LeBron James: do Draft aos títulos, relembre a carreira de um dos maiores de todos os tempos

Luís Araújo

LeBron Raymone James é um dos melhores e mais importantes jogadores de basquete de todos os tempos. Atualmente, defende o Los Angeles Lakers, time pelo qual conquistou o título da NBA em 2020. Também foi campeão por Cleveland Cavaliers e Miami Heat, equipes em que jogou anteriormente.

Nome completo: LeBron Raymone James
Data de nascimento: 30/12/1984
Onde nasceu: Akron, Ohio (Estados Unidos)
Altura e peso: 2m06 – 113kg
Redes sociais: TwitterInstagram
Títulos: 4 vezes campeão da NBA (2012, 2013, 2016 e 2020), 2 medalhas de ouro em Olimpíadas (2008 e 2012)
Prêmios: 4 vezes MVP (2009, 2010, 2012 e 2013), 4 vezes MVP das finais (2012, 2013, 2016 e 2020), melhor novato da NBA em 2004


Índice

A expectativa no Draft

Rumo ao estrelato

A ida à final em 2007

Free agency em 2010

The Decision

O começo de vida em Miami

Enfim campeão

De volta para casa

‘Cleveland, isso é para vocês’

No trono do Leste

Rei em Hollywood

Campeão pelo Lakers

LeBron James e as Olimpíadas

Posicionamento fora das quadras


A expectativa no Draft

Minutos antes do anúncio da primeira escolha do Draft de 2003, durante a transmissão ao vivo do evento na ESPN dos Estados Unidos, o comentarista Jay Bilas foi perguntado a respeito de suas impressões sobre LeBron James. Bilas jogou basquete nos anos 1980, depois virou treinador e chegou até a trabalhar na comissão técnica de Mike Krzyzewski na Universidade de Duke.

A resposta de Bilas foi enfática. “Ele é tão habilidoso quanto Kobe Bryant e Kevin Garnett eram quando tinham a mesma idade, mas fisicamente é muito mais imponente. Não acredito que exista nenhuma pessoa razoável no meio do basquete que perderia a chance de pegar LeBron James nessa primeira escolha. É decisão absolutamente óbvia. Ele tem tudo o que é preciso para se tornar um grande jogador na NBA”, disse.

O resgate dessa declaração ajuda a mostrar um pouco como era o clima naquele dia. Havia uma expectativa gigantesca em cima daquele garoto, cuja dominância o fazia parecer um adulto encarando crianças em suas partidas colegiais pela escola St. Vincent-St. Mary. Ninguém tinha a menor dúvida de que o Cleveland Cavaliers, dono da primeira escolha daquele Draft, selecionaria LeBron James.

LeBron James teve partida no colegial transmitida para todos os Estados Unidos

“Esse garoto atendeu a todas as expectativas que foram criadas até hoje”, disse em determinado momento Dick Vitale, outro comentarista da ESPN que participava da transmissão do Draft. “Ele tem aquele instinto especial para jogar. Ao longo dos meus 25 anos de carreira como analista de basquete, eu nunca vi um jogador melhor do que ele no colegial.”

O debate entre os comentaristas na transmissão passou por mais alguns outros nomes de jogadores que estavam prestes a serem escolhidos. Ainda faltavam alguns minutos para David Stern, então comissário da NBA, anunciar a primeira escolha. Deu para o bate-papo abordar, por exemplo, Darko Milicic. Por mais que hoje em dia possa parecer um absurdo, também não havia muita dúvida de que o ala-pivô sérvio seria o segundo selecionado. Naquele momento, era completamente compreensível que Carmelo Anthony, Chris Bosh e Dwyane Wade viessem depois dele.

Até que chegou a hora de Stern anunciar o que todo mundo já esperava: o Cavs escolheu LeBron. Então Bilas foi chamado na conversa para compartilhar um pouco mais do que havia observado sobre as características do jogador dentro de quadra.

“Ele é forte e é um passador extraordinário. Tem o estilo do Magic Johnson, capaz de enxergar a quadra e fazer a bola chegar no lugar certo. É alguém muito fácil de se jogar junto. Será um ótimo companheiro de time porque não precisa pontuar para causar impacto em uma partida. Ele também tem muita explosão. Consegue chegar à cesta com facilidade, infiltrando e finalizando usando a combinação do seu ótimo controle de bola e sua primeira passada”, comentou Bilas.

As deficiências também foram abordadas. “Uma coisa que precisa ser melhorada é a concentração na defesa”, prosseguiu Bilas. “Ele precisa se envolver mais. Ele sabe defender, só precisa fazer um trabalho melhor. E é preciso também refinar o chute. Ele não é um bom arremessador, mas tem uma boa mecânica. Acredito que, com algum trabalho em cima disso, LeBron James pode se tornar um bom chutador. Ele tem o pacote completo”, finalizou.

LeBron James ao lado de David Stern no Draft de 2003

Em seguida, foi a vez do ex-jogador Greg Anthony, que também fazia parte da transmissão, oferecer um olhar diferente sobre o que estava prestes a acontecer. “Vamos ver camisas do Cleveland Cavaliers em Montana, em Los Angeles, em Chicago, em todo lugar. O impacto dele será sentido muito além das quadras”, afirmou.

Na verdade, graças a LeBron, camisas do Cavs passaram a ser vistas no mundo inteiro ao longo dos anos seguintes. Por mais que a franquia tenha tido algumas equipes competitivas em determinados momentos da sua história, isso era algo que parecia inimaginável até então.

Parecia um conto de fadas. Um jovem de potencial enorme, nascido em uma cidade próxima a Cleveland, indo jogar no time local e alimentando as esperanças de um povo carente de grandes alegrias no esporte. O negócio fica mais incrível diante da lembrança do que aconteceu na loteria desse Draft de 2003.

Para entender, é preciso voltar um pouco mais no tempo. Em agosto de 1997, o Detroit Pistons queria abrir espaço na folha salarial para manter o armador Lindsey Hunter e poder contratar o pivô Brian Williams, que antes disso estava no Chicago Bulls. O jeito que a franquia de Detroit encontrou de fazer isso acontecer foi mandar o ala-pivô Otis Thorpe para o Vancouver Grizzlies em troca de uma escolha de primeira rodada no Draft de 2003.

Essa escolha tinha uma única proteção: a primeira posição. Isso significa que se o Grizzlies, e não o Cavs, tivesse vencido aquela loteria para o Draft de 2003, aquela escolha que acabou indo para o Pistons teria sido mantida em Vancouver. E seria lá, no Canadá, que LeBron James iniciaria sua trajetória profissional.

LeBron James e os outros grandes jogadores que vieram mo Draft de 2003

Azar do Grizzlies. Sorte do Pistons. E do Cavs, é claro, por poder ter selecionado esse jovem talento tão intrigante. Paul Silas, técnico do time de Cleveland na época, também foi entrevistado pela ESPN durante a transmissão daquele Draft. Disse que não ligava muito para o nível da expectativa que havia em torno de LeBron.

“Nós só queremos que ele vá melhorando. Ele parece estar em uma missão. Ele fala em vencer, em fazer o time a melhorar. Se essa é a mentalidade dele, então ele só pode melhorar”, disse Silas.

Em seguida, o repórter o questionou se, em mais de três décadas trabalhando com basquete, ele tinha visto qualquer coisa parecida com o que havia em volta de LeBron James naquela oportunidade. “Não. Só estou feliz em fazer parte disso de algum jeito”, respondeu.


Rumo ao estrelato

Mil e uma maravilhas foram ditas a respeito de LeBron James na noite do Draft. O técnico do Cavs, Paul Silas, não escondeu a animação em ter a chance de trabalhar com alguém tão promissor. Mas o resto do elenco da equipe, sabe-se lá por qual motivo, passava longe de demonstrar o mesmo grau de empolgação.

“Há jogadores melhores na posição dele dentro do nosso elenco no momento, mas o potencial dele é enorme. O céu é o limite para ele”, disse o ala-pivô Carlos Boozer, que anos mais tarde foi virar um all-star no Utah Jazz.

“Ele não vai chegar aqui e ter um impacto imediato como Caron Butler teve em Miami”, disse o armador Smush Parker. “Eu não acho que alguém que pega um jogador direto do colegial pode esperar que ele venha a transformar o seu time”, comentou o ala Darius Miles.

Não demorou nada para LeBron começar a fazer todos esses comentários parecerem ridículos. Em 29 de outubro de 2003, ele disputou sua primeira partida oficial como profissional. O Cavs enfrentou o Sacramento Kings, que na época era uma das forças da Conferência Oeste. Perdeu por 106 a 92, mas teve atuação impressionante de seu novato. Foram 25 pontos, nove assistências, seis rebotes e quatro roubos de bola para ele.

LeBron James estreou na NBA contra o Sacramento Kings

Vai saber se foi o suficiente para os colegas de Cavs começarem a dar o braço a torcer, mas os jogadores do Kings se encantaram com o que viram. “Fiquei impressionado”, afirmou o pivô Vlade Divac. “Ele é um talento, basta olhar para como ele joga”, comentou o armador Bobby Jackson. “A melhor coisa a respeito dele é a maneira como ele distribui a bola. Ele faz isso muito bem.”

Foi o início de uma temporada de estreia marcante. LeBron a concluiu com médias de 20,9 pontos, 5,9 assistências e 5,5 rebotes por partida. Esses números fizeram dele apenas o terceiro calouro em toda a história da NBA a atingir as marcas de 20,0 pontos, 5,0 rebotes e 5,0 assistências por jogo. Antes dele, só Oscar Robertson e Michael Jordan haviam conseguido.

Ainda assim, ele não apareceu na lista de selecionados para o “All-Star Game” de 2004. Teve de se contentar com o desafio de novatos e admitiu que estava frustrado. “Eu acho que tenho jogado bem o bastante para estar entre os 12 melhores da Conferência Leste, mas não aconteceu. Então eu só pensei no quanto tenho de trabalhar duro para aparecer no ano que vem”, disse LeBron, em uma entrevista para a TNT durante o fim de semana do evento.

Não era uma opinião impopular. Muita gente também tinha a sensação de que LeBron já merecia ser “all-star” naquele primeiro ano dele como profissional. Para dar uma ilustrada nisso, vale a pena resgatar um texto publicado na época pelo jornalista Marc Stein, que na época escrevia para a ESPN. Ele lamentou como as regras da NBA fizeram com que Jamaal Magloire, um pivô não mais do que mediano, entrasse na lista dos 12 do Leste enquanto LeBron ficava fora.

