Vince Carter: os 51 pontos e o impacto no Toronto Raptors

Luís Araújo

Sábado, 27 de fevereiro de 2000. O Toronto Raptors recebeu a visita do Phoenix Suns. Foi a primeira vez que um jogo da equipe canadense teve transmissão para todo o território norte-americano. Isso não estava nos planos inicialmente, mas a emissora NBC mudou os planos uma semana antes para poder exibir esse jogo. Tudo por causa de Vince Carter. 

Era só a segunda temporada dele como profissional, mas o barulho que fazia já era enorme. Muito por causa do estilo de jogo explosivo e enterradas plásticas, Carter transformava os jogos do Raptors em eventos cada vez mais atraentes. Não demorou muito para essa onda crescer demais e extrapolar os limites de Toronto. De repente, um time ainda caçula na NBA, sem grandes feitos até então, passou a despertar o interesse do grande público. Não era pouca coisa. Especialmente em uma época sem League Pass e redes sociais atuando como amplificadores do que se fazia dentro de quadra. A comunicação era totalmente diferente. Era um outro mundo. 

Essa história é contada com um pouco mais de detalhes no documentário “Carter Effect”, disponível na Netflix para o Brasil. Mas levando em conta todo o contexto, não é difícil entender o peso desse jogo para Carter e para o Raptors. Dizia muito a NBC querer colocar de qualquer jeito aquela jovem estrela em uma transmissão nacional ao vivo.

Ah, e é claro: a performance no torneio de enterradas no “All-Star Weekend” duas semanas antes também contribuiu fortemente nesse processo de tomada de decisão da emissora.

Toda a expectativa que havia ali em torno de Carter, tanto por parte da emissora quanto do público, foi correspondida. O Raptors venceu o jogo por 103 a 102, e ele anotou 51 pontos. Foram 17 arremessos certos em 32 tentados (e apenas quatro bolas de três), além de nove rebotes e três roubos de bola. Passar dos 50 pontos hoje em dia pode até parecer um pouco banal, mas não era assim naquela época. Essas coisas aconteciam de forma bem menos comum.  

No dia seguinte àquele jogo, a edição do jornal LA Times, de Los Angeles, publicou uma matéria de repercussão da partida. O texto começava da seguinte maneira: “Ele voa pelo ar. Ele enterra depois de passar a bola por entre as pernas. Ele vai somando pontos como se estivesse jogando pinball. Na era da NBA pós-Jordan, não existe um sucessor. Mas Vince Carter pode ser a próxima grande atração da liga.” 

Na entrevista que deu para a NBC ainda dentro de quadra, instantes após o fim da partida, Carter admitiu que estava especialmente motivado pela transmissão nacional. Disse que via naquilo uma oportunidade única não só para ele, mas também para o Raptors de se colocar definitivamente no mapa da NBA e ser reconhecido por mais gente de fora de Toronto. 

O repertório de Carter teve um pouco de tudo naquele dia. Vale a pena dar uma olhada com um pouco mais de atenção na maneira como esses 51 pontos foram feitos.

Explorando os “mismatches”

Os dois primeiros pontos vieram neste lance a seguir, em uma transição ofensiva. Rápida ao ponto de fazê-lo ser marcado por Luc Longley, um pivô lento, de pouca mobilidade, que inevitavelmente seria facilmente explorado. Resultado: um arremesso fácil de média distância, dado com bastante liberdade.

Aqui não teve cesta porque a defesa do Suns o parou com falta, mas ficou clara a facilidade como ele cortou Clifford Robinson, entrou no garrafão e atraiu a ajuda. O adversário não teve outra escolha.

Neste lance a seguir, Carter cruzou a quadra e recebeu um bloqueio forte do pivô Antonio Davis. Tão forte que Clifford Robinson foi parar longe. Luc Longley, então, se viu forçado a sair desesperado para encarar Carter, que não encontrou resistência para superá-lo e partir em direção à cesta. Penny Hardaway correu para impedi-lo com uma falta, mas aí a capacidade de fazer acrobacias transformou aquilo em dois pontos mais um lance livre.

