As primeiras impressões sobre o quinteto de gigantes do Nuggets

Luís Araújo

A pandemia do novo coronavírus levou a NBA a uma pausa forçada por mais de quatro meses. Assim que ela voltou, não demorou quase nada para que os fãs ao redor do mundo ficassem em choque diante de uma novidade que se apresentou: a escalação do Denver Nuggets. Na primeira partida de preparação para a sequência da temporada 2019/20, o técnico Mike Malone mandou para a quadra um quinteto formado por Nikola Jokic, Jerami Grant, Bol Bol, Paul Millsap e Mason Plumlee.

É importante colocar as coisas em perspectiva. O menor desse quinteto é Paul Millsap, com 2m01. Durante a carreira inteira, ele jogou como ala-pivô e foi visto como alguém baixo para a posição. Então é claro que não se trata propriamente de nenhum gigante. Mas dessa vez era diferente, já que não havia mais ninguém no time mais baixo que ele. Além disso, vale ressaltar que havia outros dois jogadores mais alto do que Mason Plumlee, que apareceu listado como pivô na escalação: Nikola Jokic e Bol Bol, novato que ainda não atuou um minuto sequer em jogos oficiais.

A sensação que bateu na hora era a de que nunca um time da NBA começou um jogo com um quinteto tão alto. Não demorou muito para que isso fosse desmentido. Conforme lembrou o jornalista Alberto de Roa, o Dallas Mavericks uma vez entrou em quadra com a seguinte escalação: Michael Finley, Hubert Davis, Dirk Nowitzki, Chris Anstey e Shawn Bradley. O que dá uma média de quase 2m11.

Essa partida em questão aconteceu no dia no dia 4 de maio de 1999. O Mavericks perdeu para o Seattle Supersonics por 110 a 100. Foi o último compromisso da fase de classificação, e o time já estava eliminado. A história agora com esse Nuggets é outra. É verdade que esse jogo contra o Washington Wizards foi apenas uma exibição, como parte da preparação para a volta da temporada 2019/20. Mas a intenção dessa experiência é verificar o quão viável ela pode ser para quando as coisas voltarem para valer, com os playoffs já no horizonte. Os níveis de motivação por trás disso são bem diferentes em relação ao do Dallas Mavericks de 21 anos atrás.

O choque dessa escalação do Nuggets foi grande para quem estava vendo esse jogo ao vivo. Quase na mesma proporção em que a formação parecia inusitada. Não era para menos, convenhamos. Podia dar super certo ou podia ser um desastre, o certo era que definitivamente havia ali algo para prover entretenimento.

Aí o jogo começou, e dá para dizer que as expectativas que se criaram foram atendidas. Foi mesmo muito interessante ver o Nuggets jogar. A defesa montou uma zona 2-3, com Grant e Plumlee na linha de cima. Pois é: aquele que havia sido relacionado como pivô estava marcando no perímetro. O conceito tradicional de posições também passou longe de ser visto no ataque. Basicamente, todos os cinco atletas em quadra tinham carta branca para fazer as vezes de armador. Quem pegasse a bola na defesa a levava para o ataque e iniciava as jogadas.

Logo na primeira posse de bola, deu para ver Plumlee com a bola na mão servindo Jokic perto do garrafão. O sérvio recebeu e tentou se virar no “post-up” contra um defensor mais baixo, o que é naturalmente um bom negócio. Ele tem um bom rendimento nessas jogadas, então fazia sentido mesmo ser acionado ali quantas vezes fossem necessárias.

Em um outro lance um pouco mais tarde, Plumlee novamente fez as vezes de armador. Jokic acabou recebendo e chutou de três com liberdade, mas é interessante reparar em como esse espaço foi criado. Ele primeiro se posicionou para fazer um bloqueio para Bol. A defesa entendeu. Mas depois ele deu a impressão de que iria tentar um novo bloqueio. Ao invés disso, Bol cortou para a cesta e ele abriu para o perímetro. Foi uma ação que bastou para confundir os defensores e gerar esse arremesso desmarcado.

Pouco depois, veio o lance que terminou com a primeira cesta de Bol no jogo. É interessante observar como tudo começou com Jokic correndo a quadra inteira como se fosse um armador mesmo. Enquanto Bol se posicionou perto da cesta para receber em vantagem contra um oponente bem mais baixo, Plumlee correu para a linha de três. Em uma ação que ajuda a mostrar o quanto esse Nuggets parecia ter como proposta se afastar do conceito engessado de posições de cada jogador.

