A incerteza sobre o futuro de Giannis coloca pressão em cima do Bucks

Luís Araújo

A história se repetiu para o Milwaukee Bucks. Pelo segundo ano consecutivo, o time teve a melhor campanha, a defesa mais eficiente e a maior média de saldo de pontos da temporada regular da NBA, mas acabou ficando pelo caminho nos playoffs. A eliminação dessa vez veio ainda mais cedo: na semifinal de conferência, diante do Miami Heat, em cinco jogos. Trata-se de um roteiro que desperta sensações óbvias de decepção e frustração para a franquia, mas que também coloca um grande nível de pressão sobre a direção. A razão disso é a situação contratual de Giannis Antetokounmpo.

A principal estrela da equipe tem só mais um ano de contrato. Assim que a “offseason” começar, o Bucks poderá oferecê-lo uma extensão de contrato, que passaria a valer a partir de 2021 e teria cinco anos de duração. O valor exato dependeria ainda do teto salarial que a NBA estabelecerá para as próximas temporadas, mas estima-se que seria algo entre US$ 225 milhões e US$ 250 milhões. De qualquer maneira, seriam cerca de US$ 80 milhões a mais do que qualquer outra franquia poderia oferecer.

Se Giannis decidir assinar essa extensão, ótimo para o Bucks. Haveria uma traquilidade muito maior para continuar tentando desenvolver o elenco e eventualmente conquistar o título. O problema é que não haverá paz enquanto ele não aceitar esse acordo. Os níveis de incerteza serão enormes a cada dia da “offseason” que passar sem uma resposta dele. O que forçaria a franquia a trabalhar partindo do princípio que a próxima temporada seria uma última cartada para convencê-lo a permanecer.

Dá para dizer que o primeiro sinal relacionado a essa história foi positivo. Logo após a eliminação dos playoffs, Giannis foi questionado sobre a possibilidade de pedir para ser trocado já nessas próximas semanas. “Isso não vai acontecer. Alguns veem uma parede pela frente e partem para uma nova direção. Eu tento atravessá-la. Nós só temos que melhorar como time e voltar para a próxima temporada”, afirmou o grego. “Se ganhar um campeonato fosse fácil, todo mundo conseguiria. Nós perdemos. Todo mundo viu isso. É decepcionante. Mas o que vamos fazer? Vamos continuar trabalhando. Eu tenho confiança nos meus companheiros de equipe.”

Ele ainda falou sobre a construção de uma cultura vencedora em Milwaukee, que manteria o time brigando pelo título ano após ano. Diante da lembrança do que aconteceu na história recente da NBA com alguns outros astros, trata-se de um primeiro sinal positivo, sim. Anthony Davis, Paul George e Kawhi Leonard pediram para sair das equipes em que estavam antes de assinarem extensão contratual. Poderia acontecer o mesmo com Giannis. Vai saber qual seria o nível de frustração dele após mais um fim de temporada decepcionante. Mas não aconteceu. A não ser que tenha mentido ou que venha a mudar radicalmente de ideia nos próximos dias por algum motivo qualquer, ele garantiu ao menos mais um ano no Bucks.

A questão é saber se essa vontade de permanecer vale para além de 2021 ou não, coisa que só ficará clara com a extensão. Se realmente tiver de trabalhar para a próxima temporada esperando que sua principal estrela vire agente livre ao final dela, o Bucks vai viver algo que já aconteceu com Cleveland Cavaliers e Oklahoma City Thunder recentemente.

O Thunder entrou na temporada 2015/16 sabendo que Durant viraria agente livre. Uma das decisões que tomou para tentar mostrar serviço para ele foi trocar o técnico, contratando Billy Donovan para o lugar de Scott Brooks. O time não só alcançou a final de conferência como chegou a abrir 3 a 1 na série contra o Golden State Warriors (que vinha da histórica campanha de 73 vitórias), mas acabou levando a virada. Algumas semanas depois, como bem sabemos, Durant resolveu juntar-se ao próprio Warriors.

A história do Cavs dez anos atrás talvez seja um paralelo ainda mais claro. Depois de pegar LeBron James no Draft e desenvolver o elenco ao redor dele com o tempo, o time cresceu e estabeleceu a melhor campanha da NBA por dois anos consecutivos, mas acabou caindo nos playoffs do Leste em ambas as oportunidades — nas finais de conferência em 2009, para o Orlando Magic, e na segunda rodada de 2010, diante do Boston Celtics. LeBron entendeu que precisava sair de lá para perseguir o tão sonhado título, então decidiu se juntar a Dwyane Wade e Chris Bosh em Miami.