“Os técnicos do Leste, pelo menos dessa vez, não podem ser despedidos por causa dessa catástrofe. Não os culpem demais. Eles apenas seguiram as regras passadas pela NBA, que determinam que um pivô legítimo fosse escolhido como reserva de Ben Wallace, votado entre os titulares. Isso reduziu as opções a Magloire e Zydrunas Ilgauskas, tirando da disputa o jogador do Cavs que realmente mais merecia estar no evento”, escreveu Stein.

Os melhores lances de LeBron James durante a temporada de novato

LeBron acabou ficando com o prêmio de melhor novato da NBA em 2004. Mas além de não ter sido selecionado para o “All-Star Game”, ele também não conseguiu fazer o Cavs se classificar para os playoffs em seu ano de estreia. Essa foi uma frustração que ele teve de lidar por mais um ano, já que o time voltou a ficar fora dos oito primeiros da Conferência Leste em 2005.

Com relação ao “All-Star Game”, não houve mais frustração. A primeira aparição veio já em 2005. Nem precisou que os técnicos o colocassem lá. A votação dos fãs o botou entre os titulares. Desde então, ele nunca mais deixou de participar do evento ao longo da carreira.

Não era nenhum absurdo. Para quem acompanhava as partidas com alguma atenção, já estava bem claro que LeBron James pertencia ao grupo das estrelas da NBA. “É estranho que a gente fale sobre um garoto de 20 anos ser um grande jogador, mas ele é”, disse na época George Karl, então técnico do Denver Nuggets. “Ele é a exceção de quase todas as regras”, completou.

A estreia em playoffs finalmente aconteceu em 2006. Àquela altura, o elenco de apoio do Cavs já era bem melhor do que aquele que LeBron encontrou em seu ano de estreia na NBA. Mas ele também mostrou que estava em um nível muito mais alto. Suas médias foram de 31,4 pontos, 7,0 rebotes e 6,6 assistências por jogo, com aproveitamento de 48% nos arremessos. Números que o levaram a um impressionante segundo lugar na corrida pelo prêmio de MVP da NBA naquele ano — vencida por Steve Nash.

O Cavs venceu 50 partidas e passou pelo Washington Wizards na primeira rodada dos playoffs. Na fase seguinte, encontrou o Detroit Pistons. Era um adversário que vinha de duas idas consecutivas às finais da NBA. O favoritismo ali estava bem claro. Ainda assim, essa série só foi resolvida após sete jogos. O Pistons levou a melhor, mas chegou a estar perdendo por 3 a 2. Precisou dar um jeito de vencer fora de casa a sexta partida e encaixar uma defesa sufocante na sétima para avançar.

LeBron James e o Cleveland Cavaliers encararam o Detroit Pistons nos playoffs de 2006

“Não há ninguém que consiga envolver os companheiros de time do jeito que ele envolve”, disse Tayshaun Prince, ala do Pistons, depois da vitória no Jogo 7. “Ele enxerga as jogadas antes de elas acontecerem. Ninguém mais faz isso. Essa é a razão pela qual essa série durou sete partidas.”

Para LeBron, valeu pela experiência. A derrota obviamente teve um gosto amargo, mas foi um aprendizado e tanto. “Eles colocaram armadilhas sobre mim, correram por baixo de bloqueios e por cima também. Eu vi nessa série praticamente todos os tipos de defesa que provavelmente verei no restante da minha carreira. É por isso que eles são os atuais campeões do Leste. E é por isso que seguem ganhando”, declarou.


A ida à final em 2007

Então veio a temporada 2006/07. Sem mudar muito o elenco em relação ao ano anterior, o Cavs voltou a ter 50 vitórias na fase de classificação e avançou aos playoffs em segundo lugar do Leste. Na primeira rodada, varreu o Wizards. Depois, eliminou o New Jersey Nets em seis jogos. Assim, alcançou a final de conferência, algo que não acontecia com a franquia desde 1992. O adversário: mais uma vez, o Pistons.

As duas primeiras partidas da série foram em Detroit e o Pistons ganhou ambas. Depois, foi a vez de o Cavs tirar proveito do mando de quadra, vencer duas vezes e empatar o confronto. Aí, no Jogo 5, de volta a Detroit, LeBron James escreveu um dos momentos mais icônicos da carreira. Aquela que talvez tenha sido a primeira grande demonstração de que ele seria, de fato, algo além de uma “super estrela” da NBA.

Em um confronto que precisou de duas prorrogações para ser decidido, LeBron foi responsável por anotar 29 dos últimos 30 pontos do seu time. Durante esse trecho do duelo, ele tentou 13 arremessos e acertou 11. Isso incluiu a enterrada que levou o jogo para a prorrogação e a bandeja no segundo tempo-extra, com dois segundos no relógio, que acabou decretando a vitória por 109 a 107 do Cavs. No fim das contas, deixou a quadra aquele dia com 48 pontos, nove rebotes e sete assistências em 50 minutos de ação.

LeBron James contra o Pistons nos playoffs de 2007: uma performance para a história

“Aquilo me lembrou um pouco do que aconteceu com Michael Jordan em 1991”, disse Richard Hamilton, um dos jogadores daquele Pistons, em uma entrevista anos depois à CBS. “Ele jogou contra o Pistons por tantos anos até finalmente conseguir vencer. Foi uma história parecia com a do LeBron contra a gente. Nós sentimos que teríamos problemas. Não só naquele ano, mas por todos outros que ainda viriam pela frente.”

Hamilton confessou ainda que não tinha a noção exata de quantos pontos consecutivos LeBron estava fazendo enquanto aquela reta final de partida se desenrolava. “Até sabíamos que ele estava pontuando muito, mas em nossas cabeças parecia algo como dez pontos seguidos só. Não achávamos que era muito mais do que isso. A gente não pensou durante o jogo em tirar a bola das mãos dele e desafiar qualquer outro jogador do Cavs a pontuar. Nós só sentimos que seria impossível aquele cara do outro lado nos superar sozinho. Kobe Bryant e Shaquille O’Neal não conseguiram, então sentimos que LeBron também não conseguiria”, relatou.

Aquele esforço todo para comandar o Cavs a uma vitória épica desgastou LeBron fisicamente. “Eu estou acabado de cansaço. Tenho o dia livre amanhã, mas vai ser duro descansar alguma coisa quando você tem um moleque de dois anos correndo pela casa. Então eu espero que consiga deixá-lo na casa de uma das suas duas avós”, disse ele após a partida.

O Cavs venceu também o confronto seguinte, em Cleveland, e fechou a série. Dessa vez, LeBron não precisou carregar o time sozinho. O então calouro Daniel Gibson anotou 31 pontos, sendo 19 deles no último quarto. Assim, pela primeira vez em sua história, o Cavs chegou à decisão da NBA. Lá, acabou sendo varrido pelo San Antonio Spurs, um oponente que estava simplesmente um nível acima.

LeBron James em ação pelo Cavs nas finais de 2007

Não foi um desfecho que LeBron gostaria para aquela temporada, é claro. Mas também não apaga o tanto que ela foi especial para a história do Cavs e para a sua trajetória particular. A forma como carregou sua equipe à decisão evidenciou que ele estava destinado a cravar um lugar entre os grandes de todos os tempos. Parecia só uma questão de tempo mesmo.


Free Agency de 2010

A primeira extensão contratual de LeBron James na NBA foi feita em 2006. Ele assinou um novo acordo de US$ 60 milhões por três anos de duração. Como essa extensão só passaria a valer a partir de 2007, significava então que ele poderia estar disponível no mercado de agentes livres em 2010. A intenção do Cavs na época era de firmar um contrato mais longo, mas o jogador quis assim. O motivo por trás disso tem a ver com as regras salariais da NBA. Em 2010, ele já teria atingido os sete anos de experiência na liga, então poderia receber 30% do teto salarial de uma equipe, não mais 25%.

Aquela reta final de temporada 2006/07, com atuações surreais nos playoffs e uma ida inédita às finais, foi mágica para LeBron e o Cavs. Mas também acabou por colocá-los sob um tipo de pressão maior. O time tinha subido de patamar. Quando isso acontece, não tem mais volta. A expectativa passou a ser outra. Não dava mais para não competir pelo topo.

Durante a temporada 2007/08, LeBron ultrapassou o ex-pivô Brad Daugherty e se tornou o maior cestinha da história da franquia. Daugherty somou 10.389 pontos em 548 jogos disputados pelo Cavs. LeBron precisou de apenas 380 partidas para superá-lo.

A média de 30 pontos por jogo fez dele o cestinha da NBA naquele ano. A campanha do Cavs, no entanto, foi de 45 vitórias. Cinco a menos do que nos dois campeonatos anteriores. O time se classificou aos playoffs em quarto lugar do Leste. Mais uma vez, teve pela frente o Wizards na primeira rodada. Passou sem sustos. Depois pegou o Boston Celtics, que havia subido rapidamente ao status de favorito ao título depois das contratações de Kevin Garnett e Ray Allen na “offseason”.

Foi um confronto bastante duro. Nos seis primeiros jogos, venceu quem jogou dentro de casa. A sétima partida aconteceu em Boston e também foi parelha. LeBron James marcou 45 pontos, pegou seis rebotes e deu cinco assistências. Praticamente não descansou: ficou em quadra por 47 minutos. Mas não foi o bastante. Deu Celtics, que seguiu em frente e acabou levando o título da NBA naquele ano.

LeBron James x Paul Pierce no Jogo 7 da série entre Cavs e Celtics em 2008

Após a eliminação, o então gerente-geral Danny Ferry tratou de se mexer para tentar fortalecer o elenco de apoio a LeBron no Cavs. Em uma troca que envolveu também o Milwaukee Bucks e o Oklahoma City Thunder, o armador Mo Williams foi mandado para Cleveland. Na temporada anterior, ele teve médias de 17,2 pontos e 6,3 assistências por partida. A esperança era a de que ele se consolidasse como um segundo cestinha que o Cavs tanto parecia precisar.

“Mo Williams está entrando no seu auge dentro da NBA e será parte importante da nossa fundação para o sucesso no futuro. Suas habilidades em acelerar o jogo, infiltrar no garrafão, arremessar do perímetro e distribuir a bola serão muito valiosas para a gente”, declarou Ferry no dia em que a negociação foi confirmada. LeBron também aprovou. Lá da China, onde estava para a disputa da Olimpíada de Pequim, ele classificou a ação da franquia como uma “grande movimentação“.

