Warriors, problemas, cartas na manga e dinastia

Luís Araújo

Não foi uma caminhada tranquila, em que pese a varrida sobre o Cleveland Cavaliers na final. Ao longo da temporada regular, sobretudo depois do “All-Star Game”, o Golden State Warriors não parecia ser sombra do que se mostrara um ano antes. As lesões — especialmente a de Stephen Curry, que só voltou de vez na segunda rodada dos playoffs — atrapalharam bastante, mas foram só parte do problema. Era como se a motivação não estivesse totalmente por ali. Algo que, por sinal, chega a ser compreensível para qualquer equipe com tantas vitórias acumuladas durante os anos anteriores.

Um pouco mais tarde, na final de conferência, o Warriors se viu a um passo da eliminação quando o Houston Rockets abriu 3 a 2. Aí já não era mais simplesmente uma questão de foco. O buraco era mais embaixo. O que estava acontecendo era que havia um oponente do outro lado realmente capaz de encontrar maneiras de incomodar os campeões dentro de quadra. Foi algo que ocorreu até mesmo na decisão. O Cavs teve uma grande chance de beliscar a primeira partida fora de casa e começar a série em vantagem. No Jogo 3, voltou a fazer bom duelo e só caiu de fato após alguns lances incríveis de Kevin Durant, que parecia imparável naquela noite.

Deu certo no fim das contas, como bem sabemos. Mas isso tudo serve para mostrar que o Warriors foi, sim, desafiado durante o caminho para um bicampeonato que muita gente acreditava que já era uma certeza quando a temporada começou. O resultado pode até ter sido o mesmo, mas o caminho não foi tão calmo quanto o do ano anterior, quando a equipe varreu todo mundo com quem cruzou no Oeste e só não manteve a invencibilidade até o fim dos playoffs porque deixou escapar uma partida em Cleveland na decisão.

Após a vitória no Jogo 4 das finais deste ano, Draymond Green foi questionado se a conquista do título deste ano tinha sido mais difícil do que as outras duas que tem na carreira. A resposta foi a seguinte: “Sim, 100%. Por causa das coisas pelas quais precisamos passar. Tivemos de superar muitas adversidades. Foram obstáculos mentais, lesões, complacência e qualquer coisa mais que quiserem nomear. Mas nós passamos por tudo.”

David West foi quem deu a declaração mais interessante neste sentido, ainda que sem fornecer detalhes. “Aconteceram algumas coisas internamente que farão vocês ficarem malucos quando se tornarem do conhecimento do público. Foi um atestado do tipo de pessoas que são os jogadores deste elenco e de como somos próximos enquanto grupo. A partir disso, fomos capazes de ganhar”, disse. Bob Myers, gerente geral da franquia, confirmou que alguns problemas apareceram no meio desta jornada, também sem especificar quais. E teve ainda Shaun Livingston comentando que Steve Kerr estava de parabéns por ter sabido lidar com tanta complicada durante a temporada.

Por mais talento que se possa ter à disposição, qualquer equipe terá de passar por obstáculos importantes para ser campeã da NBA. Em 2015, o Warriors teve o mérito de fazer um novo sistema tático emplacar em grande estilo, ao ponto de levar seus jogadores a níveis que ainda não haviam alcançado até então. Dois anos depois, o título veio depois da adição de uma estrela de primeira grandeza, que se encaixou no sistema de maneira extremamente fácil e fluída. O trajeto nos playoffs naquela oportunidade pareceu um passeio pelo parque? Sim, verdade, mas só porque as condições de adaptação instantânea de Kevin Durant eram gigantescas, o que não deixa de ser resultado de todo o trabalho colocado em prática ao longo dos meses anteriores. Afinal de contas, não faltam exemplos na história da NBA de reuniões frustradas entre grandes astros.

O Warriors de 2018 não só conseguiu repetir a dose, o que nunca é fácil, como o fez passando por todos esses problemas que apareceram pelo meio do caminho, sejam eles quais forem. Só será possível ter uma ideia da dimensão deles quando forem revelados, se é que isso um dia vai acontecer. Mas uma coisa já está clara e não vai mudar: em todos os momentos em que se viu com as costas contra a parede durante a temporada e chegou até a despertar algumas dúvidas, esse time sempre teve a capacidade de responder em grande estilo. Como se estivesse refrescando a memória das pessoas sobre o quanto é bom.

A reta final da temporada regular não foi lá essas coisas? Tudo bem, mas aí a defesa avassaladora deu as caras na série de primeira rodada contra o San Antonio Spurs, de um jeito como não se via fazia um bom tempo. Depois, o New Orleans Pelicans até fez acender a luz amarela com a lavada que aplicou em casa durante a semifinal de conferência, só que logo Durant foi desafiado por Green a ser mais agressivo e comandou a classificação sem mais sustos a partir de então. Contra o Rockets, os Jogos 6 e 7 tiveram duas coisas tradicionais: terceiros quartos mortais e movimentações ofensivas incessantes com e sem a bola, que inevitavelmente levam a finalizações com espaço. E na final, nos momentos em que o Cavs poderia desenvolver alguma esperança de que seria possível fazer frente, Curry e Durant apareceram para comprovar que o Warriors era um adversário grande demais para LeBron e companhia.

Existe um motivo pelo qual não vemos dinastias aparecerem toda hora. Mais difícil do que chegar ao topo da NBA é se manter lá. Por quanto tempo mais continuaremos vendo esse reinado? Não dá para saber. O Los Angeles Lakers de Shaquille O’Neal e Kobe Bryant, por exemplo, parecia que conquistaria muitos outros títulos depois de alcançar o terceiro consecutivo, em 2002, mas acabou parando por aí. Então não adianta muito tentar prever o futuro. De qualquer maneira, uma coisa já é certa: o Warriors escreve um capítulo importante na história do basquete. Cada resposta às situações desafiadoras que apareceram ao longo da temporada serviram para comprovar o quanto esse time é especial.

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