Um título e um convite à reflexão

Luís Araújo

Véspera do Jogo das Estrelas do NBB. Fim de treino no Ginásio do Ibirapuera. Enquanto Anderson Varejão, Leandrinho, Marquinhos e até mesmo a sensação Yago se revezavam entre as câmeras para atender às demandas das televisões, o técnico Gustavo De Conti conversava com um grupo pequeno de jornalistas em um canto da quadra. O assunto era o método de trabalho por trás da campanha do Paulistano, que naquele momento construía uma série invicta que durou 22 partidas.

Em um primeiro momento, ele contou que cobrava bastante que Lucas Dias conseguisse correr mais a quadra. Depois, relatou um procedimento que adotou nos treinos da equipe no começo da temporada: “Quando fazíamos coletivo, se um time tomava a cesta e um jogador ficava para trás na hora de partir para o outro lado da quadra, eu parava e dava a bola para o outro time. Não tinha castigo para o jogador. Não mandava fazer suicídio ou pagar com flexões. Isso já os condicionava a correr. Eles entendiam que eu queria uma saída rápida e que, se não fosse assim, ficariam defendendo até o fim do treino.”

Na esteira disso, De Conti relatou ter mudado a maneira de encarar algumas coisas no basquete. Se antes acreditava que um ataque ideal precisava ter muitas trocas de passe e gastar boa parte do relógio dos 24 segundos, ultimamente ele abraçou essa ideia de disparar com velocidade ao ataque, para ampliar as chances de pegar a defesa desarrumada, e não hesitar em aproveitar a primeira oportunidade que aparecesse para finalizar. Ainda que fosse logo no início da posse de bola. Sem problema.

Esses três trechos da conversa dizem muito sobre o que vimos deste time ao longo da temporada. O Paulistano correu muito. Muito mesmo. E soube fazer isso muito bem, obviamente. Claro que as bolas de três pontos chamaram bastante a atenção durante a campanha que culminou no título do NBB, especialmente em dias abençoados nos quais os arremessos não param de cair. Mas a construção dos espaços para atacar foram extremamente bem feitas. Sobretudo em transição. Nenhuma outra equipe do país passou perto de apresentar a mesma capacidade de punir os erros ofensivos dos seus adversários.

Tal característica acabou sendo, inclusive, uma das grandes marcas da série final contra Mogi das Cruzes. E nem era preciso interceptar um passe, não. Tudo o que bastava era um arremesso errado. Em questão de segundos, o Paulistano chegava ao outro lado da quadra em boa condição de pontuar. Quase sempre com um número mais de jogadores em relação à quantidade de defensores do rival.

É claro que, para isso, é preciso defender bem. Naquela mesma conversa com um grupo pequeno de jornalistas na véspera do Jogo das Estrelas, De Conti fez questão de bater nesta tecla. Disse que as pessoas, naturalmente, olham muito para a velocidade ofensiva e os chutes de longe, mas que a cobrança em cima do sistema de marcação não era menor. Pelo contrário.

Foi algo que também deu para se perceber com alguma facilidade ao longo da temporada e que ficou bem claro na decisão. Os pivôs do time com perfil mais “tradicional” — tanto Guilherme Hubner como Du Sommer — soubera se virar em situações nas quais são arrastados para longe da cesta e contaram com boa rotação dos seus companheiros em volta. Mas sem um deles em quadra, a equipe usou e abusou das trocas de marcação após bloqueios, explorando o elenco versátil à disposição do treinador, com várias peças capazes de desempenhar múltiplas funções.

Em um outro momento da temporada, já durante a semifinal contra Bauru, o comandante do Paulistano mostrou segurança ao afirmar que a história da equipe no campeonato já poderia ser considerada bem-sucedida, independentemente do resultado na série. “Acho que não preciso medir palavras mais. A maior parte dos jogadores que estavam aqui não eram muito desejados pelos outros. Agora estão aqui, estão valorizados e melhorando. Claro que queremos chegar o mais longe possível, mas acredito que já demos certo”, declarou.

Sim, o Paulistano deu certo. Porque é o mais novo campeão brasileiro, meses depois de ter conquistado um inédito título estadual. Mas também porque construiu esse caminho vencedor a partir de ideias pouco usuais em meio ao que nos acostumamos a ver por aqui. Porque seu comandante não ficou preso a pensamentos tradicionais e tratou de arejar as ideias. E porque os jogadores não só compararam essa nova visão de basquete como souberam colocar tudo em prática.

O mais novo campeão nacional já dava pinta de que estava em um nível muito alto em meio à concorrência interna quando enfileirou 22 vitórias seguidas. Depois, nos playoffs, respondeu sempre muito bem quando se viu ameaçado por algum oponente que cruzou o seu caminho. O título do NBB coroa essa trajetória, protagonizada por jogadores que encontraram no Paulistano a forma de render o melhor que podem.

Tudo isso é resultado de um processo calcado em conceitos que poderiam ser considerados absurdos até pouco tempo atrás. Mais do que o título inédito e a narrativa irresistível sobre força coletiva em um elenco de ações extremamente divididas entre suas peças, o que fica desta história toda é um convite à reflexão sobre um outro jeito de se pensar basquete.

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