Esse teste de Mike Malone não podou um outro ponto muito forte no jogo de Jokic: as ações na cabeça do garrafão com a bola nas mãos para a entregar a quem aparecer com espaço. Isso fica claro neste par de ações a seguir com Troy Daniels, que veio do banco durante o primeiro quarto. Na primeira, ele fez um “handoff” para o chute de três do companheiro. Na segunda, houve uma troca de passes a partir de um “pick and roll” entre os dois.

Manter Jokic confortável é uma ótima notícia para qualquer começo de experiência. Mas não tem jeito: as primeiras impressões sobre isso passam pelo o que Bol se mostrou capaz de entregar. Foram 16 pontos, dez rebotes e seis tocos para ele. Números incríveis para um novato que não fazia parte do time até a pausa no campeonato.

“Fazer isso tudo na primeira vez que encontra competição do nível da NBA pela frente na vida é excelente”, disse Mike Malone após o jogo. “Nós o colocamos no meio da nossa zona na defesa. Tentamos forçar os ataques adversários se afunilarem na direção dele para que ele pudesse dar esses tocos. Ele fez um ótimo trabalho. Acho que ficou cansado depois, o que já era esperado.”

A descrição de Malone sobre o posicionamento de Bol na defesa aparece com clareza no vídeo a seguir. A altura e a envergadura naturalmente o tornam uma grande ameaça para quem o encara em uma infiltração. Na jogada em que ele deu o toco, pode-se até argumentar que daria para se fazer um passe ali embaixo da cesta. Mas, diante desses braços tão longos, quem se atreve? O risco de perder a bola não seria menor.

Para completar, Bol levou a bola para o ataque depois do toco, parou na linha de três e chutou sem qualquer hesitação. Nem parecia estreante. Demorou bem pouco para que ele demonstrasse tamanha confiança para fazer uma coisa desse tipo.

“Eu não sou capaz de ensinar altura para alguém”, disse Malone. “Não sou capaz de ensinar envergadura. Também estou bastante certo de que não sou capaz de ensinar a alguém a ter tanta facilidade assim de chutar a bola da linha de três. Ele só vai ficar melhor na medida em que ficar mais forte. E eu fiquei muito animado pelo o que ele apresentou nessa partida.”

Foi só o primeiro capítulo de uma nova experiência. Naturalmente, ainda há pontos a serem ajustados. Especialmente na defesa. Por mais que Bol tenha dado seis tocos, por vezes o ataque do Wizards conseguiu achar espaços para definir depois de movimentar a bola no perímetro. Também fica a questão sobre como os jogadores irão se comportar na defesa em termos de posicionamento e coberturas contra ataques melhores, mais talentosos, capacitados a desequilibrar marcações mais vezes em uma posse de bola. Isso sem falar na condição física de Bol, que ainda não parece pronto para atuar por cerca de 30 minutos em uma partida.

Mas é normal que se tenha tantas dúvidas. Só o tempo vai respondê-las e apontar o quanto essa ideia de Malone para o Nuggets é viável. O que dá para dizer nesse momento é que se trata de uma tentativa louvável. Extremamente interessante. Que desperta algumas reflexões na forma de se olhar para o jogo.

Nesse sentido, vale a pena voltar a algo que Malone falou pouco antes do início da partida. “Já ouvimos por anos sobre o basquete ser um esporte sem posições fixas nessa era moderna. Bom, vamos ter uma ideia sobre como isso funciona logo mais. Colocar os caras em posições diferentes, fazendo com que fiquem um pouco desconfortáveis e os forçando a encarar responsabilidades que não estavam acostumados antes só irá ajudá-los”, comentou.

Não é nenhum absurdo dizer que o Nuggets muito dificilmente conquistaria o título do jeito que estava antes da pausa. Também seria extremamente prematuro cravar que esse novo jeito de jogar, contra um frágil Wizards, em um jogo amistoso, já leva a equipe a um novo patamar. Mas já é uma coisa diferente com a qual os adversários terão de lidar. E se o que Malone pensou realmente acontecer, é uma experiência que pode valer a pena simplesmente por tornar os jogadores melhores.

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