De fato, funcionou. Mo Williams teve média de pontos por jogo até ligeiramente superior em seu primeiro ano em Cleveland: 17,8. Teve também um aproveitamento muito bom nas bolas de três: 43,4%, algo bem interessante para quem divide a quadra com LeBron James. Ele chegou até a ir para o “All-Star Game” de 2009. LeBron conquistou seu primeiro troféu de MVP. E o Cavs teve a melhor campanha de toda a NBA na temporada regular: 66 vitórias e apenas 16 derrotas.

As coisas pareciam ainda mais animadores diante de uma notícia que vinha de Boston: uma lesão no joelho faria Kevin Garnett perder os playoffs. Não que desse para tirar o Celtics de consideração completamente, mas era inegável que os então campeões não tinham o mesmo poder de fogo sem uma estrela como aquela.

Acontece que o Cavs nem precisou cruzar com o Celtics. Depois de varrer o Detroit Pistons e o Atlanta Hawks nas duas primeiras rodadas, o time chegou à final do Leste para encarar o Orlando Magic, que tinha tirado a equipe de Boston na fase anterior. LeBron teve atuações espetaculares. Terminou a série com médias de 38,5 pontos, 8,3 rebotes e 8,0 assistências. Mas não foi o bastante para evitar a eliminação do Cavs em seis jogos. A dominância de Dwight Howard dentro do garrafão e as bolas de três pontos levaram o Magic à decisão.

LeBron James e a cesta da vitória no Jogo 2 da série contra o Magic

Como se a eliminação para o Magic não tivesse sido decepcionante o bastante, a direção do Cavs viu um novo fato preocupante aparecer pouco depois: LeBron James não estava disposto a assinar uma nova extensão contratual. O que significava que ele realmente se tornaria um agente livre irrestrito em 2010.

Ciente de que a luz amarela estava acesa, Danny Ferry tratou de se mexer para tentar aumentar as chances de fazer LeBron chegar a um título pelo Cavs. Ainda na offseason, trouxe Shaquille O’Neal do Phoenix Suns. No decorrer da temporada, fechou uma troca na qual abriu mão do pivô Zydrunas Ilgauskas para a chegada do ala Antawn Jamison. “Ele tem uma forte presença dentro do garrafão e tem também a habilidade de abrir a quadra jogando mais longe da cesta, causando impacto na quadra toda”, comentou Ferry.

Foi uma boa movimentação. Jamison tinha sido duas vezes “all-star” e seria muito mais útil naquela equipe do que Ilgauskas, que parecia bem menos necessário desde a chegada de O’Neal. Mas teve quem sentiu que dava para ter feito melhor. Isso porque os relatos da época dão conta de que havia a possibilidade de se conquistar um jogador que na época era ainda melhor que Jamison: Amar’e Steoudemire. O Phoenix Suns parecia disposto a negociá-lo antes de perdê-lo de graça como agente livre ao final daquela temporada. O problema é que Ferry se recusou a incluir no pacote o ala-pivô JJ Hickson, que na época era jovem e parecia intrigante.

Era mais pressão sobre Ferry e o Cavs. Diante do risco de ver o maior astro da franquia indo embora dali a alguns meses, as coisas tinham de dar certo. Aquela temporada 2009/10 precisava ser encerrada com um título. As esperanças mais uma vez estavam lá no alto quando os playoffs começaram. O time teve de novo a melhor campanha da liga. LeBron levou seu segundo troféu de MVP.

Mas o sonho acabou novamente diante do Boston Celtics, que venceu a série semifinal do Leste em seis jogos. Na partida que decretou a eliminação, em Boston, LeBron teve um triplo-duplo: 28 pontos, 19 rebotes e dez assistências. Mas no confronto anterior, viu-se dominado pela defesa rival. Fez só 15 pontos, tendo errado 11 dos 14 arremessos que tentou. A derrota por 120 a 88 dentro de casa naquela oportunidade fez até com que a equipe deixasse a quadra sob vaias da torcida.

LeBron James e o elenco do Cavs na temporada 2009/10

O tom de decepção de LeBron em seu discurso após o Jogo 6 era evidente. “O fato de que acabou o campeonato para a gente nesse momento é definitivamente uma surpresa para mim. Um amigo me disse que na vida, às vezes, você precisa passar por vários pesadelos antes de realizar seu sonho. É o que está acontecendo comigo agora”, disse.

Também teve uma declaração que serviu para aquecer bastante as especulações sobre o futuro dele na “free agency” de 2010. “Eu quero vencer. Essa é a minha única preocupação. Eu sempre me bati nessa tecla de que só queria saber de ganhar e que achava que o Cavs estava comprometido a fazer isso também. Mas, ao mesmo tempo, eu me dei opções para esse momento”, afirmou.

Nas semanas seguintes, o Cavs teve duas baixas importantes. Uma delas foi o técnico Mike Brown, demitido logo após a eliminação para o Celtics. A outra foi Danny Ferry, que não concordou muito com o proprietário da franquia, Dan Gilbert, sobre a questão envolvendo Brown e decidiu sair. Foram movimentos que só fizeram crescer a especulação em cima do futuro de LeBron James, que iria mesmo testar o mercado.


The Decision

LeBron James era a maior, mas não a única grande estrela da NBA disponível no mercado de agentes livres em 2010. Dwyane Wade, Chris Bosh, Amar’e Stoudemire, Carlos Boozer e Joe Johnson estavam na mesma situação. Não à toa, alguns times se mexeram bastante nos meses anteriores para limpar espaço na folha salarial. Tudo em nome da esperança de fisgar pelo menos um desses astros todos.

As opções de destino de LeBron se resumiram a seis equipes: Brooklyn Nets (New Jersey na época), Los Angeles Clippers, New York Knicks, Chicago Bulls, Miami Heat e o próprio Cavs, que naturalmente teria a chance de mantê-lo. Com exceção das duas primeiras, as outras alimentaram bastante o sonho de conseguir convencê-lo a assinar um contrato.

Torcida do Knicks alimentou o sonho de contar comLeBron James

Algum tempo depois, vazou a informação de que o encontro do Knicks com ele foi uma catástrofe. Mas na época isso ainda não era sabido. A franquia nova-iorquina acertou com Stoudemire, o mesmo que o Cavs perdeu a chance de adquirir meses antes, e esperava que isso pudesse seduzir LeBron a também ir para lá. Heat e Bulls tiveram conversas longas com ele, que duraram até mais do que o esperado. Havia até uma sensação na época de que o time de Chicago parecia ser o candidato mais forte a tirá-lo de Cleveland. E o Cavs também teve seus motivos para acreditar que poderia ter um final feliz nessa história.

Há relatos de que LeBron perguntou na reunião do Bulls qual outra estrela disponível no mercado ele deveria levar consigo para Chicago, o que obviamente elevou o nível de entusiasmo da franquia. O Cavs também estava trabalhando para colocar uma segunda estrela ao lado de LeBron em Cleveland. O plano era descolar um “sign and trade” com o Toronto Raptors para conseguir Chris Bosh.

Acontece que Pat Riley já estava colocando em prática um plano mais ambicioso em Miami: reunir duas, não três astros. O Bulls tentou reagir, iniciando uma briga contra o tempo para negociar o ala Luol Deng e abrir mais espaço na folha salarial. Não deu tempo. Bosh ficou muito impressionado com o que ouviu da abordagem do Heat. Dwyane Wade estava aberto a permanecer onde estava, especialmente diante da possibilidade que ainda existia de ter LeBron como companheiro de equipe. Então, no dia 7 de julho de 2010, a edição do Sportscenter da ESPN dos EUA colocou Wade e Bosh ao vivo para que pudessem confirmar: os dois tinham decidido assinar com o Heat.

Faltava LeBron. A decisão dele, que naturalmente já era a mais aguardada daquela novela toda, passava a ter um nível de expectativa ainda mais pesado. O desfecho dessa história foi marcado para o dia 8 de julho. Em um programa transmitido ao vivo pela ESPN, que não à toa recebeu o nome de “The Decisison”, ele daria uma entrevista para contar um pouco como tinha sido a experiência de passar pela “free agency” e, naturalmente, anunciar seu destino.

O Heat já tinha Wade e Bosh. Apesar de perdê-los, o Bulls tratou de fechar com Carlos Boozer, que era uma “all-star” na época, e ainda tinha alguns bons jovens valores em sua base. O Knicks seguia depositando suas fichas em Stoudemire e no fator Nova York. O Cavs acreditava que já tinha um time competitivo mais pronto que os outros. Cada um à sua maneira, estavam todos otimistas.

Na hora que “The Decision” finalmente foi ao ar, LeBron anunciou: “Vou levar meus talentos para South Beach”. Questionado sobre o motivo por trás da escolha de ir para Miami, respondeu: “Sinto que me dá a maior chance de vencer por vários anos. E não digo só vencer alguns jogos consecutivos na temporada regular, eu quero é ganhar títulos.”

LeBron James e o programa “The Decision”

Parece que aquele golpe sofrido diante do Celtics nos playoffs meses antes tinha sido duro demais. Nessa declaração, deu para sentir o quanto LeBron sentia que precisava de um suporte maior do que tinha em Cleveland. É como se ele já tivesse entrado na “free agency” bastante convencido de que era preciso mudar de ares.

Algumas informações que foram surgindo depois de um tempo reforçam essa tese. A pergunta no encontro com o Bulls sobre qual outra estrela deveria levar consigo para Chicago já serve como uma pista nesse sentido. Além disso, teve um outro episódio curioso na reunião com o Cavs. Lá, ele ouviu o pedido para que tentasse convencer Chris Bosh a ir para Cleveland também. Respondeu que não podia fazer muita coisa por não ser tão próximo assim do colega, o que hoje sabemos que não era verdade.

Minutos após “The Decision”, as ruas de Cleveland foram tomadas por torcedores raivosos. Camisas foram queimadas. Pedras foram atiradas contra o cartaz publicitário gigante que levava a imagem do jogador. Algum tempo depois, como uma forma de resposta às críticas que recebeu pela maneira como foi embora, LeBron gravou um comercial para a Nike em que perguntava: “O que eu deveria fazer?”

Não demorou muito para o povo de Cleveland rebater com um vídeo em que torcedores respondiam essa pergunta de LeBron. “O que você deveria fazer? Isso é mesmo uma pergunta?”, diz uma voz em determinado momento. “Boston, Jogo 5. Nós assistimos. Você desistiu”, comenta uma garota em outro trecho, fazendo referência à série contra o Celtics nos playoffs de 2010. “Você devia ter jogado mesmo nas nossas caras em rede nacional, obrigado”, comenta um outro torcedor, em tom irônico.

