Wizards finalmente sustenta liderança e segue vivo no Leste

Luís Araújo

Não tem como começar a falar do terceiro jogo da série entre Boston Celtics e Washington Wizards sem mencionar o clima extremamente tenso dentro de quadra. Foram oito faltas técnicas e três expulsões, que se somaram a diversos outros berros na cara e princípios de confusão das duas partidas anteriores. Tem sido mais ou menos o que se esperava mesmo para quem viu a rivalidade intensa que esses dois times desenvolveram ao longo da temporada.

Por isso não dá para dizer que a declaração de Isaiah Thomas depois do jogo causou algum tipo de surpresa. “Nós não gostamos deles e eles não gostam da gente. É isso o que acontece. O clima ruim que surgiu durante a temporada foi carregado para os playoffs”, disse o armador do Celtics.

Mas em meio a confusões, caras feias e empurrões, teve um jogo de basquete. A exemplo do que já tinha feito nos dois jogos anteriores, o Wizards conseguiu saltar na frente no começo da partida e construir uma boa liderança. Só que desta vez não teve reação do outro lado, até porque a vantagem que se abriu foi ainda maior.

Uma bandeja de Jae Crowder a cerca de seis minutos e meio para o fim do primeiro quarto deixou o placar empatado em 12 a 12. Depois disso, o que se viu foi uma superioridade ampla do Wizards nos dois lados da quadra, traduzida em uma corrida de 22 pontos sem resposta do outro lado. O Celtics só voltou a se mexer no placar quando faltava pouco mais de um minuto para acabar o período, através de um lance livre de Thomas.

Destes 22 pontos consecutivos, 13 foram produzidos por Otto Porter e Bojan Bogdanovic, que chegaram ao final do primeiro quarto com nove cada um. John Wall foi o grande maestro desta vitória que mantém o Wizards vivo na série, é claro, com seus 24 pontos e oito assistências — sem contar as inúmeras ações defensivas que tiveram peso fundamental para o resultado final. Marcin Gortat foi outro gigante com seus 13 pontos, 16 rebotes e ações precisas na leitura do “pick and roll” nos dois lados da quadra. Mas as coisas não teriam sido iguais sem o apoio destes dois.

Porter, por exemplo, acertou oito dos seus 13 arremessos e anotou 19 pontos, além de pegar oito rebotes e roubar três bolas. “Ele é um vencedor”, elogiou o técnico Scott Brooks. “Nós queremos ter ao redor gente com caráter forte e que busca vencer. Ele é assim. É um jovem que se desenvolveu ao longo da temporada. É um dos melhores arremessadores em situação de ‘spot-up’, mas também expandimos mais coisas no jogo dele. É capaz de pegar rebotes e precisa continuar melhorando defensivamente. Hoje ele estava focado em executar a parte dele em cada jogada. O Celtics colocou o Thomas para marcá-lo. Ele não só teve boas oportunidades para finalizar como é um jogador alto, que pode muito bem chutar por cima dos armadores rivais”, completou.

Bojan Bogdanovic também colaborou com 19 pontos, acertando quatro bolas de longa distância, e ainda pegou dez rebotes durante os 29 minutos em que permaneceu em quadra. Tempo muito maior em relação à partida anterior, da qual participou por apenas oito minutos — o que até despertou algumas críticas a Brooks.

“Acho que tomei uma decisão inteligente desta vez, dei mais minutos a ele”, disse o comandante do Wizards. “Ele é um ótimo jogador, eu errei ao limitá-lo a somente oito minutos na partida passada. Fui tomado pelo jeito que aquele jogo estava caminhando, estávamos à frente e tivemos a chance de ganhar. Mas ele participou de outros jogos importantes na temporada, acertou alguns arremessos importantes e fez muita coisa boa conosco. Para essa partida, meu foco foi fazer com que a gente o deixasse em boas condições de chute e que ele tivesse oportunidades logo cedo. Aí ele teve o mérito de se impor rapidamente e acertar algumas bolas importantes para a gente.”

Brooks de fato deposita muita confiança em Potter, tanto que chegou até a admitir durante fase de classificação que o ala é um arremessador muito melhor do que imaginava antes de assumir o cargo de treinador do Wizards. E Bogdanovic foi alvo antes do fim do prazo para trocas justamente para fornecer poder de fogo a partir do banco de reservas sob diferentes circunstâncias, seja atuando ao lado de John Wall e Bradley Beal para converter chutes ou tendo a bola nas mãos para comandar a segunda unidade. É importante que os dois tenham tido apresentações de alto nível em um jogo no qual a vitória era fundamental para o time da capital norte-americana.

Mas talvez o grande motivo pelo qual o Celtics não conseguiu repetir desta vez a reação dos outros dois confrontos da série passa por um fator que vai muito além de qualquer destaque individual: o bom trabalho da defesa como um todo, principalmente durante a primeira metade, quando a equipe de fato matou o jogo.

“Nós os fizemos errar arremessos, contestamos melhor a linha de três e executamos um bom trabalho no sentindo de permanecer em frente a cesta na hora de marcar”, avaliou Brooks. “Acho que os jogadores no lado da defesa sem bola estavam concentrados. Diante de um time como o Celtics, você corre o risco de permitir um bom arremesso se relaxar por quatro ou cinco segundos em uma posse de bola qualquer. Desta vez, acho que nossos jogadores permaneceram focados durante o tempo todo. E nós também fomos muito melhores nos rebotes.”

Os números ajudam a sustentar esse discurso. O Celtics foi limitado a um aproveitamento de 31,3% nas bolas de três e a 35,1% nos arremessos em geral, o que é muito pouco. Dono de 53 pontos no confronto anterior, Thomas fez só 13 desta vez, sendo sete na linha do lance livre. Além disso, o Wizards ganhou com sobras a batalha dos rebotes: 50 a 38.

É o tipo de coisa que vai ter que aparecer mais vezes nesta série e, em caso de classificação, terá de virar uma constante para que se crie alguma esperança de destronar o Cleveland Cavaliers — a não ser, é claro, em caso de reação do Toronto Raptorsna outra série, algo que seria espetacular na mesma proporção em que parece improvável neste momento.

Pelos lados do Celtics, o técnico Brad Stevens falou ainda na entrevista dentro de quadra após o primeiro quarto que tirava o chapéu para o trabalho que o Wizards tinha apresentado nos minutos iniciais. Depois do jogo, repetiu a expressão. Tudo com um tom bastante cordial, distante do cenário descrito por Thomas e ainda mais do clima de guerra que tomou conta da partida.

Por mais que Stevens e seus jogadores ainda não estejam exatamente com as costas contra a parede e que o resultado tenha servido apenas para manter a série aberta, será interessante acompanhar que tipo de resposta o Celtics dará no próximo capítulo desta disputa. Mas Gerald Green já parece extremamente seguro do que está para acontecer. “Nós vamos arrebentar com eles no Jogo 4”, prometeu o ala.

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