Movimentação sem bola

Enquanto a bola estava no canto da quadra, Carter se aproximou e fez um bloqueio por trás em Luc Longley para que Antonio Davis pudesse cortar para a cesta. Dá para ver em qualquer jogo o tanto que um bloqueio por trás pode ajudar um ataque a criar espaço, até mesmo quando a estratégia da defesa é a de trocar a marcação imediatamente.

Neste caso, Clifford Robinson saiu de perto de Carter e correu para não deixar Davis livre perto da cesta. Mas quando Longley se recuperou e voltou a marcar Davis, Robinson retornou para marcar Carter. Isso tudo foi muito rápido, durou menos de um segundo. Mas foi o bastante para surgir espaço para o chute.

Nesta jogada a seguir, chama a atenção a maneira de usar o que tinha de melhor do ponto de vista atlético para tirar vantagem da situação. No momento em que Muggsy Bogues avançou com a bola na direção dele, Carter ameaçou um corte pelo fundo. Shawn Marion tentou acompanhá-lo, mas Carter imediatamente mudou de direção, voltou para a linha de três, recebeu o passe e arremessou sem problemas.

Movimentos no 1 x 1

Um chute longo de dois na cara de Penny Hardaway pode parecer que não foi nada de outro mundo, e nem foi mesmo. Mas é importante notar que esse arremesso serviu como uma espécie de termômetro para Carter no jogo, como de estivesse medindo como os espaços poderiam ser oferecidos naquele tipo de marcação individual. Nos minutos seguintes, ele acertou duas bolas de três pontos na cara de Hardaway.

Por falar em bola de três pontos, teve também esta aqui. Fruto de um arremesso que ele decidiu dar depois de ver o adversário passar por trás do bloqueio.

O ponto crucial neste lance a seguir foi a decisão de Shawn Marion de tentar se antecipar e cortar o passe. Não conseguiu, e aí abriu um corredor para a infiltração. Tom Gugliotta bem que tentou correr para fazer a cobertura, mas Carter se desviou dele com facilidade no caminho para a cesta.

Nesta jogada, de novo era Shawn Marion quem o marcava. Depois de ensaiar um passe por alguns segundos e ver a defesa do Suns fechar praticamente todas as linhas de conexão, Carter resolveu partir para cima do rival. Foi bem marcado e resolveu tirar da cartola um chute de média distância, que também foi bem contestado. Mas o dia era dele mesmo, não tinha jeito.

E a última cesta dele no jogo foi, na verdade, um lance de um contra dois. Já nos segundos finais do jogo, Carter recebeu marcação dupla assim que recebeu o passe de Charles Oakley. Mas Tom Gugliotta vacilou e permitiu que se abrisse ali um espaço para a infiltração.

Enquanto tudo isso acontecia, vale a pena reparar também no posicionamento de Antonio Davis embaixo da cesta, segurando o oponente com o corpo para evitar que ele contestasse a bandeja de Carter.

Mais de 20 anos se passaram desde então. Deu tempo para Carter sair de Toronto, passar por outros sete times e se aposentar depois de 22 temporadas na NBA. Enquanto isso, o Raptors se reformulou, se desfez, se reconstruiu de novo, virou uma força no Leste e até conquistou um título. Mais do que isso: estabeleceu-se como uma franquia reconhecida por ter uma das torcidas locais com maior grau de envolvimento na liga.

Carter se aposentou sem um anel de campeão, mas os títulos não são a única maneira de se olhar para o legado de um atleta. Não dá para desvincilhar todo o sucesso que o Raptors teve nos últimos anos do impacto que Carter teve lá atrás, enquanto foi um símbolo para a cidade de Toronto.

As razões que levaram esse jogo contra o Phoenix Suns em fevereiro de 2000 a ter transmissão nacional nos Estados Unidos já dizem muita coisa. Representam um marco importante para a trajetória do Raptors, que poderia ter sido muito mais complicada sem a liderança de Carter naquele ponto da história.

Atrair a atenção do grande público e da grande mídia, naqueles tempos especificamente, foi um feito incrível. Aproveitar a situação para entregar 51 pontos e corresponder ao nível alto de expectativa que havia ali só tornou tudo ainda maior.

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