LeBron James foi ironizado em vídeo com torcedores do Cavs

Não foi só a torcida que se rebelou. Dan Gilbert, proprietário do Cavs, também não se importou em expressar publicamente descontentamento com a situação. Depois que viu “The Decision”, ele escreveu uma carta aberta chamando LeBron de “covarde” e prometendo que o povo da sua cidade comemoraria um título da NBA antes do jogador. O que, sabemos bem, não aconteceu.

LeBron atraiu críticas também de ex-jogadores e atletas. Em parte pela decisão de ter se juntado a outras duas grandes estrelas, mas também pela forma como conduziu seu processo de tomada de decisão naquela “free agency”. A popularidade dele sofreu um grande abalo. Pouco tempo depois, ele admitiu que “The Decision” foi um erro.

“Se eu pudesse voltar no tempo, provavelmente teria mudado muita coisa”, admitiu LeBron, em entrevista à ESPN em 2012. “Eu teria mudado o lance de fazer um programa de TV e de ter gente assistindo para me ver tomar a decisão sobre onde iria jogar. Porque agora eu consigo olhar pelo lado dos torcedores. Se eu fosse muito apaixonado por um jogador específico e ele decidisse sair, eu também ficaria chateado pelo jeito como conduziu a sua saída.”


O começo de vida em Miami

LeBron James foi apresentado ao lado de Dwyane Wade e Chris Bosh em Miami para um público eufórico. Não era para menos: três dos maiores astros da NBA naquele momento estavam agora no mesmo lado. Parecia bom demais para ser verdade. Ficou ainda melhor. Depois de os três aceitarem cortes salariais, a franquia conseguiu fisgar o ala Mike Miller no mercado de agentes livres e manter o ala-pivô Udonis Haslem, que tinha propostas do Denver Nuggets e do Dallas Mavericks.

Em seu primeiro jogo oficial com o uniforme do Heat, LeBron encarou o Boston Celtics, o mesmo adversário que vira pela última vez em Cleveland. Ele anotou 31 pontos, mas teve também oito desperdícios de posse de bola. Seu time perdeu por 88 a 80. As derrotas, aliás, não foram tão raras nesse começo. Com alguns problemas claros de encaixe no ataque, a equipe de Miami tinha campanha de nove vitórias e oito derrotas após as primeiras 17 partidas da temporada 2010/11. Mas as coisas logo melhoraram com uma sequência de 21 vitórias em 22 jogos.

Uma dessas vitórias aconteceu no dia 2 de dezembro de 2010, diante do Cleveland Cavaliers, fora de casa. Foi o jogo que marcou o primeiro reencontro do astro com o ex-time. Era uma atmosfera extremamente hostil, como poucas vezes vista em outros momentos na história da NBA. LeBron James foi vaiado o tempo todo. Em alto volume. Havia também cartazes com ofensas. O tom da raiva do povo que marcou presença no ginásio estava nítido.

LeBron James em seu retorno a Cleveland

Não dava para dizer que essas coisas todas foram inesperadas. A segurança para aquele jogo foi reforçada. Até mesmo o mascote do Cavs, o Moondog, usou um colete à prova de bala naquele dia. No fim das contas, LeBron teve uma atuação de gala: 38 pontos, 15 em 25 nos arremessos, oito assistências e cinco rebotes. Mas pegou muito mal durante o confronto quando ele começou a fazer provocações em direção ao banco de reservas do ex-time. LeBron justificou-se dizendo que estava apenas se divertindo. Mas os ex-companheiros não acharam graça.

O Heat finalizou a fase de classificação com 58 vitórias, avançando aos playoffs em segundo lugar do Leste. Depois, ganhou a conferência ao despachar Philadelphia 76ers, Boston Celtics e Chicago Bulls. Todos em cinco partidas. Depois de quatro anos, LeBron estava de volta a uma final da NBA.

O Heat chegou a abrir 2 a 1 naquela série. Até que veio o Jogo 4. LeBron teve uma das suas piores atuações em playoffs da carreira. Fez só oito pontos, acertando apenas três dos 11 chutes que deu ao longo do confronto. Durante o último quarto, apesar de ter permanecido em quadra por todos os 12 minutos, ele não só passou zerado como tentou um único arremesso. Do outro lado, Dirk Nowitzki anotou 10 dos seus 21 pontos no quarto período e liderou o Mavericks à vitória. Tudo isso com febre. O que só serviu para subir o tom das críticas em cima de LeBron.

“É imperdoável para mim o fato de eu ter anotado só oito pontos”, afirmou LeBron após o jogo. “Eu me coloquei em um patamar acima disso e me critico bastante pelo o que aconteceu. Quando o time perde e eu não joguei bem, quando sinto que poderia ter feito algumas coisas diferentes para ajudar mais a minha a equipe a ganhar, eu passo a ser muito duro comigo mesmo. Eu sou assim. Esse é o meu jeito.”

Na partida seguinte, LeBron teve um triplo-duplo: 17 pontos, dez rebotes e dez assistências. Mas o Heat foi derrotado de novo. E o desempenho dele na reta final despertou críticas mais uma vez. Foram apenas dois pontos anotados no último quarto daquele confronto. Uma única finalização certeira em apenas quatro tentadas.

O Mavericks ganhou também o sexto jogo, em Miami. Festa e alívio para Nowitzki, que enfim tinha conquistado o tão sonhado título. Ampliação da frustração para LeBron, que precisaria esperar um pouco mais para enfim soltar o grito de campeão. “A hora deles ainda vai chegar”, disse Rick Carlisle, técnico do time de Dallas. “Mas agora foi a nossa.”

LeBron James precisou esperar mais um pouco antes de comemorar o primeiro título

Foi uma derrota especialmente dolorida para LeBron, que havia iniciado aquela temporada prometendo títulos em série para o povo de Miami. Mas foi também um episódio valioso para a carreira dele. Que o ensinou uma importante lição e acabou representando um marco para uma mudança de atitude: a de tomar um cuidado maior com o aspecto mental do jogo.

“Eu entendi que o aspecto físico não seria mais o bastante”, revelou LeBron, em uma entrevista à ESPN anos mais tarde. “Eu estava lidando com um nível de hostilidade muito grande naquela época, sem falar na maneira como saí da minha zona de conforto. Eu tinha perdido meu amor pelo basquete.”


Enfim campeão

Depois da decepção diante do Mavericks em 2011, LeBron James não demorou para finalmente poder soltar o grito de campeão. O Heat voltou às finais da NBA dois anos seguintes e conquistou o título em ambas as oportunidades. Primeiro, diante do Oklahoma City Thunder. Depois, contra o San Antonio Spurs.

Mas é claro que o caminho para se chegar ao topo não foi tranquilo. Dúvidas em torno daquele Heat surgiram. Um ponto especialmente crítico aconteceu na final da Conferência Leste de 2012, diante do Boston Celtics. Era um adversário que o time de Miami já havia derrotado no ano anterior, mas que já tinha um histórico expressivo de frustrar perseguições de LeBron a um título.

A sensação de filme repetido apareceu depois do Jogo 5 daquela série. O Celtics ganhou em Miami. LeBron teve 30 pontos e 13 rebotes, mas passou zerado pelos últimos oito minutos do confronto. De novo, ele tinha deixado a desejar na reta final de uma partida importante. De novo, fora frustrado pelo Celtics. E de novo em um Jogo 5. Eram muitos fantasmas que pareciam juntos ali para assombrá-lo.

Só que, desta vez, a resposta de LeBron foi diferente. No Jogo 6, em Boston, ele entregou uma das atuações mais inspiradas da carreira. Foram 45 pontos e 15 rebotes para comandar a vitória do Heat e levar a série de volta para Miami. Não houve nada que a defesa do outro lado pudesse fazer para contê-lo. Dos 26 arremessos que foram tentados, 19 entraram.

LeBron James em uma das suas atuações mais incríveis

“Ele jogou demais e estava concentrado desde o começo do jogo de uma maneira como nunca o vi antes”, comentou Dwyane Wade após aquele confronto. Doc Rivers, técnico do Celtics, disse o seguinte: “Espero que agora as pessoas parem de falar que LeBron não aparece em jogos importantes.”

Ainda não tinha acabado. Faltava mais uma vitória em casa para despachar de vez o Celtics. As coisas não iam muito bem até o intervalo, mas o Heat reagiu no segundo tempo e virou o jogo. LeBron foi quem comandou o desempenho na reta final, quando seu time sobrou dos dois lados da quadra e confirmou a vitória. Ao final da partida, Doc Rivers e LeBron deram um longo abraço dentro de quadra. Quando perguntado depois sobre o que falou naquele momento, Rivers respondeu: “Disse a ele para seguir em frente e conquistar esse título.”

Alguns anos mais tarde, LeBron admitiu que teve algo que serviu de motivação extra naquela série contra o Celtics. “Minha mentalidade era de que se a gente perdesse ali, Pat Riley talvez optasse por nos separar”, disse ele, referindo-se ao trio de estrelas do Heat. “E eu não queria que isso acontecesse. Teria sido a separação mais rápida da história do basquete.”

A final contra o Thunder começou com uma derrota, em um jogo no qual o desempenho de Kevin Durant no último quarto ganhou as manchetes. Mas a aflição não durou muito tempo para LeBron e companhia. O Heat ganhou em Oklahoma o jogo seguinte da série, depois venceu os três confrontos seguintes dentro de casa. LeBron se mostrou decisivo em cada uma dessas vitórias. Incluindo um triplo-duplo de 26 pontos, 13 assistências e 11 rebotes na partida do título.

“Meu sonho se tornou realidade agora, e esse é o melhor sentimento que eu já tive”, disse LeBron. “Nove anos depois de ter sido draftado, estou feliz por finalmente poder dizer que sou campeão. E fiz isso do jeito certo. Eu não peguei atalho nenhum. Eu trabalhei muito duro, coloquei muita dedicação em cima disso. E o trabalho duro recompensou. É um grande momento para mim.”

LeBron James ao lado de Dwyane Wade e Chris Bosh

A conquista parece ter tirado um peso de cima dos ombros de todo mundo ali. O maior entrosamento com o passar do tempo e algumas contratações chave — como o ex-Celtics Ray Allen — também ajudaram demais. O fato é que o Heat chegou em um nível na temporada 2012/13 que ainda não havia demonstrado nos dois anos anteriores. Foram 66 vitórias na fase de classificação, sendo 27 delas de maneira consecutiva. LeBron acabou faturando mais um troféu de MVP. O quarto, já que tinha também levado o prêmio em 2012. Só que dessa vez foi mais especial: ele recebeu 120 dos 121 votos possíveis. Ficou a um passo de ser eleito de maneira unânime. Algo inédito na história da NBA até 2016, quando Stephen Curry conseguiu.

