões sinaliza que a história do Thunder na temporada está prestes a mudar. Uma olhada um pouco mais atenta ao que decidiu esse duelo pode oferecer algumas pistas neste sentido.

Um fator fundamental para a história do confronto foi algo que já vem apresentando bons resultados para o Thunder neste início de temporada, mesmo em meio a todas as derrotas: a defesa, que ocupa o terceiro lugar no ranking de eficiência da liga. Neste confronto com o Warriors, ela trabalhou bem o suficiente para limitar o oponente a um aproveitamento de 41% nos arremessos e forçar 22 desperdícios de posse de bola — ao passo que o ataque cometeu só 16.

Um destes erros do Warriors deu origem a esse contra-ataque, executado com uma velocidade impressionante. Mas o mais curioso no lance foi a forma como Andre Roberson levou Draymond Green a mudar de ideia depois do “pick and roll”. Foi por ameaçar entrar no caminho dele e depois voltar para seu marcador na zona morta que ele viu o adversário ter uma espécie de pane mental e fazer bobagem. É o tipo de coisa que não entra nas estatísticas, mas que tem um valor imenso.


O que também não aparece nas estatísticas é esse trabalho de Paul George em cima de Stephen Curry. Primeiro ele se antecipou ao bloqueio de Zaza Pachulia, permanecendo colado no adversário e o forçando a se desfazer da bola para tentar a sorte se deslocando sem ela. Pouco depois, George reagiu bem a um novo bloqueio de Pachulia e deu pouco espaço para o tiro de Curry.


Mais do que resistir aos bloqueios, o que já tem um peso enorme no funcionamento em alto nível da defesa, George contribuiu com uma postura bem atenta em relação à linha de passe, com mãos ativas para atrapalhar e prontas para gerar erros que em segundos viravam pontos em transição.

Uma outra jogada que vale a pena ser observada teve Jerami Grant como protagonista. Ao perceber que Kevin Durant levaria a melhor na corrida contra Alex Abrines e conseguiria finalizar, ele não pensou duas vezes para largar do seu jogador e correr para fazer a cobertura, forçando um erro e dando início a um contra-ataque que o Thunder matou com uma bola de três. É um risco que ele correu, sem dúvida, mas deu certo.

No total, o Thunder produziu 34 pontos a partir de roubos de bola contra 15 do Warriors. O que ajudou muito esse número elevado foi justamente o fato de alguns contra-ataques terem sido concluídos com cesta de três, como o anterior e esse outro a seguir. Neste caso, vale reparar como Westbrook ter reagido rápido ao bloqueio e dado pouco espaço para Curry em seguida colaborou demais para o erro do rival.

Por mais que a defesa tenha sido uma constante ao longo da temporada, apesar das quedas violentas de produtividade nas retas finais de jogos apertados, o sucesso gigantesco destas bolas de três em transição foi algo fora da curva. Não é todo dia que esse tipo de arma vai funcionar tão bem assim.

Também não é todo dia que Westbrook terá tanta felicidade em algumas finalizações que optou por fazer. Dos 27 arremessos que deu na partida, 13 entraram. O aproveitamento em si não é nada de outro mundo. Mas ajudou muito em sua apresentação — e na vitória do Thunder como um todo — o fato de ter convertido uns chutes ou outros de média distância na cara do seu marcador e até umas bolas de três, coisas que nem sempre acontecem com tanta frequência assim dentro de um jogo.

Um exemplo disso é o desdobramento deste “pick and roll” que não funcionou. Depois de tentar colocar Curry nas suas costas, Westbrook o viu escapar e retomar a frente. O jeito foi resolver com um chute longo na cara do oponente mesmo, sem pensar duas vezes. Deu certo.

Uma estratégia que o Thunder usa desde a temporada passada e que realmente pode levar problemas para o Warriors mais vezes pelos buracos que se abrem na defesa foi o “pick and roll” espanhol, que consiste no uso de três jogadores, e não dois. Um jogador sobe para fazer o bloqueio para quem está com a bola nas mãos enquanto um outro companheiro corre para fazer um bloqueio pelas costas do adversário que está marcando o responsável pelo primeiro bloqueio do ataque.

Ficou confuso? O vídeo pode ajudar a deixar a ação mais clara, além de mostrar como isso foi útil para quebrar a defesa do Warriors. Pouco depois de Westbrook cruzar o meio da quadra, dá para ver Steven Adams sinalizando para Roberson, como se os dois estivessem combinando de fazer o “pick and roll” espanhol para Westbrook.

Foi o que aconteceu. Westbrook atacou a marcação de Klay Thompson, que sofreu um bloqueio de Adams mais ou menos na linha de três pontos. Em seguida, Roberson correu para fazer um bloqueio pelas costas de JaVale McGee, que era o responsável por marcar Adams no início da jogada. Então Curry, que começou a posse de bola marcando Roberson, foi quem ficou mais perto da cesta dentre os três jogadores do Warriors envolvidos diretamente no lance. A decisão dele foi sair em Westbrook, que teve caminho aberto para a cesta. Mas isso permitiu que Adams rolasse para receber livre no garrafão e finalizar.

Em resumo, o Thunder viu quase tudo funcionar, tanto algumas coisas que já vinham dando certo como outras que nem tanto. Foi isso que levou ao placar dilatado, que por sua vez evitou que a capacidade de encontrar respostas na reta final de duelos parelhos fosse testada.

Ganhar de um oponente como o Warriors e ver a defesa manter um padrão alto de eficiência em um teste como esse é sempre bom. Dá para tirar mesmo muitas coisas boas desta apresentação, mas isso não quer dizer que os problemas que vinham incomodando até então desapareceram. As necessidades de emplacar uma maior fluidez ofensiva entre os três astros, de equilibrar melhor os quintetos usados ao longo dos jogos e, principalmente, de conseguir sobreviver em retas finais de partidas apertadas continuam lá.

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