A história que o Raptors escreveu no ano em que defendeu o título

Luís Araújo

Jogo 7. Faltavam cinco minutos para o fim. O passe de Kyle Lowry não encontrou Pascal Siakam. Mais um desperdício de posse de bola para o Toronto Raptors, que demonstrava enorme dificuldade para conseguir atacar naquele momento do duelo. Era um momento crítico. O Boston Celtics estava nove pontos à frente e teria a bola nas mãos para tentar ampliar ainda mais a vantagem.

Foi quando o ex-treinador Stan Van Gundy, que trabalhou na transmissão do confronto como comentarista da TNT, disse o seguinte: “As pessoas têm falado muito sobre o quanto é impressionante o que esse Raptors tem feito sem Kawhi Leonard durante essa temporada. E é verdade. Eles jogaram mesmo muito bem, fizeram a segunda melhor campanha da conferência, estão aqui nesse Jogo 7 e ainda podem reagir e ganhar. Mas o Kawhi é um cara que carrega o ataque em situações como essa. Toronto não tem mais alguém do tipo. São bons jogadores. Mas os armadores (Kyle Lowry e Fred Vanvleet) não têm tamanho para fazer o que ele fazia, chutando por cima dos adversários na marra. E por mais que tenha melhorado, Pascal Siakam ainda não tem essa qualidade de jogo de meia quadra para ser esse cara.”

Ficou muito claro mesmo o quanto um jogador como Kawhi fez falta a esse time e não possibilitou que a defesa do título fosse mais longa. Lá no fundo, é seguro imaginar que quase todo mundo esperava que isso fosse acontecer em algum momento. O Raptors escreveria um capítulo pra lá de inusitado e improvável na história da NBA se conseguisse ser campeão de novo logo após perder o MVP das finais do ano anterior. O risco de não ter mais à disposição uma estrela desse porte estava ali o ano todo. A derrota para o Celtics nessa série relembrou essa sensação, que parece ter sido minimizada durante alguns momentos ao longo da caminhada. E é justamente por isso que ela foi tão especial.

Não deu para o Raptors fazer muito mais do que chegou a fazer na época em que Kawhi virou agente livre. Ele optou por não renovar o contrato e se mandar para Los Angeles. Não foi feita uma reposição à altura. Nem dava para viabilizar isso. E como a equipe respondeu? Com a segunda melhor campanha de toda a NBA na temporada regular. A defesa não só apareceu em segundo lugar no ranking de eficiência, mas chamou ainda mais a atenção pela capacidade de variação de um jogo para o outro, em função do adversário que vinha pela frente. Gente que já estava lá mostrou evolução. Normal Powell e OG Anunoby tiveram a melhor temporada de suas carreiras. Fred VanVleet se estabeleceu como titular e se valorizou demais no seu último ano de contrato. Pascal Siakam virou “all-star”.

Nos playoffs, especialmente na segunda rodada, Siakam decepcionou. O desempenho na série contra o Celtics passou longe do que teve na temporada regular. Foram só 14,9 pontos por jogo e uma média de 38,2% nos arremessos. Nas bolas de três, teve aproveitamento de 12,5% (apenas quatro acertos em 32 tentativas). Dentre todos os atletas na história dos playoffs da NBA que arriscaram pelo menos 30 chutes de três pontos ao longo de uma série, ninguém teve rendimento inferior ao dele.

“É óbvio que eu preciso ser um jogador melhor do que isso”, disse Siakam, logo após a derrota no Jogo 7 para o Celtics. “Esse definitivamente foi um momento de aprendizado para mim. Essa série foi uma experiência e tanto. Ela me ensinou que preciso estar preparado e me mostrou que não fui capaz de ajudar meus companheiros. Eu assumo muito da culpa por essa eliminação.”

Em vários momentos ao longo da série, o técnico Nick Nurse foi questionado sobre Siakam e tratou de defende-lo. VanVleet fez o mesmo depois da eliminação. “Eu estou orgulhoso dele e eu o amo. Ele é meu irmão. Eu iria para a guerra ao lado dele a qualquer hora. Sei que ele não mostrou o seu melhor, que não jogou do jeito que gostaria, mas eu adorei o esforço dele e a intensidade”, disse. “Ele continuou tentando, mas as coisas não deram certo. Faz parte. Todo mundo tem altos e baixos. Infelizmente, foi a vez dele nessa série. Acontece com todo mundo”, completou.