Nas duas primeiras rodadas dos playoffs, o Heat não teve muito trabalho para despachar Milwaukee Bucks e Chicago Bulls. Na final de conferência, encontrou o Indiana Pacers, adversário que tinha oferecido alguma resistência um ano antes quando se cruzaram. Dessa vez, o negócio foi ainda mais duro. Logo na primeira partida, foi preciso uma bandeja de LeBron nos segundos finais da prorrogação para evitar uma derrota em Miami. A série chegou ao sétimo jogo.

Apesar do susto, o Heat levou a melhor e avançou para a decisão. Mas uma coisa que chamou a atenção naqueles confrontos foi o tanto que LeBron, em muitos momentos, precisou carregar a produção ofensiva do time enquanto as outras duas estrelas encontraram dificuldades. Após uma vitória crucial no Jogo 5 contra o Pacers, ele chegou a dizer que voltou a se sentir no seus “dias de Cleveland” pela postura mais agressiva que teve de ter no ataque.

Veio então mais uma decisão. O oponente era o mesmo que havia varrido o Cavs de LeBron em 2007: o San Antonio Spurs. Após cinco partidas, o Heat perdia a série por 3 a 2 e seu principal jogador viu-se mais uma vez envolto em algumas críticas. Se diante do Pacers ele tinha entendido que precisava voltar aos “dias de Cleveland”, dessa vez estava sendo questionado pelo o que algumas pessoas julgavam como falta de agressividade.

O Jogo 6 foi resolvido na prorrogação. Talvez tenha ficado marcado no imaginário das pessoas pela sucessão de eventos na reta final do último quarto, que culminou na cesta de três de Ray Allen a cinco segundos do fim para salvar o Heat de uma derrota que parecia iminente. Mas a resposta que LeBron deu dentro de quadra naquela oportunidade também foi determinante para evitar que o campeonato acabasse naquele dia. Depois de errar 9 dos 12 arremessos que tentou nos três primeiros períodos, ele reagiu acertando 8 dos 14 que deu ao longo do último quarto e da prorrogação.

No Jogo 7, ele nem precisou reagir. LeBron esteve quente desde o começo. Fez 37 pontos, acertando 12 dos 23 chutes que deu, sendo cinco bolas de três, e convertendo todos os oito lances livres que cobrou. Pegou ainda 12 rebotes para coroar uma atuação que garantiu o título para sua equipe e o troféu de MVP das finais pelo segundo ano consecutivo.

O Heat caminhou para mais uma decisão na temporada 2013/14. No caminho para isso, aconteceram dois momentos especiais para LeBron James. O primeiro deles foi em uma vitória sobre o Charlotte Bobcats na fase de classificação. Os 61 pontos anotados naquela oportunidade representaram um recorde na carreira dele e também na história da franquia. “O homem lá de cima me deu algumas habilidades inacreditáveis para jogar basquete, e eu tento tirar proveito disso toda vez que entro em quadra”, ele comentou após a partida.

Mais tarde, na segunda rodada dos playoffs, anotou 49 pontos na vitória sobre o Brooklyn Nets. Era o terceiro jogo da série entre as duas equipes. Esses 49 pontos igualaram o recorde dele até então em playoffs — que viria a ser superado em 2018. A outra vez que isso tinha acontecido foi em 2009, na final do Leste contra o Orlando Magic. Na verdade, ele ficou bem perto contra o Nets de alcançar os 50 pontos, mas um lance livre errado no final o impediu. “Foi a primeira vez na minha vida que fiquei desapontado com uma vitória”, admitiu.

Depois de despachar o Nets, o Heat encontrou mais uma vez o Pacers na final de conferência. Não teve tanto trabalho dessa vez. Avançou e reencontrou o Spurs na decisão pelo título. Também foi uma série bem diferente em relação ao ano anterior. O time de San Antonio a ganhou em cinco jogos, deixando uma impressão de clara superioridade ali.


De volta para casa

Após a derrota na final de 2014 para o Spurs, LeBron James anunciou que não exerceria o ano seguinte de seu contrato com o Miami Heat e se tornaria agente livre. Isso significa que ele até poderia voltar, mas que a saída para algum outro time seria uma possibilidade real. Não demorou muito para que os efeitos dessa notícia fossem vistos. O Houston Rockets despachou o contrato do pivô Omer Asik para abrir espaço na folha salarial. O Phoenix Suns planejou-se para ir atrás dele e também de Carmelo Anthony, outra grande estrela que ficaria disponível no mercado.

Tanto o Rockets quanto o Suns estavam na lista de times com as quais Rich Paul, agente de LeBron James, se reuniu para discutir o futuro do jogador. Outras três equipes fizeram parte desse projeto: Dallas Mavericks, Los Angeles Lakers e Cleveland Cavaliers.

A possibilidade de permanecer em Miami também existia. Pat Riley dizia publicamente que seguia confiante na renovação de contrato. Foram dias intensos de especulações. Até que a decisão de voltar para Cleveland foi anunciada. Dessa vez, através de um texto publicado pela revista Sports Illustrated em 11 de julho de 2014.

Texto na Sports Illustrted anunciou o destino de LeBron

“Antes de qualquer um ligar para onde eu ia jogar basquete, eu fui uma criança do nordeste de Ohio”, dizia um trecho do texto de LeBron à Sports Illustrated. “É onde eu andei. É onde eu corri. É onde eu sangrei. É um lugar especial dentro do meu coração. As pessoas de lá me viram crescer. A sensação é a de que sou filho delas. A paixão delas pode ser esmagadora, mas é o que me dirige. Quero dar esperança a estas pessoas quando eu puder. Quero inspirá-las quando eu puder. Minha relação com o nordeste de Ohio é maior do que o basquete. Eu não percebia isso há quatro anos. Mas sei disso agora.”

Ao contrário do que ocorrera quatro anos antes, LeBron não prometeu título nenhum nessa mudança de área. É claro que admitiu o quanto sentia vontade de fazer isso onde cresceu, mas não assumiu nenhum compromisso nesse sentido. Preferiu garantir que vai exercer um papel de liderança em um grupo repleto de jovens. Falou em fazer de tudo para desenvolvê-los.

Mas e a reação dos torcedores de Cleveland, que tanto o hostilizaram quando ele decidiu ir embora de Miami? A primeira pista de que essa relação caminhava para um clima mais ameno foi vista em um duelo entre Cavs e Heat ainda na temporada 2013/14, quando um torcedor invadiu a quadra com uma camiseta pedindo pelo retorno de LeBron à cidade.

Alguns meses mais tarde, durante a passagem de LeBron e Cavs pelo Brasil para o jogo do pré-temporada contra o Miami Heat, o jornalista Brian Windhorst, da ESPN dos EUA, conversou com o Triple-Double e compartilhou a sua visão sobre o assunto.

“Se você perguntar a 100 pessoas, quatro ou cinco dirão que ainda não o perdoaram. Mas a maioria pensa diferente porque sabe que ele representa a melhor chance de a cidade comemorar um título”, comentou Windhorst.

LeBron encontrou Kevin Love e Kyrie Irving em sua volta a Cleveland

“Cleveland é um lugar dos Estados Unidos em que a economia não vai bem. Muitos jovens deixam a cidade para aproveitar outras oportunidades e alguns acabam voltando depois. Então, o que ele fez foi algo que bastante gente também faz. Muitos podem se relacionar a essa situação porque tiveram familiares passando pelo mesmo tipo de coisa. É algo que virou natural para o povo de lá”, completou.


“Cleveland, isso é para vocês”

É verdade que LeBron James não prometeu nada com relação a título em seu retorno a Cleveland. Mas isso não significa que o Cavs deixaria de se mexer para ficar o mais competitivo possível. O time já tinha em Kyrie Irving uma jovem estrela. Algumas semanas mais tarde, outro astro chegou: Kevin Love, que veio do Minnesota Timberwolves em troca que envolveu a saída de Andrew Wiggins, primeira escolha do Draft de 2014. Em volta desse trio, a franquia trabalhou para trazer outras boas peças de apoio. Mike Miller, que fora companheiro de LeBron em Miami, chegou ainda como agente livre. Mais tarde, por meio de negociações com a temporada em andamento, chegaram Timofey Mozgov, Iman Shumpert e JR Smith.

O Cavs teve campanha de 53 vitórias na temporada regular, bom o bastante para avançar aos playoffs com a segunda melhor campanha do Leste. O primeiro lugar ficou com um surpreendente e empolgante Atlanta Hawks, que havia chamado a atenção emplacando uma série invicta de 19 partidas e colocando quatro representantes no “All-Star Game” de 2015. Mas, nos playoffs, a história foi outra. Depois de passarem por Boston Celtics e Chicago Bulls nas primeiras duas rodadas, LeBron e companhia encontraram o Hawks na final de conferência e dominaram. Classificação em quatro jogos e passaporte carimbado para levar a franquia à decisão pela segunda vez na história.

O adversário na decisão foi o Golden State Warriors, que havia tomado a liga de assalto naquela temporada. Foram 67 vitórias, com shows de bolas de três, uma defesa fortíssima e o MVP: Stephen Curry. Já seria naturalmente o favorito ali. O Cavs, que já tinha visto Kevin Love se machucar no começo dos playoffs, passou a ter o desfalque também de Kyrie Irving a partir do primeiro duelo das finais. Ainda assim, o time de Cleveland chegou a abrir 2 a 1 naquela série. O Warriors fez alguns ajustes, comprovou que era mesmo superior, ganhou sem tantos sustos os três confrontos seguintes e garantiu o título. Mas foi uma experiência e tanto poder ter visto LeBron entregar atuações monstruosas ali. As médias dele na série foram de 35,8 pontos, 13,3 rebotes e 8,8 assistências por jogo.

A temporada seguinte começou e o Cavs rapidamente se posicionou como o time a ser batido no Leste. Não significa, no entanto, que não houve nenhum tipo de turbulência. O técnico David Blatt foi demitido em 22 de janeiro de 2016. A campanha até aquele momento era de 30 vitórias em 41 jogos, mas o time vinha de uma derrota acachapante dentro de casa para o Warriors: 132 a 98. Os 34 pontos de diferença parecem ter passado uma mensagem clara para a direção em Cleveland: as coisas poderiam até estar sob controle dentro da própria conferência, mas algo precisava mudar para reduzir a diferença em relação aos então campeões.

