Lakers campeão da NBA: uma história com começo, fim e meio

Luís Araújo

A temporada 2019/20 da NBA começou com um clima de incertezas no que dizia respeito a favoritismo. O Golden State Warriors, bicho papão de anos anteriores, não teria Klay Thompson, que machucou o joelho nas finais de 2019 e teve de passar por cirurgia. Além disso, não contaria mais com Kevin Durant, que assinara com o Brooklyn Nets, que fisgara também Kyrie Irving. O campeão Toronto Raptors viu Kawhi Leonard ir embora para o Los Angeles Clippers, onde encontrou Paul George. O Houston Rockets tinha colocado Russell Westbrook ao lado de James Harden. O papo sobre os principais candidatos ao topo incluíam ainda o Milwaukee Bucks, dono da melhor campanha na temporada anterior, o Miami Heat, reforçado por Jimmy Butler, o Philadelphia 76ers e, claro, o Los Angeles Lakers. Afinal de contas, LeBron James teria a companhia de Anthony Davis.

Era uma sensação completamente diferente do que se viveu no início de temporada em anos anteriores. A corrida pelo título parecia aberta como não se via em muito tempo. E como foi que tudo isso acabou? Com o Lakers campeão. Comandado por um LeBron que não dá sinais de decadência, um Anthony Davis dominante nos dois lados da quadra, um elenco de apoio bastante útil em diversos momentos e um Frank Vogel que se mostrou o técnico certo para essa equipe. Foi a conquista do time que melhor conseguiu responder quando confrontado por situações desafiadoras dentro de quadra. Que acabou se mostrando o mais confiável da NBA, de fato.

A pausa forçada pela pandemia do novo coronavírus fez com que o intervalo de tempo entre o começo e o fim dessa história levasse mais de um ano. Durante esse período, vários obstáculos apareceram no caminho do Lakers. Um deles logo na “offseason”, quando havia a possibilidade de contratar Kawhi Leonard como agente livre. Como se sabe, ele não só demorou para tomar uma decisão como acabou escolhendo o Clippers.

Essa situação forçou o Lakers a correr para montar o restante do elenco com quem ainda estava disponível no mercado de agentes livres, bem depois de muita gente já ter definido o destino. O jeito foi assinar com Danny Green, outro integrante do Raptors campeão de 2019, e acertar contratos de um ano com algumas peças que tinham feito parte da equipe na temporada anterior: Kentavious Caldwell-Pope, Rajon Rondo e JaVale McGee. DeMarcus Cousins juntou-se ao grupo mais tarde.

Alguns meses depois, o elenco e a nova comissão técnica se encontraram para iniciar os trabalhos de preparação para a temporada. Jared Dudley e Danny Green deram depoimentos a Zach Lowe, jornalista da ESPN norte-americana, contando como isso se desenrolou. Frank Vogel chegou dizendo com todas as letras o que queria do time: que tivesse a defesa mais física da liga, que estabelecesse nela a base de sua identidade para depois construir mais coisas a partir disso. Isso incluía a orientação para se evitar as trocas de marcação em bloqueios.

A lógica de Vogel era que o Lakers tinha alguns jogadores bem altos, com bom potencial defensivo perto da cesta, e que não parecia correto que eles fossem forçados a marcar gente menor longe da cesta. A não ser que algum grande arremessador em uma outra equipe passasse a exigir isso. Ainda assim, as trocas não seriam a primeira opção para lidar com isso. “O Golden State Warriors fez parecer que todo mundo precisava trocar, mas há vários times que estão jogando um estilo de basquete em que isso não precisa ser feito”, disse Green a Lowe.

O texto em questão também pontua algo importante: por melhor que Vogel tenha apresentado as suas ideias e por mais que acreditasse nelas, nada adiantaria se LeBron não as comprasse. Mas ele comprou. As primeiras sessões de treinos antes da temporada foram bastante intensas, colocando em prática o espírito e a disciplina que o novo treinador tinha planos de ver.

Durante os playoffs, essa defesa deu as caras de um jeito determinante para o sucesso do Lakers em vários momentos. Na série contra o Houston Rockets, por exemplo, o que se viu durante boa parte da sequência de quatro vitórias do time foram dobras bastante eficientes para cima de James Harden. Muito bem pensadas e executadas, de maneira a força-lo a se livrar da bola sem deixar nenhum outro companheiro dele com bastante espaço para receber e finalizar livre. Os posicionamentos e as rotações eram impecáveis. O timing para fazer isso também. As coisas aconteciam do jeito certo e no momento certo, impedindo diversas vezes que desse tempo de a bola voltar para as mãos de Harden.

Uma coisa que não se viu muito nessa série contra o Rockets foi Dwight Howard em ação. Depois que Cousins se lesionou e passou a ficar indisponível para a sequência da temporada, o Lakers foi atrás de Howard para completar o elenco. Era, portanto, um retorno sete anos depois de uma primeira passagem que acabara sem que saudade algums fosse deixada nos torcedores. A realidade dele era completamente diferente: ao invés de “all-star” cobiçado, vinha de experiências pouco marcantes por alguns times e parecia ter cada vez menos espaço na liga. O próprio contrato assinado com o Lakers dava uma dimensão disso: teria apenas um ano de duração, com salário sendo pago para cada dia que ele permanecesse com o grupo, sem garantia nenhuma em caso de corte.