Esse enredo pode fazer com que Siakam seja um dos personagens mais interessantes de se acompanhar quando a temporada 2020/21 começar. Como ele vai reagir depois desses playoffs? Vai voltar ao patamar de “all-star” de antes? Vai continuar se desenvolvendo e chegar a um nível ainda melhor do que já mostrou até hoje? Ou vai virar um registro curioso na história da NBA como mais um daqueles jogadores que tiveram um breve momento de brilho na carreira, mas que não sustentou isso?

Esse último cenário pode até acontecer, mas ainda parece improvável. Siakam já tinha sido muito importante na campanha do título. Diante de um Golden State Warriors que buscava o quarto título em cinco anos, ele entregou à sua equipe um trabalho muito sólido nos dois lados da quadra. Por mais que tenha ficado claro que ele ainda está longe de ser um Kawhi Leonard (e que isso pode perfeitamente jamais acontecer), ainda não parece fazer muito sentido imaginar que ele não volte a continuar desenvolvendo a melhor versão de si mesmo depois de passar por uma experiência como essa.

O futuro nebuloso que existe no Raptors se dá por outros fatores, que não atendem pelo nome de Siakam. VanVleet, por exemplo, será agente livre. É de se imaginar que a equipe canadense fará de tudo para mantê-lo, mas a que preço? Propostas de outros times aparecerão para ele, sem dúvidas. Marc Gasol e Serge Ibaka, já nos estágios finais de suas respectivas carreiras, também ficarão sem contrato. Vale a pena trazê-los de volta? Os dois? Só um deles? Por quanto tempo?

As interrogações complicam o exercício de imaginação sobre o que será que o futuro reserva para o Raptors a partir da próxima temporada. Será preciso esperar um tempo, não tem jeito. Sobre o que já passou, dá para dizer que foi uma história e tanto. Foi uma defesa de título muito especial ao longo desse último ano. Dá até para se apoiar em alguns pontos disso e nutrir esperança de que a competitividade por lá vai continuar em alta, apesar das incertezas. E aí vale voltar para algo que Brad Stevens, comandante do Celtics, disse na entrevista coletiva depois do Jogo 7.

Stevens não só elogiou a defesa do Raptors e a variedade de esquemas, como lembrou que em vários momentos o seu ataque funcionava em uma posse de bola e, logo na seguinte, deixava de funcionar porque algum ajuste era feito. Disse que Nick Nurse é um treinador fantástico, que tem em mãos um elenco cheio de jogadores inteligentes e que Kyle Lowry é um dos melhores jogadores que ele já teve a oportunidade de enfrentar como técnico na NBA.

Nurse teve uma temporada que de fato o colocou entre os melhores técnicos da NBA, capaz de fazer os ajustes necessários, tirar o máximo do elenco à disposição e desenvolver peças. Lowry, felizmente, parece ser muito mais reconhecido hoje pelo grande jogador que é do que como uma espécie de símbolo de campanhas decepcionantes, como boa parte das pessoas o via até um passado não tão distante assim. Há ainda as já citadas trajetórias de VanVleet, Anunoby, Powell e Siakam — apesar da má impressão na reta final dos playoffs. Somando tudo isso, temos uma história que pode ser colocada tranquilamente entre as mais fascinantes da liga nesse último ano.

Na reta final da série contra o Celtics, já na segunda rodada dos playoffs, é claro que a ausência de Kawhi Leonard foi bastante sentida. Mas precisou que o time ficasse a uma vitória de retornar à decisão do Leste para que isso acontecesse. Ninguém se esqueceu de que o MVP das finais do ano anterior tinha ido embora. Ainda assim, não foi raro ver gente por aí apostando que o Raptors venceria a conferência de novo e lutaria pelo bi. E não tinha nada de absurdo nisso, não. O que definitivamente diz muito sobre essa campanha.

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