LeBron James, Pat Riley e Miami Heat: o reencontro em uma final seis anos depois

Luís Araújo

Depois de vencer o San Antonio Spurs de forma dramática na decisão de 2013 da NBA, o Miami Heat sofreu a vingança em grande estilo no ano seguinte. Aquela final de 2014 não durou mais do que cinco partidas, sendo que as últimas três terminaram com diferença de dois dígitos no placar. A superioridade dentro de quadra entre as duas equipes ficou bastante clara naqueles confrontos. Até por isso, consolidou-se ali uma narrativa bem forte de redenção. Os discursos dos personagens da conquista do Spurs caminharam por essa linha, e nem tinha como ser muito diferente disso.

Naquela altura dos acontecimentos, quem poderia imaginar que Miami Heat e LeBron James levariam seis anos para voltarem a aparecer juntos em uma mesma final da NBA, mas em lados separados? Pat Riley, provavelmente, não pensou em nada disso. A cabeça ali estava ocupada demais pela frustração da perda do título, que só cresceu diante do tanto de incertezas que estavam no ar. Logo no começo da entrevista coletiva que deu após o Spurs celebrar o título, Riley não teve o menor pudor em dizer o que sentia: “Eu estou possesso.”

Também depois daquele Jogo 5 das finais de 2014, LeBron disse que ainda não sabia o que ia fazer da vida. Isso porque havia a possibilidade de ele encerrar o contrato com o Heat e virar agente livre, e perder um título daquele jeito poderia exercer um grande papel no seu processo de tomada de decisão. Talvez por ter isso tudo em mente, Riley usou os microfones dos jornalistas para fazer uma espécie de desafio: “Se tiver coragem, permanece aqui ao invés de aproveitar a primeira oportunidade de abrir a porta de saída e fugir.”

Como bem sabemos, LeBron não permaneceu em Miami. Decidiu voltar para o Cleveland Cavaliers, time que levou a quatro finais consecutivas, incluindo a conquista de um título inédito em 2016. A notícia fez com que a raiva de Riley chegasse a níveis ainda mais intensos. Alguns anos mais tarde, ele admitiu que ficou possesso por dois ou três dias depois que soube que perderia LeBron, mas eventualmente superou esse episódio.

Pat Riley e LeBron James juntos no Miami Heat

“De repente, meu belo plano tinha acabado. Aquele nosso time poderia ter vencido uns cinco ou seis títulos ao longo de dez anos. Mas eu entendi que era uma parte da crônica da vida do LeBron. Apesar de ficar sensações ruins quando ele resolve fazer essas mudanças, tanto em Cleveland na primeira vez como depois em Miami, ele fez a coisa certa”, relatou Riley certa vez à jornalista Jackie MacMullen, da ESPN americana.

LeBron também não gostou muito de como as coisas terminaram em Miami. Na mesma noite em que ganhou o título de 2016 com o Cavs, ele disparou: “Quando decidi sair do Heat, teve gente em quem eu confiava e com quem construí relações ao longo de quatro anos que me disse que eu estava cometendo o maior erro da minha carreira. E aquilo foi a minha motivação.”

Nomes jamais foram citados e Riley nunca assumiu ter dito isso, mas ficou claro que teve um climão ali. Depois daquela final perdida em 2014, a vida seguiu para os dois lados. Em Cleveland, ao lado de Kyrie Irving e Kevin Love, LeBron continuou seu reinado no Leste por mais quatro anos. Enquanto isso, Riley tentou reerguer o Heat. Primeiro, conseguiu manter Dwyane Wade e Chris Bosh, que também poderiam sair como agentes livres. Depois, trouxe gente como Luol Deng, Danny Granger e Josh McRoberts. Um pouco adiante, buscou Goran Dragic no Phoenix Suns por meio de uma troca. Mas não funcionou. Wade já dava sinais de queda e Bosh sofreu com lesões que o limitaram a apenas 44 jogos. Aquela primeira temporada sem LeBron terminou com um decepcionante décimo lugar na conferência para o Heat, com campanha de 37 vitórias e 45 derrotas.

Desde então, o padrão do Heat acabou sendo o de ir aos playoffs ano sim, ano não. Na temporada 2015/16, chegou à semifinal do Leste e perdeu para o Toronto Raptors. No ano seguinte, já sem Bosh e Wade, ficou fora. Aí voltou em 2018, caindo na primeira rodada para o Philadelphia 76ers. Depois, fora mais uma vez. Até a campanha da atual temporada, o que ajuda a explicar um pouco o quanto chega a ser surpreendente que isso tenha acontecido em um espaço de um ano.