David Blatt foi demitido do Cavs em 2016

Na verdade, foi a gota d’água. Não foi só o resultado que contribuiu para isso, até porque não foi uma demissão que chocou muita gente na época. A relação de Blatt com LeBron não era boa. Há um relato do jornalista Marc Stein sobre um episódio que aconteceu na final de 2015 que ajudou a ilustrar muito bem essa situação.

“Eu vi de perto ali, do lado da quadra, trabalhando como repórter durante as finais para a rádio da ESPN. LeBron basicamente chamou pedidos de tempo e fez substituições no time. Ele gritou com Blatt na frente de todo mundo a respeito de decisões do treinador com as quais ele não concordava. Ao mesmo tempo, ele se aproximava frequentemente de Tyronn Lue e olhava para qualquer um que não fosse Blatt. De trás do banco do Cavs, durante o terceiro quarto do Jogo 5, eu testemunhei James balançando a cabeça e protestando em alto volume contra uma jogada que Blatt desenhou. Foi a repreensão não verbal mais alta que se pode imaginar. O que forçou Blatt, em frente todo o elenco, apagar o que tinha feito na prancheta e desenhar alguma outra coisa.”

Não foi só isso. O pivô Brendan Haywood, que fizera parte do elenco do Cavs na temporada anterior, contou em uma entrevista à rádio Sirius XM que Blatt hesitava em desafiar LeBron e se mostrava muito receoso em corrigi-lo durante as sessões de vídeos com o time. Algo mais ou menos nessa linha foi revelado em uma apuração do repórter Chris Haynes, para o site Cleveland.com: o então treinador evitava ao máximo entrar em conflito com qualquer um dos três astros do elenco, mesmo nas vezes em que um erro gritante era cometido.

Tyronn Lue, então auxiliar e com quem LeBron tinha uma relação muito melhor, foi efetivado no cargo de treinador. O Cavs não teve problemas para seguir em primeiro lugar do Leste com ele. Nem nos playoffs. O time passou por Detroit Pistons, Atlanta Hawks e Toronto Raptors perdendo só duas vezes ao longo do caminho. Chegou, mais uma vez, à final. O Warriors estava do outro lado. Dessa vez, todas as principais peças estavam saudáveis. O problema é que o algoz parecia bem mais forte. Tinha feito uma campanha de 73 vitórias na fase de classificação, estabelecendo assim um novo recorde na história da NBA. Stephen Curry tinha sido eleito o primeiro MVP de maneira unânime da liga.

É verdade que o Warriors tinha passado por apuros na final do Oeste. Chegou a ter desvantagem de 3 a 1 na série contra o Oklahoma City Thunder. Mas a maneira como conseguiu se sair daquele buraco para vencer o confronto parecia o bastante para resgatar a força do time. Era o claro favorito para aquela decisão mesmo e estava caminhando para isso. Quando abriu 3 a 1 diante do Cavs, deu toda a pinta do mundo de que era apenas uma questão de tempo para se tornar campeão de novo. Afinal, atuaria dentro de casa na partida seguinte. E até aquele momento, ninguém em toda a história das finais da NBA havia conseguido virar a série depois de estar perdendo por 3 a 1.

Cavs chegou a estar perdendo as finais de 2016 por 3 a 1 contra o Warriors

LeBron teve 41 pontos, 16 rebotes e sete assistências no Jogo 5 e comandou a vitória do Cavs que evitou o título do Warriors em casa. Kyrie Irving também fez 41. Pela primeira vez na história das finais da NBA, dois jogadores de um mesmo time tiveram pelo menos 40 pontos cada um em uma partida. “A gente veio para cá com uma mentalidade de apenas prolongar a nossa luta e ter a oportunidade de voltar para lutar de novo dentro da nossa casa depois. Essa era a nossa grande preocupação. Conseguimos”, disse LeBron após o duelo.

Veio o Jogo 6, em Cleveland. LeBron mais uma vez fez 41 pontos, sendo 17 deles no último quarto. Durante determinado momento da segunda metade do confronto, teve participação em 35 de 36 pontos anotados em sequência pela sua equipe. Teve ainda 11 assistências e oito rebotes. O Cavs venceu e forçou o Jogo 7. “LeBron foi LeBron”, afirmou o técnico Tyronn Lue. “Ele é um dos melhores de todos os tempos. Em uma situação na qual a gente estava com as costas contra a parede, ele e Kyrie nos colocaram sobre os ombros e nos levaram a onde queríamos estar: o Jogo 7.”

Não tinha como ser diferente: a sétima e última partida da decisão foi bastante tensa. Placar apertado, alternâncias frequentes e diversos personagens secundários aparecendo em momentos estratégicos para impedir que o rival pudesse abrir. Quando faltavam dois minutos, os times estavam empatados em 89 pontos.

Kyrie Irving tentou uma infiltração e errou a finalização. O rebote ficou nas mãos de Andre Iguodala, que disparou ao lado de Stephen Curry em um contra-ataque diante de Irving. Pareciam dois pontos fáceis. Mas na hora que Iguodala subiu para a cesta, LeBron apareceu por trás para dar o toco, produzindo assim um dos momentos mais icônicos das finais da NBA em todos os tempos.

Icônico toco de LeBron James em Andre Iguodala nas finais de 2016

O Cavs contou com um grande arremesso de três de Irving logo depois para assumir a liderança. O Warriors não pontuou mais até o fim. Pela primeira vez, um time que conquistou o título da NBA depois de estar perdendo as finais por 3 a 1. A espera em Cleveland tinha terminado. O sonho de soltar o grito de campeão virou realidade para o povo da cidade e de todo o estado de Ohio.

Aquela cesta de três a partir do drible, na cara de Stephen Curry, em um momento decisivo, reforça o quanto Irving foi um personagem importantíssimo para essa conquista. Mas não o maior. Ele mesmo sabia disso. “Eu vi Beethoven em quadra nesta noite enquanto observava LeBron compor essa partida. Ele teve um tremendo triplo-duplo em um Jogo 7 de uma decisão”, comentou Irving.

LeBron teve 27 pontos, 11 assistências e 11 rebotes naquela oportunidade. Antes dele, só outros dois jogadores em toda a história da NBA tinham feito triplo-duplo em um Jogo 7 das finais: Jerry West em 1969 e James Worthy em 1988.

“Em toda a minha vida, eu nunca vi alguém chegar para um estado inteiro e falar: ‘Subam em minhas costas que eu vou carregar vocês todos. Não me importo se falhar. Se isso acontecer, eu vou acordar na manhã seguinte e começar a me preparar para o ano seguinte'”, disse Richard Jefferson, um dos jogadores do elenco campeão do Cavs.

Ganhar um título nesse retorno a Cleveland foi algo que LeBron tratou o tempo todo como uma meta. Nunca escondeu a vontade de tornar essa missão realidade e o quanto estava disposto a se doar para isso. Mas tomou também o cuidado de jamais tratar como promessa. Quando o sonho virou realidade, a emoção o atingiu como um soco no queixo. Isso ficou evidente no abraço em Kevin Love assim que o cronômetro zerou naquele Jogo 7. Lágrimas escorreram pelo seu rosto. E elas continuavam ali na entrevista que deu momentos mais tarde, ainda dentro de quadra.

LeBron James, após o título de 2016: “Cleveland, isso é para vocês”

“Eu disse há dois anos, quando voltei, que tinha o objetivo de trazer um título para a cidade de Cleveland”, declarou LeBron. “Dei tudo o que tinha. Doei meu coração, meu suor, meu sangue e minhas lágrimas. Contrariamos todas as possibilidades. Não sei por que tivemos o caminho mais complicado. Não sei porque o Homem lá de cima me deu o papel mais complicado. Mas Ele nunca te coloca em uma situação que você não é capaz de lidar. Eu mantive essa atitude positiva. Ao invés de ficar me perguntando por que certas coisas estavam acontecendo comigo, passei a falar para mim mesmo que era assim que Ele queria que eu fizesse as coisas. Cleveland, isso é para vocês.”


No trono do Leste

Warriors e Cavs voltaram a se encontrar nas duas finais seguintes. Pela primeira vez em sua história, a NBA reeditou uma mesma decisão por quatro anos seguidos. Só que esses dois últimos confrontos foram desiguais. Alguns dias depois da perda do título de 2016, o Warriors fortaleceu consideravelmente o seu já poderoso elenco com a contratação de uma das maiores estrelas da NBA: Kevin Durant, que havia decidido deixar o Oklahoma City Thunder. Enquanto isso, o Cavs não conseguiu mais chegar próximo ao nível que atingiu quando ganhou a NBA. Algumas deficiências passaram a ficar escancaradas, sobretudo na defesa. O equilíbrio foi embora. A final de 2017 não durou mais do que cinco jogos. A de 2018 acabou com varrida.

Não significa, porém, que LeBron James tenha passado batido por esses encontros com o Warriors. Pelo contrário: os 33,6 pontos, 12,0 rebotes e 10,0 assistências por partida fizeram dele o primeiro jogador da história da NBA a registrar médias de triplo-duplo em uma final. Na decisão do ano seguinte, estabeleceu um novo recorde pessoal de pontos em playoffs ao anotar 51 no primeiro duelo. Essa partida ficou marcada pela reação que LeBron teve ao ver JR Smith correndo para longe da cesta na reta final do último quarto, ao invés de atacar e tentar a vitória. Mas é importante não deixar o lance inusitado ofuscar o que realmente merece apreciação. O Cavs só chegou até ali com chance de vitória graças a mais uma performance monstruosa da sua grande estrela. Daquelas que realmente o colocam cabeça e ombros acima de seus pares em sua geração.

Jogo 1 das finais de 2018: reta final do quarto período

Algumas novelas acompanharam o Cavs ao longo de cada uma das caminhadas rumo a essas duas últimas finais contra o Warriors. LeBron classificou a temporada seguinte ao título de 2016 como “uma das mais estranhas” da carreira. As lesões acompanharam boa parte do elenco. Algo que, na visão dele, atrapalhou bastante em termos de química do grupo. Mas aí chegaram os playoffs e as coisas mudaram. O Cavs pode não ter tido força o bastante para superar o Warriors na busca pelo bicampeonato, mas a escalada para o topo do Leste foi feita com bastante propriedade: varridas sobre Indiana Pacers e Toronto Raptors nas duas primeiras rodadas, vitória em cinco jogos diante do Boston Celtics na final de conferência.

