“Vamos fazer isso aqui funcionar”

Luís Araújo

Será que o Toronto Raptors teria vencido a série contra o Golden State Warriors se Kevin Durant e Klay Thompson não tivessem se lesionado? É um debate justo, claro, mas não agora. Só depois. Porque antes de qualquer outra coisa, é importante que se olhe para as finais da temporada 2018/19 e que se reverencie o campeão. Não só porque chegar inteiro ao final de uma maratona de jogos que durou oito meses não deixa de ser um mérito de um campeão, mas principalmente pela quantidade de histórias maravilhosas que formam essa grande conquista da franquia canadense.

A começar pela lembrança da forma como a temporada anterior havia terminado. O Raptors se despediu dos playoffs de 2018 com uma varrida constrangedora. Quando o Cleveland Cavaliers venceu aquele quarto jogo da série semifinal do Leste, a impressão geral era de uma total impotência por parte do time derrotado. Não foram exatamente quatro lavadas, mas as coisas aconteceram de um jeito que parecia que LeBron James e companhia dariam sempre um jeito de superar o adversário, quantas vezes fossem necessárias.

A última coisa que aquele Raptors parecia era um time campeão. Quem falar que conseguia olhar para aquele cenário e imaginar a conquista de um título dentro de um ano estará mentindo. Porque o clima era totalmente o oposto disso. Era algo que ia além de qualquer plano tático para virar algo místico. Parecia uma franquia destinada a não vencer a sua conferência, sem que importasse o quão forte a campanha na temporada regular tivesse sido.

Masai Ujiri, o general manager da franquia, parece ter entendido muito bem que aquele time já tinha dado o que tinha para dar e que mudanças se faziam necessárias. Ao mesmo tempo, não se deixou levar pela ideia de implodir tudo e começar uma reconstrução geral. O jeito então foi executar planos que pareciam fora de questão até então, nem que para isso fosse necessário fazer algumas apostas ousadas e correr o risco de parecer impopular.

Olhando para as coisas hoje, parece óbvio que mandar DeMar DeRozan e Jakob Poeltl para San Antonio para contar com Kawhi Leonard e Danny Green foi uma decisão acertada. Há uns 11 meses, no entanto, não era uma conclusão tão óbvia assim. Por mais que Kawhi fosse mesmo um jogador inquestionavelmente superior a DeRozan, o Raptors estava abrindo mão de um ídolo local. Um sujeito que havia construído uma identidade com os fanáticos torcedores de Toronto e que tinha o plano de construir toda a sua carreira na cidade, algo que se torna ainda mais especial diante da lembrança de como a ideia de morar no Canadá já espantou alguns grandes agentes livres da NBA nos anos recentes. Não era pouca coisa. E havia ainda alguns pontos de interrogação em torno do ex-jogador do Spurs. Como ele se apresentaria fisicamente depois de ter sido afetado por lesão durante quase todo o ano anterior? Em que nível estaria o comprometimento de alguém que tinha o desejo de voltar a morar na Califórnia?

A imagem de Kawhi na coletiva de imprensa após o Jogo 6 da decisão mostrou que deu tudo certo para o Raptors. Com um óculos especial para proteger os olhos do champanhe que rolava solto nos vestiário durante a comemoração do título, alguns minutos de segurar um troféu de MVP das finais pela segunda vez na carreira, ele contou como foi o seu primeiro contato com Kyle Lowry depois que soube que seriam companheiros de equipe: “Eu mandei uma mensagem para ele dizendo o seguinte: ‘Vamos tentar fazer algo especial. Sei que seu melhor amigo foi embora e sei que está bravo. Mas vamos fazer isso aqui funcionar’. E hoje nós estamos aqui.”

Kawhi pode ter sido quem escreveu a frase sobre “fazer isso aqui funcionar”, mas é um pensamento que certamente passou pela cabeça de Ujiri na construção deste time campeão. E não só no momento em que decidiu fazer essa troca que não parecia tão garantida assim na época. Ele também resolveu demitir Dwane Casey, que havia sido eleito o melhor técnico da temporada regular uns meses antes. Promoveu a entrada de Nick Nurse no lugar, quem na época Ujiri classificou como um “técnico inovador, com um tremendo QI de basquete e uma abordagem única sobre os aspectos táticos do jogo”.

Mais tarde, já com mais da metade da temporada regular em andamento, veio mais uma troca importante: com Memphis Grizzlies, mandando Jonas Valanciunas, CJ Miles e Delon Wright para receber Marc Gasol. Na aquela altura dos acontecimentos, o Raptors já se mostrava um time mais confiável do que era um ano antes, consolidado como uma das potências do Leste. Ainda assim, Ujiri sentiu que não podia deixar escapar a oportunidade de adicionar ao elenco alguém com o talento do pivô espanhol. Nem que para isso Nurse tivesse de fazer algumas experiências para entender a melhor forma de utilizar o novo reforço e tirar a titularidade de Serge Ibaka, que parecia revigorado depois de estabelecido como o dono da posição cinco neste time.

Mexer em algo que já vinha dando certo não deixa de ter sido mais um movimento ousado de Ujiri. Mais uma demonstração do quanto ele parecia engajado em olhar para o Raptors e pensar constantemente: “Vamos fazer isso aqui funcionar”. O título é um sinal de que o projeto foi concluído com sucesso, o que coroa uma trajetória maravilhosa do general manager ao longo do último ano. Mas essa é só uma das grandes histórias que fazem parte desta conquista. A retomada da carreira de Kawhi também foi maravilhosa. Ele não só acabou com qualquer dúvida que existia sobre sua condição física como voltou em um nível ainda superior em relação ao que um dia já tinha apresentado.

Teve ainda o lance de Pascal Siakam, um camaronês que nem gostava tanto assim de basquete quando garoto, mas que acabou se deixando levar e que passou a ter como inspiração em cada jogo a memória do pai, que enquanto era vivo tinha o sonho de ver um dos seus filhos atuando na NBA. Foi maravilhoso também acompanhar os laços de Marc Gasol com o Grizzlies e com seus parceiros mais próximos de “grit and grind”. A conta oficial da franquia de Memphis no Twitter celebrou a conquista do espanhol, que fez questão de lembrar e agradecer bastante os “irmãos” Mike Conley, Zach Randolph e Tony Allen em meio a comemoração. E, claro: toda a emoção em torno da redenção de Kyle Lowry, alguém que pôde enterrar toda aquela ligação forte com aquele clima de azar que rondava Toronto nos playoffs.

Talvez nada disso tivesse acontecido se as lesões não aparecessem para o Warriors, o que também não significa que esse título certamente teria ficado do outro lado caso todas as peças estivessem à disposição. Não há garantia nenhuma nisso aí, apenas suposições. O que há de concreto é que o Raptors venceu a série e ficou com um título que, de certa maneira, pode representar muito mais do que uma simples conquista esportiva. Dá para olhar para todas as nuances desta história e transportá-las para a vida como lições a serem carregadas dia após dia. Tentar fazer as coisas darem certo já é um grande e importante primeiro passo. O que hoje parece desanimador pode vir a se transformar em algo maravilhoso amanhã. E nenhuma maldição precisa ser eterna.

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