Howard foi permanecendo com o time a temporada toda. Aí vieram os playoffs. Na primeira rodada, contra o Blazers, teve boa ajuda com o trabalho que entregou nos rebotes. Depois, diante do Rockets, viu o tempo de quadra reduzir drasticamente. Passou a ser um mero torcedor do lado de fora. Algo que poderia ter sido um problema no passado, mas não agora.

“O contrato que Dwight assinou foi uma questão de mostrar que ele estava preparado para essa oportunidade”, disse Charles Briscoe, agente do pivô. “Ele perdeu praticamente tudo o que tinha construído dentro da liga. Ele sentiu que se quisesse ter alguma coisa de volta, teria que recomeçar de baixo e trabalhar em cima desse retorno. O velho Dwight talvez teria algumas reclamações a fazer, mas a mentalidade dele durante todo esse ano tem sido voltada para fazer qualquer coisa que for necessário para vencer um campeonato.”

Se para Howard foi comum passar grandes períodos de tempo fora de quadra nos playoffs, para Caldwell-Pope as coisas foram diferentes. Ao longo das 21 partidas que o Lakers disputou nessa fase, ele ficou em ação por 608 minutos, o que o coloca como o terceiro atleta mais usado por Vogel, atrás apenas de LeBron e Davis. O número sugere que ele gozava de confiança por parte da comissão técnica. Não era para menos. Durante a maior parte do tempo, ele realmente acabou sendo o terceiro melhor jogador desse time. Nas finais de conferência e na decisão do título, as boas colaborações defensivas e as cestas de longa distância que converteu em momentos cruciais o fizeram parecer a melhor versão que se imaginou para Caldwell-Pope nesses últimos anos todos. Foi uma ótima hora para isso aparecer.

As histórias de reviravolta dentro desse elenco campeão podem ser vistas ainda sob as óticas de outros três jogadores. Avery Bradley vinha sendo um bom titular durante a primeira parte da temporada, o que já era uma resposta positiva após passagens fracas por Detroit Pistons, Los Angeles Clippers e Memphis Grizzlies. Mas aí ele decidiu não ir para a “bolha”, em Orlando. Tinha tudo para ser um grande problema para o Lakers. Alex Caruso não foi exatamente o substituto dele no quinteto inicial, mas acabou recebendo mais minutos na rotação em decorrência dessa baixa e deu conta do recado. Pela boa movimentação com e sem bola a nas mãos, mas principalmente pelas leituras e coberturas impecáveis na defesa. Ficou bem claro que é muito mais do que um mero jogador carismático. E tem também Rajon Rondo, que transformou as desconfianças em atuações expressivas nos playoffs e se tornou o primeiro jogador da história da NBA a ganhar títulos tanto pelo Lakers como pelo Boston Celtics.

Não foram só as peças do elenco de apoio e o técnico que passaram por um ano de provação. Isso aconteceu com as estrelas também. Na entrevista que deu ainda dentro de quadra após o Jogo 6 das finais, Anthony Davis foi perguntado sobre o que tinha aprendido sobre si mesmo.

A resposta foi a seguinte: “É preciso competir. Isso demanda muito trabalho duro. É difícil, mas esses caras aqui ao meu lado me forçaram a isso todos os dias durante a temporada, especialmente LeBron e Rondo. Eles me cobraram para melhorar a cada dia e estar pronto para cobrir os erros de todo mundo. É o meu trabalho. Chegar em posição de vencer um título e descobrir como é essa sensação só me faz querer sentir isso de novo. Estou feliz demais por estar com esses meus companheiros, passamos por muita coisa desde o começo da temporada. Eu amo esses caras.”

Lakers campeão da NBA: LeBron James e Anthony Davis comemoram no Jogo 6 das finais

Antes mesmo de a decisão contra o Miami Heat começar, LeBron já vinha falando sobre o quanto estava disposto em recolocar o Lakers no topo da NBA para contrariar aqueles que duvidavam da sua motivação. Ele lembrou que ouviu muita gente sugerir que sua decisão de se mudar para Los Angeles não tinha relação com o basquete e que esse tipo de coisa só piorou depois da primeira temporada lá, quando ficou fora dos playoffs. Então ele estava louco de vontade para provar um ponto. Conseguiu. Mais do que dar mais um título a uma das equipes mais vitoriosas da história do esporte, fez de tolo todo mundo que chegou a imaginar que ele já não tinha mais tanta gasolina no tanque.

Depois que chegou lá, na hora de olhar para trás e avaliar o que funcionou, LeBron tratou de destacar o ambiente dentro do time. “A camaradagem que rola aqui no elenco, essa possibilidade de fazer coisas juntos dentro e fora de quadra, foi o que me permitiu sobreviver esse tempo todo sem a minha família por perto”, disse.

Foi a camaradagem. Foram as duas estrelas motivadas e impulsionadas a atingirem seus níveis mais altos. Foram os coadjuvantes preparados para entregar o que fosse necessário. Foi o sucesso de um plano apresentado pelo comandante no primeiro dia de trabalho. Foram os ajustes precisos. Se a história da temporada 2019/20 começou com um clima de incertezas sobre o ranking de forças e acabou com o Lakers campeão de maneira tão sólida, então as coisas no meio do caminho dizem muito sobre como esse time conseguiu fazer tudo melhor do que os outros.

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