As turbulências chegaram para valer mesmo em Cleveland na temporada 2017/18. Antes mesmo do começo dela, uma notícia caiu como uma bomba: o desejo de Kyrie Irving de ser trocado. Um dos motivos por trás disso era a vontade de se separar de LeBron James e atuar em um lugar onde pudesse ser o foco principal do ataque. Em agosto de 2018, o negócio saiu. Irving foi mandado para o Boston Celtics em troca de Isiah Thomas, Jae Crowder, Ante Zizic e uma escolha futura de Draft.

Quando a temporada começou de fato, o Cavs não parecia o time que vinha dominando o Leste ao longo dos anos anteriores. Irving fazia muita falta, especialmente porque Crowder não conseguia colaborar na mesma proporção que fazia em Boston e Thomas se recuperava de uma lesão no quadril. Também não eram grande coisa as contribuições de duas ex-estrelas que haviam desembarcado em Cleveland: Dwyane Wade e Derrick Rose.

Pouco antes do “All-Star Game” de 2018, o Cavs tinha campanha com mais derrotas do que vitórias. Esse clima de incertezas motivou uma série de movimentações no dia da “trade deadline”. Isaiah Thomas foi enviado junto de Channing Frye ao Los Angeles Lakers em troca de Jordan Clarkson e Larry Nance Jr. Dwyane Wade foi mandado de volta para Miami. Teve ainda uma negociação envolvendo Utah Jazz e Sacramento Kings, que resultou nas saídas de Derrick Rose, Jae Crowder e Iman Shumpert e nas chegadas de Rodney Hood e George Hill. Essa grande reformulação no elenco só aconteceu depois de uma conversa entre LeBron e Koby Altman, gerente-geral da franquia.

O Cavs evoluiu ao ponto de terminar aquela temporada regular com 50 vitórias. Foi a quarta melhor campanha do Leste. O time entrou nos playoffs sob alguns olhares de desconfiança, como ainda não havia acontecido na segunda passagem de LeBron por lá. Essa sensação foi reforçada na primeira rodada, em que foram necessárias sete partidas para despachar o Indiana Pacers. Em seguida, um refresco: o Toronto Raptors. A série acabou em varrida, com direito a um “buzzer beater” marcante de LeBron no Jogo 3 para reforçar sua imagem de carrasco da franquia canadense.

Arremesso no estouro do cronômetro contra o Raptors nos playoffs de 2018

Depois de passar pelo Raptors, o Cavs encontrou o Boston Celtics na final do Leste. O oponente tinha o mando de quadra e abriu 2 a 0 na série. Tudo isso as duas grandes contratações que tinha feito para aquela temporada: os lesionados Kyrie Irving e Gordon Hayward. Parecia mesmo, pelo menos até ali, um time bem mais equilibrado. Pronto para acabar com o reinado de LeBron dentro da conferência — iniciado em 2011, com o Miami Heat.

Apesar do par de derrotas em Boston, aconteceu um episódio relacionado a LeBron logo depois do Jogo 1 que foi impressionante. Na entrevista coletiva que concedeu aos repórteres locais, ele foi questionado em determinado momento sobre o que havia acontecido no quarto período do duelo. A resposta veio com uma descrição detalhada de cada lance, coisa que só uma memória muito privilegiada poderia oferecer.

LeBron James e sua memória impressionante após o Jogo 1 da série contra o Celtics

O Cavs conseguiu reagir, e aquela série também chegou ao sétimo jogo. Em Boston, o que dava alguma vantagem ao Celtics. Os donos da casa até pareciam ter uma equipe mais funcional. Talvez tivessem algum favoritismo mesmo. Mas em um grau bem pequeno. A simples presença de LeBron James do outro lado, ainda que em um time com defeitos evidentes, bastava para fazer a chance de vitória dos visitantes parecer bem razoável.

Foi o que aconteceu. Depois de terem chamado a atenção durante toda a temporada por fazerem o time superar as lesões dos astros e se manter competitivo, os jovens do Celtics nada puderam fazer para evitar o show de LeBron naquele Jogo 7. Foram 35 pontos, 15 rebotes e nove assistências para ele, que permaneceu em quadra durante todos os 48 minutos da partida.

“Nosso plano para essa série era forçá-lo a gastar o máximo de energia que fosse humanamente possível, ao mesmo tempo que tentávamos fazer o nosso melhor também em cima dos outros jogadores”, admitiu Brad Stevens, técnico do Celtics. “Durante a maior parte do tempo, eu considero que fizemos um bom trabalho nesse sentido. Ainda assim, ele marcou 35 pontos nesse jogo. É uma piada.”

Depois de ter pedido para que seu principal jogador atuasse sem descanso, Tyronn Lue pareceu tão grato quanto impressionado com o que viu. “Ele já teve algumas outras performances inacreditáveis. Mas essa aqui, em um Jogo 7, com todas as circunstâncias que envolvem Boston, todo o histórico e todo o ambiente hostil, está entre as melhores”, disse o comandante do Cavs.

É importante não deixar o contexto da época cair no esquecimento. A trajetória daquele Cavs em 2018 rumo às finais da NBA foi bastante complicada. Mais do que isso: era algo que em muitos momentos parecia até inviável, se não fosse pela presença de LeBron James. A defesa da permanência no trono do Leste naquele ano deve ser considerada um capítulo especial em sua carreira.

Não foi à toa que Dan Gilbert, proprietário do Cavs, postou uma mensagem no Twitter reconhecendo o quanto LeBron havia sido fundamental naquele campanha. “Não há palavras para descrever a qualidade e o nível de comprometimento dele com o jogo. Seu impacto é mágico”, escreveu Gilbert, alguns minutos antes do início da decisão contra o Warriors.

Vale lembrar: foi o mesmo Gilbert que, oito anos antes, havia publicado uma carta aberta para xingá-lo quando ele partiu para Miami. “Assim que voltei para Cleveland, nós conseguimos reparar algumas coisas que aconteceram no passado”, contou LeBron em uma entrevista à ESPN na mesma época. “Ele se desculpou comigo e com a minha família. Temos hoje uma ótima relação de trabalho. Não somos melhores amigos. Acho que não se deve ter uma relação assim entre jogador e dono de uma franquia, a não ser que sejam pai e filho. Mas acho que as coisas têm funcionado entre a gente nesses últimos quatro anos.”

Em que pese o Jogo 1, ficou clara a diferença entre Cavs e Warriors ao longo daquela decisão de 2018. Depois que o campeonato terminou, LeBron virou agente livre e decidiu por uma nova mudança de ares. Dessa vez, porém, não houve clima ruim. As relações com Gilbert e com o povo de Cleveland, consertadas ao longo dos quatro anos anteriores, mantiveram-se preservadas.


Rei em Hollywood

A novela não foi muito longa dessa vez. Logo no dia 1º de julho de 2018, assim que a janela para negociação com agentes livres foi aberta, LeBron James acertou a transferência para o Los Angeles Lakers. O contrato assinado foi pelo valor de US$ 153,3 milhões por quatro anos de duração — com uma “player option” para o último ano.

LeBron James em sua apresentação no Los Angeles Lakers

Em sua nova casa, LeBron encontrou um grupo de jovens que haviam sido selecionados no Draft alguns anos antes: Brandon Ingram, Lonzo Ball, Kyle Kuzma, Ivica Zubac, Josh Hart e Alex Caruso. Todos queridos pela torcida e que despertavam expectativas para o futuro, ainda que em níveis diferentes. Mas também foram trazidos alguns outros veteranos para compor elenco, como Rajon Rondo, Lance Stephenson, Michael Beasley e JaVale McGee.

Ao construir o elenco, a ideia da direção do Lakers era fazer com que LeBron fosse usado dentro de quadra de maneira diferente em relação ao que vinha acontecendo em Cleveland. O que significava forçá-lo menos a se responsabilizar por levar a bola e iniciar as jogadas, deixando-o em condições de ser acionado de outras maneiras para definir os ataques.

Depois de um começo meio complicado, o Lakers pareceu ter emplacado na temporada 2018/19. Na rodada de Natal em 2018, o time atropelou o Golden State Warriors e chegou a 20 vitórias em 34 partidas. A boa campanha e a maneira como superou o então bicampeão eram ótimos sinais. Acontece que LeBron sofreu uma lesão na virilha naquela oportunidade e acabou perdendo 17 jogos. Foi o maior período da carreira dele sem poder entrar em quadra.

Desfalcado, o Lakers não conseguiu manter o ritmo. As coisas não melhoraram nem mesmo quando o grande astro da companhia voltou. A equipe saiu da zona de classificação para os playoffs e acabou aquela temporada em 10º lugar do Oeste, com campanha de 35 vitórias e 47 derrotas. Pela primeira vez desde 2005, LeBron ficou fora dos playoffs.

Grandes mudanças aconteceram no elenco depois disso. A principal delas foi a chegada de Anthony Davis, que já queria ser negociado pelo New Orleans havia um tempo. O Lakers mesmo tentou o adquirir ainda durante a temporada 2018/19. Não funcionou naquela oportunidade, mas deu certo na “offseason”. Davis chegou a Los Angeles um uma troca que envolveu as saídas de Brandon Ingram, Lonzo Ball e Josh Hart.

Anthony Davis se juntou a LeBron no Lakers

As mudanças não pararam por aí. Frank Vogel, que havia enfrentado LeBron duas vezes em playoffs nos seus tempos de Indiana Pacers, substituiu Luke Walton no cargo de treinador. Os experientes Danny Green e Avery Bradley chegaram para compor o elenco. E ao contrário do que parecia ser a orientação no ano anterior, LeBron abraçou de vez a função de iniciar jogadas. A ideia passou a ser a de seguir em frente com isso, sem que fosse colocado um outro armador ao lado dele no quinteto principal.

Esse novo Lakers funcionou muito bem durante a temporada 2019/20. A campanha de 49 vitórias e 14 derrotas colocou o time na liderança do Oeste até o momento em que a pandemia do novo coronavírus forçou uma pausa no campeonato.


Campeão pelo Lakers

Depois de quatro meses de paralisação, a temporada 2019/20 da NBA foi retomada. A solução encontrada para isso foi a formação de uma “bolha” dentro de um complexo da Disney, em Orlando. Jogadores de 22 dos 30 times da liga ficaram hospedados por lá até o momento em que suas respectivas equipes foram eliminadas.