Se for esse mesmo o cenário do Bucks para a “offseason”, o desafio é claro: se virar do jeito que for para melhorar esse time ao redor de Giannis. As transformações podem incluir até uma troca no comando, tendo em vista as críticas — justas — que caíram em cima do trabalho de Mike Budenholzer nos playoffs. A história da NBA está cheia de técnicos muito bons em temporada regular, mas que apresentam limitações em playoffs, quando a capacidade de ajustes entre uma partida e outra de uma série são muito mais exigidas. Budenholzer pode até vir a mostrar que não pertence a esse grupo, mas o Bucks definitivamente não tem tempo a perder.

Fora isso, seriam esperadas também algumas mudanças no elenco. Já há quem fale em uma investida por Chris Paul, valorizado depois de uma boa temporada com o Thunder. Seria uma adição e tanto, mas não parece um negócio simples. Principalmente se a intenção for viabilizar isso sem envolver Khris Middleton. Paul receberá cerca de US$ 41 mihões na próxima temporada e terá ainda uma “player option” para a seguinte. De qualquer maneira, seria só uma das várias possibilidades que a direção do Bucks teria de considerar para fazer melhorias e animar o seu principal jogador.

É importante ter em mente que Milwaukee é um mercado pequeno. Um dos menores da NBA. Portanto, apesar de fazer todo sentido pensar em dar um “all-in” para manter Giannis, é prudente pensar em movimentos que não venham a comprometer uma eventual reconstrução caso o grego resolva sair em 2021. O que nos leva a uma outra alternativa para esse problema: trocá-lo já nessa “offseason”, mesmo ele já tendo manifestado o desejo de seguir até o fim do contrato e sabendo que será impossível receber algum outro jogador do mesmo calibre. Tudo para não correr o risco de perdê-lo de graça.

Já há relatos de que o Bucks não tem a intenção de fazer isso. Em condições normais, seria o certo a se pensar mesmo. Giannis tem ainda 25 anos, já faz parte da primeira prateleira de astros da NBA e ainda parece não ter chegado no auge. Quando se tem um talento desse nível, o caminho mais indicado parece ser mesmo apostar todas as fichas para fazer o casamento dar certo e ver o que acontece depois. Mas, de novo: Milwaukee é um dos menores mercados da NBA, que não costuma atrair grandes agentes livres e que não levava tanto público ao ginásio antes do desabrochar do grego. Os efeitos negativos de uma saída dele sem nada em troca poderiam ser enormes e levar muito tempo para serem contornados. E é justamente por isso tudo que não chega a ser difícil imaginar que algumas propostas sejam feitas.

Uma possibilidade que vem sendo comentada seria com o Golden State Warriors. Acredita-se que o pacote teria Andrew Wiggins, a escolha número 2 do Draft de 2020, uma outra escolha futura de primeira rodada vindo do Minnesota Timberwolves (que o Warriors tem por causa da troca em que obteve Wiggins) e Eric Paschall, que deverá aparecer em um dos times ideais de novatos da NBA nessa temporada. O Warriors não quer perder mais tempo para voltar a competir pelo título. Há um entendimento dentro da franquia de que é necessário aproveitar ao máximo enquanto Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green ainda estão jogando em alto nível. Além disso, a folha salarial por lá anda apertada, então a única chance de adicionar uma estrela como Giannis seria por meio de uma troca agora.

O Brooklyn Nets também pode pintar como um candidato a tentar a sorte com o Bucks. Especula-se que seria uma proposta centrada em Caris LeVert (que teve ótimo desempenho e deixou impressão pra lá de positiva na bolha), Spencer Dinwiddie e algumas outras escolhas de Draft — apesar de nenhuma delas ter o mesmo valor que a do Warriors.

São especulações demais que surgem a partir de mais uma eliminação decepcionante do Bucks. Todas elas podem acabar com o acerto de extensão de Giannis. Mas enquanto isso não acontece, a única certeza que se tem é de que a franquia terá uma “offseason” extremamente crítica pela frente.

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