A valiosa lição que o Celtics ensinou a Kobe Bryant

Luís Araújo

Essa temporada de despedida de Kobe Bryant chegou a mais um ponto importante no domingo. Foi a última vez que ele jogou contra o Boston Celtics, adversário mais do que especial nesta trajetória dele pelo basquete. Afinal de contas, além de toda a rivalidade histórica que existe com o Los Angeles Lakers, foram dois encontros em finais.

Kobe fez 34 pontos. Tentou 28 arremessos e fez 11. Pegou ainda quatro rebotes e deu três assistências. Muito mais do que os números, chamou a atenção mesmo a postura dele dentro de quadra durante a partida. O técnico Byron Scott até admitiu depois que fazia algum tempo que não via o jogador tão sério e sem dar risadinhas em quadra. Não importa se do outro lado estavam moleques que não defendiam o Celtics na época das duas decisões e que, até pela pouca idade, têm pelo craque muito mais uma relação de admiração do que de rivalidade. Para ele, o simples fato de ver as camisas verdes e saber que elas são de Boston já basta para despertar esse sentimento de competitividade máxima.

Uma declaração na coletiva de imprensa ao final do jogo nos ajuda a entender melhor por que esse tipo de coisa aconteceu. “A final de 2008 é um momento que marcou muito a minha carreira. Foi algo que preparou muito, que me ensinou a ser um líder e a ganhar outros campeonatos”, disse Kobe.

Aquela temporada 2007/08, para quem não se lembra, foi a que ele ganhou o único prêmio de MVP da carreira. Nas duas temporadas, teve desempenho individual tão impressionante quanto, talvez até mais, mas o fato de ser o único ponto de brilho em um time limitado, excessivamente dependente dos seus pontos e incapaz de competir entre as potências da liga o atrapalhou na corrida pelo troféu. E claro: antes disso tudo, teve a fase de parceria com Shaquille O’Neal, que rendeu três títulos, quatro finais e incontáveis problemas de relacionamento que acabaram deixando insustentável a convivência entre os dois.

Durante todo esse caminho até o prêmio de MVP, é inegável que Kobe amadureceu bastante dentro de quadra. Mas aquele Celtics de 2008 foi um desafio completamente novo. Um obstáculo que teve um impacto nele como nenhum outro. O jogo 4 daquela decisão foi emblemático. Depois de ir para o intervalo perdendo por 18 pontos, o time de Boston dominou completamente o segundo tempo, chegou à virada, venceu dentro de Los Angeles e abriu 3 a 1 na série, ficando a uma vitória do título. A reação passou, inevitavelmente, pelo trabalho em cima da principal ameaça do Lakers. “Eles estavam determinados a não me deixarem respirar. Eu via três ou quatro corpos em volta de mim todas as vezes que tocava na bola”, disse Kobe, após o duelo.

O craque saiu de quadra naquela oportunidade com 17 pontos e apenas seis arremessos convertidos em 19 tentados, o que representa um desempenho de 31,6%. Nas duas partidas anteriores àquela, os aproveitamentos haviam sido de 47,8% e 60%. Nas duas que vieram em seguida, nos jogos 5 e 6, os índices foram de 38,1% e 31,8%.

A série acabou após o sexto confronto, no qual o Celtics atropelou. O placar final apontou 131 a 92. Apesar da vantagem ampla, Doc Rivers, técnico da equipe de Boston na época e que hoje está à frente do Los Angeles Clippers, contou um episódio curioso, que mostra exatamente como era enfrentar o Lakers naquela época.

“Tom Thibodeau, a última pessoa de quem você espera esse tipo de coisa, veio me perguntar se eu não ia tirar os titulares de quadra. Faltavam seis minutos e vencíamos por 42 pontos. Eu olhei para a quadra e vi que Kobe ainda estava. Então eu respondi que só ia tirar meus titulares quando Phil Jackson decidisse tirá-lo. Thibs me disse que o jogo estava seguro, mas eu disse que não havia segurança enquanto aquele cara estivesse em quadra. E eu estava falando muito sério. Claro que tinha perdido a cabeça ali. Eram 42 pontos de liderança. Mas esse é o tipo de medo que ele causa em você”, contou.

Do outro lado, sobrou frustração, evidentemente, e reconhecimento ao trabalho feito pelo adversário. “Eles, definitivamente, foram a melhor defesa que eu vi em playoffs. Eu vi algumas bem rígidas, e essa aí está no mesmo nível”, disse Kobe, depois daquele sexto jogo da decisão de 2008. Por mais gratificante que possa ser saber que os marcadores do outro lado se esforçaram demais para diminuir seu impacto, o que realmente importava para ele era o resultado final desta história toda: a constatação de que não estava conseguindo se virar diante deste desafio ao ponto de fazer seu time se tornar campeão. A saída encontrada para dar a volta por cima e conquistar mais dois anéis de campeão nos anos seguintes, muito mais do que aprimorar qualquer aspecto técnico, foi abordar uma maneira diferente e mais eficiente de se liderar o elenco.

Em uma entrevista à ESPN norte-americana em 2013, Kobe falou sobre isso. “Tive de exercer uma função diferente depois que a minha era com o Shaq acabou. Você meio que precisa entender as coisas. Quando o Shaq estava aqui, eu era o cara que forçava demais o trabalho, enquanto ele era o cara de fácil convivência com os outros. Em 2008, eu segui um caminho completamente oposto. E nós acabamos tendo um time que não era emocionalmente forte o bastante para derrubar aquele Celtics”, refletiu.

O que aconteceu em seguida todo mundo sabe. O Lakers voltou à final em 2009 e derrotou o Orlando Magic em cinco jogos. O Celtics caiu no meio do caminho muito graças a uma lesão no joelho que afastou Kevin Garnett dos playoffs. No ano seguinte, com todo mundo inteiro, os dois rivais se reencontraram na decisão. Não foi fácil. Mas Kobe conseguiu vencer e exorcizou um grande fantasma do passado. Algo que só aconteceu porque ele encontrou um meio-termo entre gritar na orelha dos companheiros a cada erro cometido e a passividade total, melhorando o nível de preparação de todo mundo ao redor para um desafio tão grande.

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