Durante o resto de temporada regular que ainda foi disputada na bolha, o Lakers manteve o primeiro lugar do Oeste sem sustos. Na estreia dos playoffs, chegou a ser surpreendido pelo Portland Trail Blazers, mas depois emplacou quatro vitórias seguidas e avançou. O mesmo aconteceu na série seguinte, diante do Houston Rockets. Outra vitória por 4 a 1 aconteceu na final de conferência. Dessa vez, diante do Denver Nuggets.

A atuação de LeBron James no Jogo 5 daquele confronto, o que carimbou a ida à decisão, pode entrar tranquilamente no rol das mais expressivas da carreira dele. Foram 38 pontos, 16 rebotes e 10 assistências, com 15 arremessos certeiros em 25 tentados e apenas dois desperdídios de posse de bola. Mais do que os números, o que impressionou naquela partida foi a maneira como algumas cestas foram feitas. Mesmo diante de uma defesa do Nuggets que parecia fazer tudo certo para fechar as portas do garrafão para ele, forçando-o a finalizações com maior grau de dificuldade nos minutos derradeiros, LeBron deu jeito de colocar a bola dentro da cesta.

Depois de levar o Lakers de volta à final com aquela vitória, LeBron desabafou. “Foi para isso que vim para o Lakers. Eu ouvi todo o tipo de papo sobre os motivos pelos quais eu teria decidido me mudar para Los Angeles. Coisas que não tinham a ver com basquete. Falaram um monte de besteira. Eu entendo isso. E com a temporada passada que tive, na qual me lesionei, isso só deu mais lenha para jogarem na fogueira. Continuaram falando esse tipo de coisa sobre mim. Mas isso nunca parou minha trajetória e minha mentalidade”, disse.

Ainda faltava mais um degrau para LeBron e o Lakers voltarem a celebrar um titulo. O adversário na decisão foi o Miami Heat, que lutou bem e conseguiu impor alguns desafios ao longo da série, mas sem conseguir levá-la para além do sexto jogo. Aos 35 anos, LeBron James teve médias de 29,8 pontos, 11,8 rebotes, 8,5 assistências, 1,2 roubo de bola e 59,1% de acerto nos arremessos na final.

Ao receber o troféu de MVP das finais pela quarta vez, ainda dentro de quadra, LeBron voltou a falar em tom de desabafo contra quem duvidava que ele continuaria sendo competitivo depois de se mudar para Los Angeles. “Eu falei para Jeanie Buss logo que cheguei que eu iria colocar essa franquia de volta no lugar ao qual ela pertence. O pai dela fez isso por tantos anos e ela assumiu o comando depois disso. Fazer parte de uma franquia tão histórica é um sentimento inacreditável. Não só para mim, mas para meus companheiros, comissão técnica, preparadores, todo mundo que está aqui. Nós queremos respeito. Rob Pelinka quer o respeito dele. Frank Vogel que o respeito dele. Nossa organização, como um todo, quer respeito. A torcida do Lakers quer respeito. E eu quero a droga do meu respeito também”, declarou.

Poucos minutos depois, em entrevista ao Sportscenter da ESPN norte-americana, ele fez uma comparação curiosa com a sua versão do passado. “O LeBron de 35 anos diria para o de 27 o seguinte: ‘Você ainda não conhece seu jogo direito. Ainda não chegou ao ápice. Não tem ideia do que é capaz de fazer. Eu te dominaria. Simplesmente pelo aspecto mental. Você pode até ser todo super atlético, mas não tem a menor chance comigo'”, disse.


LeBron James e as Olimpíadas

Em 2004, depois da temporada de novato na NBA, LeBron James viajou com a seleção dos Estados Unidos para a disputa da Olimpíada de Atenas. A campanha na Grécia acabou entrando para a história de um jeito negativo. Foi a primeira vez que os norte-americanos deixaram de conquistar o ouro olímpico desde que os atletas profissionais passaram a ser permitidos no evento. Os EUA foram eliminados na semifinal pela Argentina e tiveram de se contentar com o bronze.

A participação de LeBron em Atenas foi limitada, com média de apenas 14,6 minutos de ação por partida. De acordo com o que o jornalista Peter Vecsey escreveu em um artigo no New York Post em 2005, a relação do jogador com Larry Brown não foi das melhores durante o tempo que passaram juntos na Grécia. LeBron não gostou muito do tom extremamente crítico do treinador, que também não sentiu lá muita seriedade por parte da então jovem estrela.

LeBron e Carmelo na Olimpíada de 2004

“O ponto mais baixo daquilo tudo foi ter jogado tão pouco”, disse LeBron, em uma entrevista ao The New York Times anos mais tarde. “Nós sabíamos que poderíamos ter ajudado a equipe em certas situações ao longo das partidas. Ficar longe da família por 38 dias sem receber uma oportunidade justa de jogar foi o ponto mais baixo para nós três”, completou, referindo-se também a Dywane Wade e Carmelo Anthony, que também fizeram parte daquela seleção.

Dois anos mais tarde, no Mundial de 2006, a atitude de LeBron no dia a dia com a seleção voltou a ser questionado. Teve uma história antes do início da competição em que Bruce Bowen, que mais tarde acabou sendo cortado, o confrontou por não concordar com o comportamento dele diante de alguns membros comissão técnica. Os EUA, mais uma vez, ficaram com a medalha de bronze naquela competição.

LeBron foi mantido na seleção norte-americana para o Pré-Olímpico das Américas, de 2007. E no ano seguinte, viajou a Pequim como um dos principais nomes da equipe que teria como missão recolocar os EUA no topo do basquete masculino da Olimpíada, depois do fracasso de Atenas. Deu certo. A medalha de ouro foi conquistada depois de uma vitória sobre a Espanha na decisão.

Olhando em retrospecto, parece até difícil imaginar isso. Mas o fato é que LeBron correu sério risco de ser cortado e não fazer parte desse time vitorioso em Pequim. Antes da definição do elenco que viajaria para a capital chinesa, LeBron recebeu um ultimato de Mike Krzyzewski, treinador da seleção, e Jerry Colangelo, presidente do USA Basketball.

“A mensagem passada foi que ele seria deixado em casa se não crescesse, passasse a tratar as pessoas com respeito e se comprometesse a levar as coisas a sério”, escreveu o jornalista Adrian Wojnarowski, que na época ainda trabalhava para o Yahoo. “Colangelo e Krzyzewski queriam estabelecer uma cultura de comprometimento e precisavam acreditar que o talento de LeBron não fosse ofuscado pelos impulsos dele de instigar e enfurecer os outros.”

Funcionou. Na verdade, foi o começo de uma mudança grande. LeBron foi importante para aquela conquista em Pequim. Quatro anos mais tarde, em Londres, disputou a Olimpíada pela terceira vez e ajudou a seleção norte-americana a levar mais uma medalha de ouro. Àquela altura, qualquer dúvida em relação ao comportamento dele já não existia mais. Tudo tinha desaparecido já havia muito tempo.

“LeBron James é um jogador diferente e uma pessoa diferente também em relação ao que era em 2006”, disse Colangelo, logo após a conquista em Londres. “E digo isso com pontos de exclamação. Ele amadureceu de maneira incrível como jogador, como pessoa e como líder.”


Posicionamento fora das quadras

Na medida em que foi se tornando um personagem cada vez maior no mundo do esporte, LeBron James fez questão de levar a sua voz para além dele. Em diversos momentos ao longo da carreira, ele chegou a dizer que sentia-se na obrigação de usar a sua dimensão como jogador de basquete para discutir questões sociais.

Em abril de 2014, quando vazaram áudios racistas por parte de Donald Sterling, então proprietário do Los Angeles Clippers, LeBron disse que “não havia mais espaço dentro da NBA para uma pessoa como Sterling”. Pouco depois, ele foi um dos atletas que chegaram a entrar em quadra para fazer aquecimento usando uma camiseta com a mensagem: “I can’t breathe” (“Eu não consigo respirar”). Era uma maneira de protestar contra a morte de Eric Garner, homem negro que morreu asfixiado por policiais em Nova York após suspeita de venda ilegal de cigarros.

"I Can't Breathe": mensagem na camiseta de LeBron James protesta contra a morte de Eric Garner, asfixiado por policiais em Nova York

As ações de supremacistas brancos em Charlottesville, no ano de 2017, também motivaram um posicionamento mais forte por parte de LeBron. Especialmente depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter aliviado o tom das críticas contra tais grupos supremacistas, equiparando-os a manifestações contra o racismo. “Ódio sempre existiu nos EUA, sabemos disso. Mas Trump fez isso voltar a ficar na moda”, escreveu LeBron em sua conta no Twitter.

A imagem em que aparece usando a camiseta com a mensagem “I Can’t Breathe” foi postada por LeBron em sua conta no Instagram em maio de 2020. O motivo foi a morte de George Floyd, homem negro que morreu sufocado por um policial que se ajoelhou em cima do seu pescoço. A legenda da foto dizia simplesmente: “Ainda”.

O posicionamento de LeBron James em questões sociais vai muito além desses episódios específicos. Ele sempre aproveitou bem os microfones que sempre teve ao redor para fazer as pessoas ouvirem sobre o racismo, ainda que isso tenha despertado o ódio de algumas pessoas. Em 2017, pouco antes do primeiro jogo das finais da NBA entre Cavs e Warriors, a casa que ele já tinha em Los Angeles foi alvo de pichações com ofensas racistas.

Então, na coletiva de imprensa que deu ainda antes de as finais daquele ano começarem, LeBron falou longamente sobre o assunto. Em um trecho da entrevista, disse o seguinte: “Não importa quanto dinheiro você tem, o quanto você é famoso ou o quanto as pessoas te admiram. Ser negro nos EUA é duro. Temos ainda um caminho muito longo a percorrer como sociedade até que nós, enquanto afro-americanos, tenhamos a sensação de igualdade no país.”

Durante os playoffs de 2020, já na “bolha” montada em Orlando, a NBA talvez tenha vivido o principal momento de sua história no que diz respeito a envolvimento dos atletas em questões sociais. Não só pelo “Black Lives Matter” que ficou estapado na quadra até o fim do campeonato, como também pela permissão aos jogadores de usarem frases de impacto social na parte de trás das suas respectivas camisas.

Embora não tenha adotado nenhuma mensagem específica, , LeBron não foi um ponto fora da curva nesse sentido. Pelo contrário: ele continuou atuando como um líder. Usando todo seu espaço midiático para falar de violência policial contra negros, de racismo como um todo e da importância de os americanos, sobretudoos os negros, votarem.

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