É inevitável não colocar a chegada de Jimmy Butler como o ponto simbólico dessa mudança tão grande de realidade do Heat da temporada anterior para a atual. Diante da folha salarial engessada da equipe na última “offseason”, a contratação de um agente livre de peso parecia improvável. O jeito encontrado para fazer isso acontecer foi por meio de uma “sign and trade“, o que significa que Butler assinou um novo contrato com o Philadelphia 76ers só para ser negociado logo em seguida. A negociação envolveu ainda Portland Trail Blazers e Los Angeles Clippers. Para ter Butler, o Heat enviou Josh Richardson para o Sixers e Hassan Whiteside para o Blazers. Deu ainda para ficar com Meyers Leonard de troco.

Foi mesmo uma saída engenhosa que o Heat encontrou para viabilizar essa contratação, mas o ponto principal para isso acontecer foi a vontade de Butler. Ele estava decidido a jogar lá. “Eu sabia o tipo de estrutura que eu gostaria de ter e que precisava. E isso estava no Miami Heat. É óbvio que eu ouvi muita coisa a respeito, mas quando me encontrei com o Pat Riley e com o técnico Spoelstra, me pareceu que essa era a coisa certa a fazer sob todos os aspectos possíveis”, disse Butler.

Ao refletir sobre os motivos pelos quais entende que ter se juntado ao Heat foi mesmo uma decisão acertada, Butler exaltou Riley: “Ele é grande parte do sucesso desse time. Ele espera grandeza de cada um de nós e nos coloca em boa condição de chegar lá. Sem ele, eu não estaria aqui. Também não teríamos esse ótimo grupo de jogadores. Sou muito grato ao nosso poderoso chefão.”

Às vésperas de encontrar o Heat nas finais, LeBron também foi perguntado sobre Riley. “Como você se sente em relação a ele?”, questionou o jornalista em uma entrevista coletiva. “Como assim? Não entendi a pergunta”, rebateu LeBron. “Fica aberto para sua interpretação. Quando você ouve o nome dele, quais são as coisas que você pensa?”, devolveu o jornalista. E então LeBron disse: “Penso em uma das grandes mentes que o basquete já viu. Ele está há quatro décadas competindo por títulos na NBA. Essa liga não seria a mesma sem ele. É um grande motivador e sabe muito bem o que é preciso para ser vitorioso. Durante quatro anos, tive a chance de ver isso de perto.”

Não ficou muito claro se a mágoa passou. Teria sido uma surpresa mesmo se ele revelasse alguma coisa sobre essa relação agora, logo antes de uma nova decisão. O fato é que a trajetória de ambos continuou sendo escrita com brilho ao longo desses seis anos. LeBron foi resolver as contas que sentiu que precisavam ser resolvidas em Cleveland, entregou um monte de atuação monstruosa no meio do caminho, depois partiu para Los Angeles e agora está na final pelo terceiro time diferente. “Como Frank Sinatra diria, eu fiz tudo do meu jeito”, disse LeBron. E é verdade. Talvez nenhuma outra grande estrela tenha tido tanto controle sobre a própria carreira. É uma das várias coisas que dão tons de peculiaridade à essa jornada dele pelo basquete.

Do outro lado, Riley teve seus motivos para ficar com raiva em 2014, afinal de contas não é fácil dar adeus à uma dinastia em potencial desse jeito. Mas depois continuou trabalhando para tentar manter o Heat competitivo o tempo todo. Às vezes com mais sucesso, às vezes com um pouco menos. Mas sempre buscando tirar o melhor possível do que há à disposição, sem nunca recorrer ao “tank”. Nesse processo de prezar por lapidar jovens (das escolhas de loteria àqueles que passaram batido pelo Draft) e desenvolver ao máximo cada jogador que venha a fazer parte do elenco, o que Riley fez foi dar sequência a algo que pode tranquilamente ser apontado como uma cultura de franquia das mais fortes da NBA.

Assim como LeBron, também é um personagem gigantesco na história da liga, extremamente vitorioso, e que pode dizer por aí que fez as coisas sempre do seu próprio jeito.

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